Como o Google nos domina {Parte 2}

Por James Gleick
No The New York Review of Books – via VI O MUNDO
Tradução de Pedro Germano Leal

A primeira parte está aqui

Segunda parte do texto, que é resenha de vários livros publicados recentemente sobre o Google

Os fundadores do Google, Larry e Sergey, fizeram tudo do seu próprio jeito. Mesmo na cultura informal do Vale do Silício, eles se destacaram desde o início como algo original, como “crianças de Montessori” (segundo Levy), despreocupadas com as normas e propriedades, que preferiam grandes bolas de ginástica vermelhas em lugar de cadeiras de escritório, desprezando organogramas e títulos formais, indo de patins para reuniões de negócio. Fica claro em todos esses livros [aqui examinados] que eles acreditavam em sua excentricidade; eles acreditavam com fervor moral na primazia e poder da informação. (Sergey e Larry não inventaram o famoso lema da empresa, “não seja malvado”, mas eles o abraçaram, e agora eles podem muito bem ser donos dele.)

Como eles notaram em primeira mão, sua missão não abrangia apenas a Internet, mas todos os livros e imagens do mundo, também. Quando o Google criou um serviço gratuito de e-mail – o Gmail – seus concorrentes eram Microsoft, que oferecia aos usuários dois megabytes de armazenamento em seu antigo e atual e-mail; e Yahoo, que oferecia quatro megabytes. Google poderia ter coberto essas ofertas oferecendo seis ou oito; ao invés disso, eles ofereceram mil – um gigabyte. Eles dobraram este valor um ano mais tarde e prometeram “continuar dando mais espaço às pessoas, para sempre.”

Eles têm sido incansáveis ​​no avanço da ciência da computação. O Google Tradutor avançou mais no campo da tradução eletrônica do que todos os especialistas em inteligência artificial do mundo juntos. O novo dispositivo, chamado Google Instant (que se adianta ao que está sendo digitado, como se lesse a mente do usuário), já fez com que “até agora os nossos usuários economizassem mais de 100 bilhões de toques no teclado, e este número continua aumentando”. (Se você está procurando informações sobre o “deserto de Gobi”, por exemplo , você recebe resultados bem antes de você terminar de digitar a palavra “Gobi”).

Em algum momento ao longo de sua história, o Google deu às pessoas a impressão de que não se importava com publicidade – que mal tinha um plano de negócios. Na verdade, é claro que a propaganda sempre foi fundamental para seus planos. No entanto, eles desdenhavam o marketing convencional: sua atitude parecia ser a de que o Google iria vender a si mesmo. Como, aliás, o fez. Google se tornou um verbo e um meme. (2) “A mídia tomou o Google como o marco de uma nova forma de comportamento”, escreve Levy.

Inúmeros artigos relatam​ como as pessoas buscam informações no Google para ‘checar a ficha’ de suas paqueras; como elas digitam os ingredientes que têm em casa para que o Google ofereça uma receita; ou como fazem a busca por um número de telefone no Google para saber quem ligou. Colunistas dividem conosco as histórias constrangedoras de quando realizam buscas por seus próprios nomes… um participante do programa de TV Who Wants to Be a Millionare? (3) combinou com seu irmão para que ele usasse o Google quando atendesse sua ligação direto do programa… (4) Um senhor de 52 anos de idade, com dores no tórax, buscou “sintomas de ataque cardíaco” e confirmou que estava tendo uma trombose coronária.

A primeira contratação na área de marketing do Google durou apenas alguns meses, em 1999; sua experiência incluía a Miller Beer e o Tropicana, e sua proposta envolvia grupos focais e comerciais de TV. Quando, ainda naquele ano, Doug Edwards foi entrevistado para uma vaga de gerente de marketing, ele entendeu que a palavra-chave do negócio era “viral”. Edwards ficou durou bem mais no emprego, e agora ele é a primeira pessoa de dentro do Google a publicar suas memórias sobre a experiência.

Ele era o funcionário número 59 do Google, como ele mesmo orgulhosamente anuncia no subtítulo de seu livro ‘I’m Feeling Lucky’. (5) Ele ainda fornece dois outros indícios de quão cedo ele chegou na empresa: tão cedo que ele pode escolher doug@google.com como endereço de e-mail; e tão cedo que o servidor do Google inteiro funcionava em um cubículo alugado.

Com menos de cinqüenta e cinco metros quadrados, (6) [o lugar] parecia um barraco decadente numa vizinhança de mansões. Cada centímetro quadrado estava abarrotado de racks cheios de CPUs [unidades centrais de processamento] depenadas. Havia vinte e um racks e mais de mil e quinhentas máquinas, e deles brotavam tantos cabos que mais pareciam máquinas de espaguete espremendo massinha de modelar. Enquanto outros cubículos eram ordenados e inorgânicos, o do Google era repleto de vida, como um imenso cupinzeiro cheio de atividade frenética e de curvas sinuosas.

Mais adiante no livro, Levy reflete sobre o armazenamento de dados do Google e comenta: “Se você imaginar um calouro de faculdade feito de gigabytes, este [cubículo] seria seu dormitório.”

Agora tudo mudou. A Google opera e é proprietária de uma constelação de fazendas de servidores (7) gigantescas espalhadas pelo globo – estruturas enormes sem janelas, semelhantes a hangares de avião ou usinas de energia, algumas com torres de resfriamento. As fazendas de servidores acumulam exabytes (8) de informação e operaram um conjunto de tecnologia espantosamente inteligente. Esta é a participação do Google na nuvem (aquele espaço fictício onde vivem os nossos dados), e a parte do leão.

Ainda não se sabe bem o quão completamente e o quão radicalmente o Google já transformou a economia da informação. A mercadoria da economia da informação não é a informação: é a atenção. Essas commodities têm uma relação inversa. Quando a informação é barata, a atenção torna-se cara. Atenção é o que nós, usuários, damos ao Google, e nossa atenção é que o Google vende – concentrada, focada, e cristalizada.

Continua…

* Este texto foi publicado originalmente como uma análise das seguintes publicações:

In the Plex: How Google Thinks, Works, and Shapes Our Lives

por Steven Levy

Simon and Schuster, 424 p.

I’m Feeling Lucky: The Confessions of Google Employee Number 59

por Douglas Edwards

Houghton Mifflin Harcourt, 416 p.

The Googlization of Everything (and Why We Should Worry)

por Siva Vaidhyanathan

University of California Press, 265 p.

Search & Destroy: Why You Can’t Trust Google Inc.

por Scott Cleland, com Ira Brodsky

Telescope, 329 p.

Notas da tradução:

(2) “Meme” é como se chamam os clichês na Internet, que passam a ser repetidos, modificados, parodiados, por usuários da rede.

(3) “Quem Quer Ser um Milionário” é um programa televisivo de perguntas e respostas.

(4) Participantes do programa podem consultar gente de fora, por telefone, numa versão eletrônica da ‘consulta aos universitários’, do Show do Milhão, versão brasileira apresentada no SBT.

(5) “I’m Feeling Lucky” é justamente a mesma expressão utilizada no botão “Eu Estou com Sorte” do Google, que direciona o usuário automaticamente para o site melhor classificado pela pesquisa.

(6) No original, “menos de 600 pés quadrados”.

(7) No original, “server farm”. Trata-se de um conjunto de servidores que operam em rede, dividindo tarefas.

(8) Para efeito de comparação, 1 exabyte equivale a 1 bilhão de gigabytes

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