Como se já não fosse

                                                                                  ‘E tudo o que amei se dissolve’
                                                                                                                Lêdo Ivo                        

Quando espocaram os fogos no meio da noite, ela puxou a colcha de chenile do rosto, pigarreou e perguntou curiosa, o que é isso, minha filha? Como ninguém respondia, voltou a perguntar, agora com mais vigor, que fogos são esses, meninas? E uma voz, de longe, num tom mais para sem-paciência, gritou de um daqueles quartos dos fundos: é a passagem de ano, Dona Fausta!

Foram alguns minutos sob o troar das bombas, que ela ficava imaginando que cores deviam ter. Pela pancada, essa deve ser de estrelas amarelas ou roxas; essa são aqueles prismas que saem do centro para os lados e vão se esgarçando até sumir; essa outra, de bolhas imensas incandescentes, como lâmpadas antigas e amarelas; ah, e as lágrimas cristalinas que caem, não dos olhos, mas do negrume dos céus – como são belas!

Sentiu então uma lágrima morna escorrer-lhe do olho direito até o canto da boca, salgada.

Mais que pólvora! Ô fogueteiro bom! – quis pensar, e o pensamento lhe saiu alto e molhado. Mas também não havia ninguém para lhe dar ouvidos.

Ficou sem mexer um dedo, um bom tempo, no meio da cama, na semiescuridão, voltada para a claridade afastada de um bico de luz de poucas velas no meio do corredor comprido, pensando, e feliz em se dar conta de como sua memória, hoje, estava boa. Tudo o que a lembrança trazia à baila, chegava coberto dos nomes. Os de hoje e os de ontem. Tinham parado de fugir? Engraçado. Os circuitos enfim funcionando, pensou. Como se houvesse perdido a vida e agora a reencontrasse. Sem muito esforço. Sem se exigir.

Aproveitava esses momentos evanescentes, chuvas de verão, chuvisco, como dizia, para apurar assuntos que se esfumaram no arremessão do tempo.

A noite em que ele chegou perto dos meus olhos, sob a luz do parque de diversão, e disse que tinha um elogio a me fazer. Diga, o encorajei. Você tem as sobrancelhas mais lindas que minhas vistas já alcançaram, disse com uma voz terna que jamais ouvira. Fiquei desapontada. Sua timidez não daria para mais, pensei por aí. Esperava, francamente, algo de mais concreto, depois de tantos anos de arrodeio. Mas não passou do ensaio.

Décadas depois, retomou, onde estão as sobrancelhas que tanto amei? Hoje, um traço de lápis, um desenho de tisna ridículo, sem o arco majestoso, sem pelos sequer, sem a grossura que lhe era o encanto. O que me fez casar com você foram suas sobrancelhas, afirmou numa seriedade risonha. Convenci-me ali, tanto tempo depois, da verdade da declaração juvenil. E imaginar que tudo, que esse altar de afeto, com incenso para adoçar e perfumar, como outros enevoa-se um dia, cai em buraco turvo, e não tarda a ser esquecido.

Nos últimos tempos a casa grande tinha-se despovoado.  Não mais a efervescência de outrora. Os inúmeros que por ali passavam para estender a mão, informar, adular, para pedir a bênção, ou simplesmente para registrar presença, sumiram. Os amigos, os amigos… os favores pessoais e políticos não havia mais quem os distribuísse. Dos dez a doze quartos, não mais que três ou quatro seguiam de portas abertas. Os criados tinham-se ido, quase todos. Restaram os mais chegados, do círculo mais íntimo. Os seus queridos.

Antonina, suas mãos e pés, como dizia – à frente deles. Era a terceira geração de uma família que vivera para dedicar uma espécie de amizade e devoção aos patrões e, hoje ainda, seguia à sombra da matriarca.

Antonina, minha filha, venha mais pra perto, eu a amo muito. Não me deixe. Se um dia for embora, me leve consigo. Tive quinze filhos, criei todos, menos os gêmeos, coitados, e dei a educação possível a esse fim de mundo. Assisti um a um sair de porta afora. As visitas apoucaram com o andar do tempo. Hoje só de quando em vez me aparecem. Nunca pensei que o pior de fazer-se velha fosse a solidão. Mas comprovei, desafortunadamente.

Não se preocupe com este caco de gente. Dê-me comida e me deixe limpinha. Só isso. Não se impressione com tanta lida. Seu aperreio não irá muito adiante.

Estou pronta para morrer. Já posso ser enterrada. Não escuto quase nada; não ando, ou melhor, ando mal; não dou ordens, ou melhor, ninguém me acata; os últimos dentes acabei de extrair, a prótese machuca. Sua graça, que tanto me dava prazer em chamar, me escapa. Desculpe-me, mas como é mesmo seu nome, minha filha? Como? É… já passo da hora. Mesmo assim tenho medo – e faz um ar de riso. Receio dos dedos compridos dela, da pele caspenta, do cheiro mofado, da voz fina. Sempre pensei, na verdade, que fosse grossa, mas uma comadre que desencarnou lá no Torto de Fora me disse, em sonho, que não. Perco o sono pensando como vai ser o enlace ou desenlace, o que seja: eu debaixo daquele olhar rígido me chamando – ou ordenando -, daquela sombra por rosto, do hálito infecto, na hora sem mais remédio, humilhada, e ela, como sendo a coisa mais natural do mundo.

Meu medo é estar sozinha nessas horas, daí o susto da solidão.  Não é em vão que a quero sempre por perto, minha filha. Afinal, quando a coisa seca chegar, quem vem me acudir? Infelizmente também sei que na ocasião não haverá ninguém, todos terão sumido, inclusive você, o passamento é ocupação de cada um, quadra solitária, restará apenas meu olho grelado e diante dele a imperturbável carranca, de quem cortei caminho enquanto pude. Sinto que não demoro. O outro lado já abriu sua porta rangedeira. Mesmo assim, gosto de me enganar, quero minha filha sempre por perto, viu? E caiu no sono.

Dormia e acordava. Mexia-se muito. De manhã cedo se sentiu consumida pela noite toda sem pregar olho, num jorro de memória como há muito não experimentara. Quando decidia-se dormir, um turbilhão de cenas, seres e objetos sacudia-lhe a caixa dos ossos e tudo recomeçava. Um filme sem fim a tomar-lhe conta dos sentidos, plano a plano, numa sequência de imagens esgotante, e ela a protagonista do romance – da infância às asperezas de hoje.

Eles lhe reapareceram ali, na insônia da noite, depois de anos, décadas. Tornaram-se visíveis, repentinamente. Os gêmeos. Como que vindos de uma faixa escura do passado. Como algo que andava sumido e de repente salta diante dos olhos. Não se projetavam como sombras, mas com a singularidade de sempre: de tão brancos – mais que albinos – que pareciam azulados, engatinhando incessantes pelos quatro cantos da casa – como em vida, reprisando-a, feito bichos de expressão estranha, gasguitos, alguns os achando mofinos demais, outros, faltos de alegria, dupla lua minguante, até serem tomados de repente pelo quebranto, num fim de tarde de agosto – coitados!

Nada tinha a ser feito. Ou, tudo já fora feito. Choravam ou choramingavam das sete da manhã à sete da noite. Dezessete dias sem consolo. Paravam e recomeçavam. Sem conforto. Sem achar canto. Meus olhos, dois tições desesperados. Meus braços descaídos, sem alento.

– Dê um chá de alecrim que eles morrem calados, me aconselhou uma comadre lá do Torto de Dentro. E assim o fiz. Eles abriram o bico como passarinho. E depois fecharam.

As cenas de tão reais passaram a ser comentadas de esquina em esquina, como sendo a segunda morte dos gêmeos. Dona Fausta acamou-se por uma semana, à espera de lhe passarem as dores do corpo e a perda de interesse por tudo. Não falem comigo, estou triste e neurastênica! – antecipava-se a quem chegasse à porta do quarto. Não voltou a se cobrir de luto como se pensava. Mas carregou por algum tempo, no lado esquerdo do peito, um fumo – faixa de crepe preta, fixada no vestido com alfinete, em sinal de luto, pela segunda vez em uma única intenção.

Dias depois, sentada à cabeceira da mesa grande da sala de refeições – para mais de vinte assentos -, sozinha, bem mais calma e de cabelos ainda molhados, pediu que Antonina lhe trouxesse os cadernos e brochuras onde dormiam anotadas receitas de doces e sobremesas – cerejas da culinária, como dizia – passadas de geração a geração.
Doces de frutas de época, pavês de biscoito, biscoitos de polvilho, sequilhos, rabanadas, orelhas-de-pau, fios de ovos, baba de moça, alfenins para puxar em casa ou nos engenhos, bolos, tortas, espécies de gergelim, pudim de leite em calda de açúcar queimado, doce de caju, de mamão de vez com fios de coco, de goiaba, em calda ou mexido, feito em fogão a lenha – fogão inglês -, em tacho de alumínio ou cobre, com alguém a mexer-lhe o dia inteiro – de de manhã cedo até borbulhar – dar o ponto – à boquinha da noite. E o cheiro da goiaba entranhado nos cômodos da casa. Dentre os segredos de família, não exatamente embaixo de sete capas, estava um que era a unanimidade – até por incomum e exótico: o doce de ovos. Uma espécie de ambrosia, sem a canela de leve e sem o cravo-da-índia, mas com o escuro da rapadura.

Minha filha, me desculpe, mas como é mesmo o seu nome? Me desculpe mais uma vez, Antonina, é que os nomes vão e voltam, às vezes vão e não voltam. O tempo rói.

Dona Fausta, não é bem assim, não se pode descrever todos os fatos com pelos e sinais; é comum com o passar dos anos muita coisa cair na deslembrança, na caixa das almas, e que seja complicado resgatá-la. Acontece comigo que tenho a idade de suas bisnetas.

Não. Só eu sei o que sinto, eu sei de mim. O que quero é que você, minha filha, vá preparando essas receitas sempre, para não esquecê-las. Mesmo que não tenha gente para comer. Quando quiserem apodrecer, jogue-as fora.  Faça e deixe-as aqui no aparador, adoro sentir o seu cheiro e ver a beleza das compotas, suas cores, já que vocês não querem que eu as prove.

Mas o que quero é que toda essa coisa saborosa, alguma me passada por mãe Sinhá, minha avó querida, não se vá comigo.

Dominava a dita cultura doméstica. Sabia-lhe os cheiros e sabores, sua etiqueta, as palavras e nomes para suas flores, suas cores, pedras preciosas e semi, suas joias, seus tecidos, costuras, suas orações, rezas e adoremos. O oratório no último do quartos, sobrecarregado de santos, fitas, ramalhetes e, ao fundo, sobressaindo-se, a calva de Santo Antônio, seu protetor.

Assim foi, de loja em loja, que aprendi quais os tecidos da moda, as texturas mais bonitas e adequadas a se levar sobre o corpo; nunca as esqueci, alpaca, caxemira, juta, linho, piquet, tafetá, fustão, tricolina, organdi, brim, gabardine, cambraia – sempre a bordada, a de minha preferência -, tule, musselina, brocado, popelina. Não foi com nenhum desses… Casei-me com um vestido de organza, esvoaçante – e fazia com que o tecido da peça se espraiasse sobre seu corpo, modelando-o.

O desfrute do paladar, no entanto, foi seu garimpo mais refinado, do qual não deixava perder o delicioso filão. A mesa farta. Carnes, peixes, aves, massas, às vezes numa mesma refeição, sem contar os doces. As empregadas, cedo, deveriam de entender o rigor da exigência com o açúcar e o sal – nem a mais nem a menos. A implicância do sal exato. Que tivessem todas o dom do sal. E do doce.

Dona Sinhá, desde sempre celebrada como o veio ancestral culinário.

Não é mãe que se possa dizer que amasse mais os filhos que o esposo. Desde sempre veio em primeiro lugar o finado.
A passeata vindo em minha direção, ele bem moço, de paletó, sobre os ombros da pequena multidão, as bandeirolas, apitos, hip- hip-hurras, o triunfo, o cenário estadual descortinado. Dizia pra mim mesma, orgulhosa, que a filha do padeiro dera realmente um giro impensável na vida, que giro! Mas a atmosfera que me inebriava não era somente o poder conquistado, que, claro, enchia minha alma, mas, principalmente, o idílio amoroso que continuávamos vivendo, após dois anos de matrimônio e já movendo-nos às voltas com nosso segundo filho.

O sogro não aceitara que seu filho se casasse com a filha de um padeiro; ainda mais, chegado a serenatas, a boemia, desregramentos; de quem se dizia, inclusive, que vendia as calças para dançar um samba. Sua opinião não foi levada em conta, todavia; a paixão incontornável dos jovens prevalecera.

Tão venerada que foi ele a última coisa que lhe abandonou a memória. Ou melhor, a penúltima. A última mesmo foi o pudor. É, mas aí não é mais lembrança – dizem que algo igual a decência -, um sentimento aferrado que nela ficou feito tatuagem. Até a estrema, quando as frases não mais lhe saíam e sim palavras desconexas; quando a comida lhe chegava não pelas suas mãos; e quem adentrasse seu quarto, não mais recebia seu sorriso apaziguado, e sim uma máscara severa; até aí, puxou os panos para cima de si, defendeu-se na hora de trocar-se, contorceu-se. Empurrava, protestava, ocultava com forças devastadas suas intimidades, e estapeava quem tivesse a tarefa de asseá-la.

O esquecimento é também uma maneira de morrer aos poucos. Ou, dizendo melhor, de morrer inteiramente. Sem deixar nada dentro ou atrás de si. Um copo vazio onde até o ar tenha sido retirado. Às vezes me pego leve, desocupada, como esse copo.

Tenta fazer à mesa um comentário, que a princípio lhe sai bem, e logo não sabe como prosseguir, causa desconforto, todos procuram mudar de assunto; é, mamãe, é isso mesmo, depois a senhora se lembra; não, eu não estou louca, como é mesmo o nome daquele nosso amigo?, aquele, aquele filho do compadre lá dos Potros Mortos… ou é do Casteliano?, irmão de… daquele rapaz bem simpático, conversador, que esteve aqui na última feira, sim, daquela família… que sempre foi aliada – e enreda-se numa teia de deslembranças sem fim, num esforço em chegar a alguém ou algum lugar, e que só aumenta o constrangimento.

Tenho impressão que a minha privação de memória se deve a que nenhum fato recente mereça ser lembrado. Nada onde possa ancorar a memória. O que tinha realmente valor já aconteceu. Os anos verdes, o amor definitivo, a fileira de filhos. Que de bom grado os trago comigo. O que sobrou foi esse feijão sem tempero. Por isso não me incomoda acolher tanto esquecimento dentro de mim. Como posso me encantar com dias opacos como esses, que só me dão sono e vontade de sumir?

Falar do tempo é coisa de quem muito andou, reconheço. Apesar de tudo, anseio por andar bem mais.

De todos os medos que trouxe comigo, um sempre me apavorou. Chegar à velhice e me repetir em demasia. De novo aquele cantochão. Feito meu pai que deixava os de casa com os nervos expostos, perguntando e repetindo a mesma estória o dia inteiro. Felizmente disso me livrei. Não consigo, hoje, repetir o que falei há instantes.

Mas, cedo ou tarde, vou sair sem bater a porta e cair na estrada até bem depois da porteira da fazenda Riachão, onde ficava a casa grande dos meus avós, começo de tudo. Vou realinhar ali os meus passos, pé-ante-pé, com minúcia, para percorrer de volta toda a minha trajetória e ordenar as lembranças; só muito depois voltarei e chegarei aqui, sem ter deixado nada de lado. Andarei no meio do caminho, que será marcado não com migalhas de pão, mas com pedra – que por aqui é produto fácil e barato. Não sei se conseguirei. Serei a menina do bornal na cintura a juntar o que lhe caiu pelo caminho esses anos todos. Quem sabe, com a paciência da marchetaria, consiga refazer as formas do vaso espatifado em que se fizeram os meus dias. E vocês não mais vão poder ficar pelos cantos rindo dos meus esquecimentos, dos lapsos, com risinhos envenenados atrás das portas, como se não fosse o destino comum. Terei de me lembrar sim desse propósito. Deverei. É o mais difícil, reconheço. Me lembrem, por favor.

Existem os que têm a emoção nos gestos. Era seu caso. Por vezes, de tão exuberantes, anotavam um quê de teatral. Aparentava gostar de ver ao seu redor pessoas sideradas, tomadas de admiração pelo que ia dizendo ou representando. Depois do assunto servido, era de dar palpite, de deitar seus comentários, fosse sua a conversa ou de outrem.  Encarregava-se, aos poucos, de trazer a conversa para sua ótica, sobretudo de deixá-la a seu gosto: fina ou grossa ou de dedo – como quisesse -, usando ao que parece a medida da colher de pau do mingau dos quinze filhos. Podia deixá-la fluir como a mais fina das amenidades, ou engrossá-la, a depender do rumo da prosa, como um engrolado indigesto. Argumentava com sugestões, com meias-palavras ou, preferencialmente, com palavras inteiras. Se preciso espetava os nervos do adversário com todos os mal-estares possíveis para enervá-lo. Confessava encantamento pelos homens e mulheres de fibra longa, como o algodão daqui de perto, e os seus fermentos misteriosos. Alguém que não tivesse inimigo não lhe era confiável. E justificava: como é possível, em meio a uma guerra dessa, encarniçada, sem quartel, não se ter malquerença alguma? É fraqueza ou covardia, completava.
Na ponta da língua o verbo e suas combinações tão pessoais. As frases construídas com espontaneidade e até com alguma sofisticação. Aos poucos, uma explicação tecida pela boca da gente: uma mulher do sertão, sensível, observadora, de uma sabedoria de livros não saída – isso que era. Tudo o que aprendera tendo sido de oitiva, saber por ouvir dizer, escola muito pouco, coisa para uns quarenta dias.

Na perda do meu filho querido, um menino, trinta e cinco anos, o sorriso mais luminoso sob esse sol, o carnaval de todas as minhas estações, provei do destino e a sua tonelagem.

Chorei a seco, ainda assim, quando as lágrimas não mais existiam. A fonte do choro secara. Mas eu seguia naqueles abalos incontroláveis – seriam espasmos convulsivos? – que me moíam as carnes, esmagavam, e me levavam aos fundos da dor. Juntava forças para contestar o consolo dos que se repetiam seguidamente que tivesse paciência, que a dor havia de passar – embora sem convicção. Depois de algum tempo juntei mais forças e lhes disse: Que passa, ah isso passa! Passa como a cana passa na moenda. Vira bagaço. E murmurou num tom de lástima, quem vive tanto, termina vendo o que não deseja ver!

O certo é que eu tinha pena de mim, estava com dó de mim, sentia-me sob enorme pedra, e naquele instante nada podia ocultar ou dissimular minha dor, nem minha insuspeitada rudez.

Consumindo-se pelo desgosto que lhe escavacava as carnes, as faces, os gestos.

Mãe não foi feita para enterrar os filhos, repetia à exaustão, repetia até para quem não a quisesse ouvir.

Os guarda-roupas da casa grande eram territórios de poucos olhares. Ali mantinha longe da curiosidade suas duas centenas de lençóis, arrumados, impecavelmente dobrados, e especialmente perfumados. Às vésperas do nascimento dos filhos as roupas dos bebês eram retiradas, já lavadas e passadas, e depois defumadas em grande varal, onde recebiam a fumaça de substâncias aromáticas, quase sempre alfazema, incinerada em grande bacia de alumínio, deslocada lentamente por baixo dos tecidos dependurados, para impregná-los, num ritual quase sempre ao fim da tarde, onde a magia do momento cerimonioso e o cheiro envolvente a entrar-nos pelas narinas concorriam pela primazia.

Na hora do almoço, certo dia, dez anos após seu passamento, perguntou, onde está Ulisses?, cadê que não vem para o almoço? Antonina fez que não ouvia, ela perguntou de novo, bem mais alto, irritada, então a dama de companhia respondeu baixinho, quase sem abrir a boca a fim de que não a compreendesse, Dona Fausta, Seu Ulisses morreu. Mas ela ouviu perfeitamente, tomou um susto como se tivesse sido atingida no peito por uma pedra, arregalou os olhos, e disse com ênfase de quem nasceu para o teatro, o quê? quando? e como você não me disse, menina? Aí caiu num pranto que durou a tarde toda. Ninguém conseguia ajuntá-la.

De todas as perdas e pesares certamente foi a que lhe chegou mais perto do último dos nervos. O sorriso nunca mais o mesmo. Os espaços da casa diminuíram. O sobrado interditado a partir da escada. Ninguém deveria transpor a porta onde ele viveu os derradeiros estertores, e aonde ela chegara nos braços da criadagem para se espantar com o som tão alto das batidas do coração querido que findava; impressão dos que estiveram ali também.
Aos curiosos que se esgueiravam para adentrar o quarto, escalou Antonina e, depois, a moral de Cristina Varjão, para detê-los. Queriam, no fundo, atestar que a fortaleza extinguira-se.

Ordenou na hora, ainda no escuro da madrugada, que o calendário dependurado na parede tivesse suas folhas arrancadas a partir daquela data.

Rasguemos o calendário. O tempo acabou! – determinou em voz alta.

Nunca me foi dado saber de infidelidades ou falta de observância à fé jurada, por parte dele. O que não significa não ter havido rumores e muito zunzum, com frequência bem maior que o esperado, em torno de suas maneiras. Nunca fui de apurar. Resolvi confiar piamente, ou dissimular, quem sabe esconder os próprios sentimentos, sem muitas perguntas, até por medo de chegar aonde não gostaria. Dou-me a ruminar agora pela primeira vez esses fatos, ou mais precisamente a pensar sobre suposições – ainda que em voz baixa -, e confesso, não o faço sem melancolia. O que dele me ficou, acima de maledicências, foi o amor. E me basta.

Da maneira como às vezes queria almoçar duas vezes seguidas, por não se lembrar de que já o fizera, passou também a reprisar as mortes que já haviam ocorrido há algum tempo. Quando a lembrança conseguia localizá-las, o filme era rodado, como se tudo estivesse se passando de novo. Assim, muitos, morreram algumas vezes em Dona Fausta.

Sei que muito vivi e tive meus dias cheios. Só que não os lembro  inteiros. Mas sei que enchem um baú de fatos e pesares. Coisa de quem viveu em excesso. Meus mortos mais do que isso enchem uma casa, uma casa grande. Infinitamente maior que a urna de maçaranduba que guardava os ossos branqueados do tio Zu, guardada no cofre de meu avô, na casa da fazenda, à espera de que preparassem um túmulo para recebê-la.

Foram muitos os meus dias, demais até. Hoje, entretanto, enxergo-os como um breve aceno de mão, uma cerimônia que mal começou e já me toca retirar-me. Esperava que fosse mais demorada, confesso. Não viverei dez invernos, me faltam forças para tanto, eu sei. Quem sabe, um par deles – e me daria por satisfeita. Ainda quem sabe, chegar até a próxima safra de manga, a minha preferida. Seria a glória.

Mas, como preocupar-me com o futuro, se já não posso nem com o presente, onde tudo é embaraço e estorvamento? Cansei também de debulhar o passado. Muito fiz inclusive para livrar-me da memória; dos anos ruins, da pobreza, da perfídia, da luta sem fim; para transformar tudo em esquecimento, sim. Pouco a pouco admiti que muita coisa fica melhor enterrada.

Os nomes se esgarçaram ligeiro como o trapo ali no varal. Mas os possuo no esquecimento. Sei que embaixo dele há muita coisa, inclusive meu latifúndio de gestos, quereres, histórias – que já não pode ser visto, nem apalpado ou ouvido. Nem mais cheiro tem. Ainda assim não deixa de ser meu. Pergunto-me às vezes se é possível ser senhora do que não existe. Sei não. Tampouco me sinto proprietária de nada.

O melão caetano vai tomar conta de tudo isso. Será um reinado que não há de como se contar em anos. Vocês não serão testemunhas. Continuará aqui com o resto da última parede, os derradeiros tijolos, cacos de telhas, lagartixas renitentes, quando nem sombra do último vivente estiver na memória do que foi esse arruamento um dia. Minha contagem é tão só regressiva e tudo aqui é um samba acabado.

O samba que também fora do seu gosto musical. Muito apreciava música, gostava de cantar ‘sertaneja se eu pudesse se papai do céu me desse’, ou, ‘senhor da floresta um índio guerreiro da raça tupi’, ou, ‘a carimbamba cantando assim amanhã eu vou amanhã eu vou’… nas muitas festas que dava para a cidade inteira. Os melhores sanfoneiros eram seus escolhidos.

A última foi a dos seus oitenta e cinco anos.

Na hora de botar no dedo o anel de esmeraldas incrustadas em ouro branco, dá-se conta de que a joia rara, das dezenas que guarda debaixo de mil e um segredos, em porta-joias de feltro vermelho e caixa de jacarandá, regalo do finado, desaparecera. Quem viu meu anel? Quem por acaso dá conta de um anel de esmeralda? Quem surrupiou meu anel? Aí o discurso começa a engrossar. Inflama sem hesitação o entorno, interrogando, querendo saber detalhes da chegada de todos e de cada um, dos passos seguintes, dos motivos da vinda, sem interessar o constrangimento, mesmo sendo todos seus convidados.

No auge do vexame, volta a recontar as joias e dá-se conta de que se enganara, que está tudo certo – que está ficando doida, como diz, ou coisa do gênero -, enquanto beija o anel repetidas vezes e diz Deus é grande, Deus me ouviu, mas já era tarde, todos vão deixando o recinto, sem aceitar desculpas, e o aniversário termina assim, com ela e os seus empregados a sós, em volta do banquete praticamente intocado.

Esquece coisas, fatos, pessoas e também sentimentos, afetos, quereres. Que se estraçalham ou que mínguam aos poucos O corpo não responde, não anseia, não se comove. A filha caçula, a quem tanto queria, passa a ser na sua presença uma a mais, ou seja, nada. Como se não existisse. Suas histórias, a sua e a da filha, caídas num fundo de poço, ou numa fornalha extinta, quem sabe do velho engenho apagado do Riachão – sem calor ou cor ou eco.

Começara a engomar. Não a passar roupa, para isso tinha a criadagem que embora menor, ainda se esbarrava pelos corredores da casa grande e não parava de tagarelar. Engomava com os pés. Numa passada sem mais vigor. De joelhos flácidos e carnes murchas. Arrastada. Miúda. A pele vincada a lhe esquadrinhar incontáveis figuras geométricas nas faces, pescoço, braços, cotovelos, dorso das mãos, como se uma teia de aranha enorme ou labirintos de bordadeira de bilros, agora envolvessem sua superfície, redesenhando-a, impondo-lhe anos e severidade à expressão. Iludir-se não havia mais como: estava velha. Por cima de todo o desejo. De dissimulações. Inocultável. A idade, assunto trazido sob véus por todos os anos, proscrito da cozinha à alcova, a quem de juízo, incluindo crianças e visitantes desavisados, fizera residência: a boca do bicho de sete cabeças da vida inteira, à beira dos noventa, devorara tudo.

Seu assento dos últimos tempos foi uma espécie de leito, ou mais apropriadamente, uma cadeira de passagem. Poltrona grande e confortável. Ficava ali os dias inteiros; logo após o banho da manhã traziam-na branca de talco, completamente perfumada, às vezes com colar e anel de madrepérola, ou o seu mais querido, o de camafeu, e passava sentada o resto do dia, vendo o mundo, na fundura do silêncio. Via ou fazia que via o que lhe ia ao redor. Estranha como uma estátua semimóvel, ou um espantalho por vezes risonho, escondida na folhagem da poltrona de forro grosso, meia dúzia de pequenas almofadas a apaziguar-lhe o desconforto dos músculos escassos, das juntas enrijecidas, do corpo feito bloco inteiriço. Dormia, acordava, dormia, pescoço descaído, e o silêncio cada vez mais cavado – como birra ou desgosto mortificado. Não adiantava pedir que falasse, que dissesse algo, permanecia num perfil de mistério, numa postura solene de sacerdotisa que na liturgia resguardasse um segredo inconfessável.
O entra e sai da casa, e ela ali na sala, no sofá, distante, olhar vago, sem nada notar, uma boneca largada ao colo. Ninguém a cumprimenta, muito menos, claro, pede como antigamente permissão para entrar, ignorando-a, como se já não fosse.

Assim até a noite em que emendou o sono.

Médico, poeta, contista e compositor. [ Ver todos os artigos ]

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