Como sobreviver ao fim do mundo

Por Sérgio Rodrigues
VEJA

Quis o acaso que eu estivesse lendo dois ensaios de peso sobre a famosa “crise do romance” quando os jornais de terça-feira trombetearam o fim do mundo, com as bolsas de valores derretendo em todos os cantos do planeta e as multidões de saqueadores de Londres ateando fogo à cidade que até então parecia a prova mais risonha de que o multiculturalismo globalizado podia dar em boa coisa, afinal.

Essa atmosfera de fim dos tempos – ou no mínimo de fim de uma era, uma vez que o apocalipse maia em 2012 é duro de levar a sério – foi o ruído de fundo perfeito para a leitura de É possível pensar o mundo moderno sem o romance?, de Mario Vargas Llosa, e O romance é concebível sem o mundo moderno?, de Claudio Magris, ensaios que são, respectivamente, a abertura e o fecho do monumental volume de crítica literária organizado pelo italiano Franco Moretti, “A cultura do romance” (Cosac Naify, 2009, tradução de Denise Bottmann).

Respondendo a provocações em que a ordem dos fatores altera, sim, o produto, o consagrado romancista peruano e seu colega italiano, que também é crítico, não poderiam deixar de adotar posturas diferentes diante de uma questão que, embora visitada à exaustão por pensadores de calibres diversos, continua sendo um nervo exposto: a progressiva anemia cultural da literatura no mundo contemporâneo.

Cada um a seu modo, eles começam por concordar num ponto: o romance criou a voz com que a consciência moderna conversa com o mundo e consigo mesma. Retórico, Vargas Llosa imagina que “o mundo sem romances” seria um lugar “incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo”. Mais sóbrio e voltado para a história do gênero, diz Magris: “O romance não é só mimese do mundo moderno mas também se pôs como seu instrumento cognitivo privilegiado”.

Os dois também concordam sobre a sinuca de bico em que o mundo contemporâneo – virtual, pulverizado, superinformado, veloz, visual – pôs o romance, mas aí começam as discordâncias. Vargas Llosa termina seu ensaio com palavras de ordem: “Há que ler os bons livros e incitar a ler”. Magris ensaia uma postura mais desapegada de cientista para constatar que, como a poesia épica morreu, suplantada justamente pelo romance, este também não tem garantia de nada. As formas literárias são históricas, e Magris acredita que hoje “a maior parte dos romances assemelha-se a aparelhos antiquados e obsoletos”. O que talvez nem seja culpa deles, mas apenas subproduto de uma contingência maior, a de que “o mundo moderno, a modernidade com m maiúsculo, acabou ou está acabando”.

Pelas manchetes de ontem, parecia estar acabando mesmo. Mas de repente, levantando os olhos do belo e sombrio tijolão cosaquiano, vi minha filha absorvida num dos magros volumes da coleção infantil “O pequeno vampiro”, da alemã Angela Sommer-Bodenburg. Ela tem devorado um atrás do outro. Seus olhos brilhavam.

Empanturrado de tantas grandes questões, decidi que aquela cena era uma bela resposta ao apocalipse. Doméstica, de uma singeleza absurda, mas mais que suficiente. Bolsas despencam, Londres arde, mas chega uma hora em que é preciso tocar a vida: ler, escrever, amar. Os grandes ciclos históricos que cuidem de si mesmos ou vão para o diabo que os carregue.

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