Como ter e ser tudo o que o mercado impõe?

Por Regina Teixeira da Costa
Estado de Minas

O que todo mundo quer? Ser feliz! “Oh, happy day”, diz o refrão da música na propaganda da margarina que todos sabem de cor. Sim, queremos ser felizes, mas a que custo? É possível ser plenamente feliz? Qual o preço dessa felicidade?
Depende de o que é a felicidade para cada um, porque a verdade é múltipla. Se felicidade significasse seguir todos os ditames do mercado e da contemporaneidade, ela estaria fora de nosso alcance. E muita gente é capturada nesse engodo.
Obviamente, é impossível sermos todos ricos, consumistas, belos, magros de corpos atléticos, cultos e bem-vestidos de acordo com a última moda. Também é impossível sermos totalmente bondosos, generosos, solidários, cidadãos exemplares.
Adotar todos os ideais espetaculares da nossa cultura atual, fomentados pela indústria da propaganda a serviço do capitalismo agressivo, porém muitíssimo sedutor, é tarefa impossível. E nós, ingenuamente, nos culpamos ao falhar. Vejam como ficamos infelizes quando é obrigatório ser feliz.
Como ter e ser tudo o que o mercado impõe? Ficaríamos duas horas por dia na academia malhando, trabalharíamos outras 22 horas e consumiríamos tudo pelas lojas mais espetaculares, viajaríamos para os quatro cantos do planeta e ainda dominaríamos vários idiomas. E sossego, quando teríamos?
Todas essas exigências, essa criação de falsas necessidades fomentadas pelo pródigo imaginário humano e pela mão invisível do onipresente mercado só nos fariam ser fracassados. E, provavelmente, mais endividados. Talvez corruptos… Pois poucos são ricos sem que a fortuna venha de fontes duvidosas. A acumulação de fonte limpa é bastante rara – e para poucos. Iluminados, competentes e, ainda, sortudos… Nada contra, até admiro.
A história das grandes fortunas mostra fontes enraizadas num passado sangrento, de exploração e imposição sobre o outro indefeso. O homem não é nem bonzinho nem bobo. Se parece assim, é porque não se conhece e/ou representa bem. Faz-se de bobo, às vezes até sem saber ou porque não suporta saber.
Muitos dizem que neste mundo não basta ser, tem de parecer. Ou que quem não é visto não é lembrado. Daí ficamos todos presos a milhões de obrigações para sermos bem-sucedidos. Ser bem-sucedido é fazer bem o que se gosta de fazer. É você saber encontrar o que é bom e lhe dá conforto e alegria.
Afinal, ninguém é de ninguém, os desejos não são iguais. O problema é: há no homem um desconhecimento de si próprio e do desejo. Em grande parte da vida, fazemos o que o outro espera para conquistarmos seu amor, sua admiração e seu reconhecimento. Quando fazemos tudo por amor, certamente estamos mais voltados para o outro do que interessados em como queremos viver a vida que temos. Dispendemos nosso precioso tempo de olho no gato e no peixe. A ética nos impede de pular a cerca. Algumas (ou muitas) vezes, nem ela. Queremos tudo sem perder nada e assim ficamos imobilizados. Não se pode escolher uma coisa sem perder outra.
Por existirem tantas possibilidades e sermos dotados de liberdade para fazermos o que quisermos, devemos fazer escolhas a cada esquina. Escolher, ir embora contente e satisfeito sem culpas seria uma boa. Mas perder o resto traz medo.
O fato de sermos finitos e conscientes dessa condição produz angústia existencial. Mesmo que realizemos uma boa cota de desejos, isso já é o bastante para ter uma boa vida. A felicidade plena é impossível, porque é da natureza do desejo humano estar sempre além do que alcançamos.
É da natureza do desejo desejar o que falta – sempre há de faltar algo pra desejar. Se a felicidade plena é impossível, a alegria não é. Podemos ficar alegres com coisas muito simples, esquecendo um pouco o mundo que nos quer atendendo demandas exigentes demais. Quem consegue ser alegre com a vida é, simplesmente, uma pessoa feliz. Mesmo sem a plenitude prometida nas propagandas.

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