Como torcer os fatos

Por Luciano Martins Costa
Observatório da Imprensa

Há um grande descompasso entre alguns dos principais jornais brasileiros e a imprensa internacional de maior reputação, na análise das sanções determinadas pelo Conselho de Segurança da ONU contra o Irã.

Enquanto jornais como o Estado de S.Paulo e o Globo declaram, em manchete, que a decisão deixa o Brasil isolado, publicações internacionais de grande prestígio observam que o governo brasileiro tinha razão ao afirmar que as sanções não irão produzir os resultados esperados.

Escorre de parte da imprensa brasileira um verdadeiro ranço de inferioridade, a decretar que o Brasil cometeu uma trapalhada no episódio e acabou isolado.

Assinantes de boletins online de publicações européias e americanas ficam sabendo, por exemplo, que as sanções não devem produzir mudança na posição do governo iraniano e que a decisão do Conselho de Segurança não exclui a necessidade de novas medidas no futuro próximo.

Dessas análises se conclui que a continuidade das negociações se torna possível porque o apoio do Brasil e da Turquia reduziu o isolamento do Irã, como observa o conservador Washington Post. O britânico Financial Times destaca que turcos e brasileiros se apresentaram como negociadores confiáveis.

Papel relevante

O resumo do noticiário internacional publicado pela Folha de S.Paulo na coluna “Toda Mídia” (10/6) mostra um viés completamente oposto ao que a grande imprensa brasileira adota sobre o assunto. A Folha é o único dos chamados grandes jornais de circulação nacional que não aposta na tese do isolamento de Brasil e Turquia.

Como a decisão do Conselho de Segurança não exclui novas negociações antes de uma atitude de força contra o Irã, existe grande possibilidade, segundo analistas citados pelo jornal, de que brasileiros e turcos sejam convocados a exercer um papel de destaque em futuras rodadas, uma vez que se apresentaram como interlocutores de confiança para ambos os lados.

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, declarou que o Brasil e a Turquia votaram contra a decisão do Conselho de Segurança para manterem as portas abertas com o Irã, e que os dois países terão um papel importante a cumprir nas negociações.

A tese do isolamento brasileiro soa como mais uma picuinha da imprensa, ou de parte dela.

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Ligando a motosserra

As imagens do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) consultando deputados da bancada ruralista e sendo cumprimentado efusivamente por eles, publicadas nas edições de quinta-feira (10/6), revelam mais do que mil palavras a serviço de quem atuou o relator do projeto que tenta mudar o Código Florestal Brasileiro.

Segundo os jornais, parlamentares ligados ao movimento ambientalista trabalham para atrasar a tramitação do projeto no Congresso, com a finalidade de atrair a opinião pública para o debate e evitar as mudanças que podem tornar ainda mais vulnerável o patrimônio ambiental do país.

A imprensa segue acompanhando o caso, mas os ativistas sabem que basta um descuido para que os interessados em amenizar a legislação ambiental produzam manobras para a aprovação nas diversas comissões técnicas da Câmara e do Senado.

Liderada pela senadora Marina Silva, do Partido Verde, a bancada ambientalista anunciou que vai obstruir o processo de tramitação para discutir ponto a ponto as propostas apresentadas por Aldo Rebelo. A senadora afirma que essas propostas representam um retrocesso de vinte anos no esforço que tem sido feito para dotar o Brasil de mecanismos legais eficientes para a proteção de sua riqueza natural.

Debate necessário

A Folha de S.Paulo reproduz parte de estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, em colaboração com a ONG Greenpeace, segundo o qual, se forem aprovadas as mudanças no Código Florestal, a meta nacional de redução de emissões de CO2 se tornaria inalcançável.

De acordo com o estudo, a liberação de áreas para desmatamento, conforme propõe o deputado do PCdoB, poderia provocar a emissão de um volume calculado entre 25 bilhões e 31 bilhões de toneladas de gás carbônico apenas na Amazônia.

Esses números representam cerca de seis vezes a redução por desmatamento que o Brasil se propõe a realizar, e impediria o país de cumprir a meta assumida antes da conferência de Copenhague.

A controvérsia favorece a candidata à Presidência Marina Silva, que tem maior familiaridade com o tema, e também oferece uma oportunidade para os demais candidatos firmarem seus compromissos em defesa do patrimônio ambiental.

Vamos ver como a imprensa dá seguimento ao debate.

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