A comoção de “A Mulher do Fim do Mundo”  

Uma tendinite recorrente na mão direita impediu-me de escrever ainda no sábado, no calor da emoção, como gostaria, sobre o show de Elza Soares, “A Mulher do Fim do Mundo”, realizado na sexta-feira, 22, no Teatro Riachuelo. Mas nada que compressa de água morna não alivie. Porque um show que causa tamanho impacto no espectador tem de ser relatado na bucha, com os neurônios a mil, quando podemos exagerar nas tintas e depois desculpar-se, candidamente, que foi escrito “sob efeito de comoção” – rs.

Sim, amigos, porque esse show é superlativo em todos os sentidos e não por acaso foi eleito pela crítica especializada como o melhor de 2015. E eu amanheci a segunda-feira ouvindo uma, duas vezes esse 34º CD de Elza (o primeiro de inéditas em sua longa carreira), deixando-me contagiar pela força e beleza do trabalho dessa mulher excepcional. Um consolo nessa quadra violenta, delirante e angustiante porque passa o estado e o país.

Uma grande cantora num show antológico, prenunciado desde o início quando ela declama “Coração do Mar”, poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik. De arrepiar em vários momentos e eu destaco pelo menos três que me tocou mais, as interpretações de a “Mulher do Fim Do Mundo” (“Me deixem cantar”/Me deixem cantar até o fim”, repete a artista na música composta por Romulo Fróes e Alice Coutinho), com que ela abre o show, e “A Carne”, e no final quando todos os músicos e a produção se perfilam reverentemente diante da cantora, que, sentada em um trono metálico em meio a um cenário cercado por mil sacos plásticos de lixo preto, parece Iansã, a deusa guerreira dos ventos e dos furacões.

Destacaria ainda os arranjos musicais, que achei arrojados. Não é todo artista consagrado que arrisca fazer um trabalho que dialoga com a vanguarda e mistura de ritmos. Feitas sob medida para a voz de Elza, as canções levam a assinatura tanto de integrantes da banda, quanto de outros compositores, como José Miguel Wisnik, Cacá Machado, Clima, Douglas Germano e Alice Coutinho. São letras críticas, que jogam luz sobre mazelas sociais do país, como racismo, violência doméstica e narcodependência, entre outras. A exceção fica por conta da poética “Volta Por Cima”, de Paulo Vanzolini, com que ela fecha a apresentação.

Penso que o encontro de Elza como o baterista e produtor Guilherme Kastrup, que assina a direção-geral deu muito certo e torço para que novos trabalhos da dupla floresçam. E a própria Elza se referiu a isso durante o show, que conta com 15 artistas, sendo quatro do grupo Bixiga 70 Metais, além de participações dos cantores Rodrigo Campos e Rubi.

Coube a outra negra arretada, Krystal, abrir a noite. Acompanhada pelos músicos Stallone Terto, guitarra, Paulo de Oliveira, baixo e programações, Darlan Marley na bateria e participação do percussionista Sami Tarik, a cantora mostrou músicas que farão parte do seu novo CD, “Lamparina Acesa”, que será lançado no próximo mês. Uma apresentação com um formato simples, conforme cabia, mas nem por isso menos digna e bonita.

Enfim, uma rara noite histórica no Riachuelo.

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