Companheiro Elbrick

COMPANHEIRO ELBRICK.
(O que é isso, companheiro?)

Marcos Silva
(Professor na FFLCH/USP)

O livro O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, foi um best-seller, quando de seu lançamento em 1979, e um importante marco político na discussão sobre a ditadura e seus oponentes. Ele se potencializou ainda mais pela fluência da escrita jornalística e emocionada do autor. Tal olhar organizador do discurso se faz presente o tempo todo como confissão e reflexão de um participante dos eventos ali tratados. Lançado num momento em que se intensificavam lutas sociais no país contra a ditadura (grandes greves no ABC paulista, debates sobre a superação do regime, movimentos de diferentes grupos da sociedade civil), o livro apresentava dimensões memorialísticas, mescladas a uma grande capacidade de prender emocionalmente o leitor, mais comum na escrita ficcional ou na poesia.
O filme homônimo, de 1997, assumiu outros caracteres nos campos da memória e da linguagem. Bruno Barreto, seu diretor, não teve nenhuma presença naqueles acontecimentos, e fez uma clara opção narrativa: quem passou a organizar os eventos apresentados no filme foi o ponto de vista de Charles Elbrick, embaixador norte-americano no Brasil, seqüestrado pelos jovens esquerdistas. Essa escolha de Barreto se manifesta desde o início de seu trabalho, quando Elbrick (o ator Alan Arkin) ouve da atenciosa esposa Elvira (interpretada pela atriz Caroline Kava) um sonho: ele se encontrava na Transilvânia, durante a Segunda Guerra Mundial – combate ao Nazismo, portanto -, e via o próprio Drácula. O embaixador responde à mulher: “Até vampiros reconhecem a imunidade diplomática.” Bem depois, o comentário de Charles sobre os seqüestradores tratará de identificar o mais velho deles, Toledo (o ator Nelson Dantas), a um vampiro em relação a seus companheiros mais jovens, evocando ligações desses esquerdistas ao Nazismo, presente naquele sonho de sua mulher: piores que vampiros, portanto, pois não reconheceram sua imunidade diplomática…
Se Aleluia, Gretchen, de 1976, teceu identificações alegóricas entre Nazismo histórico e a ditadura brasileira de 1964 até àquele momento, a filmagem de O que é isso, companheiro?, através do sonho de Elvira e do raciocínio de Charles Elbrick, tratou de desviar essa associação para o campo dos que combateram a ditadura, isentando o regime de maiores veleidades no campo da violência política – embora torturas sejam mostradas, torturadores sejam personagens. A estatura do desempenho de Dantas consegue transformar essa imagem vampiresca em momentos de triste emoção, ouvindo música erudita para suportar a tensão daquela experiência de luta contra uma ditadura. Mas o também ótimo desempenho de Arkin assume grande força de sedução para seu argumento, talvez até maior que a do outro, mesmo porque se mantém durante mais tempo em cena. Cabe acrescentar que Charles figura no filme como uma individualidade, no sentido biográfico clássico, enquanto os seqüestradores aparecem na condição de sínteses de diferentes personagens da luta armada contra a ditadura, tendendo a estereótipos.
O ator Du Moscovicis interpreta um ator chamado Artur, que está participando de uma montagem da peça clássica Casa de bonecas, de Henrik Ibsen, e conhecera antes o personagem Fernando/Paulo (interpretado pelo ator Pedro Cardoso). Artur apresenta um olhar da arte em relação ao que o antigo amigo fazia: desprezo pela política de esquerda, astúcia para identificar seu estilo de escrita, no manifesto dos seqüestradores. É o olhar de Barreto sobre aquela ala de seus personagens? É o olhar atribuído por Bruno ao teatro clássico (Ibsen) e às artes diante desse mundo estraçalhado da ditadura brasileira? Uma fala de Barreto, em depoimento posterior, reforça essa possível interpretação:
“Sempre repudiei qualquer tipo de engajamento partidário ou ideológico, pois acho que isso é uma couraça, uma limitação para qualquer atividade criativa. Não tenho muito respeito por artistas politicamente engajados, que têm um discurso ideológico, acho isso extremamente pobre e limitador.”
Gabeira costuma se referir elogiosamente ao filme de Bruno Barreto, que teve boa acolhida de público e até concorreu ao Oscar de obra estrangeira. É preciso, todavia, identificar alcances e limites da obra de Barreto, inclusive conseqüências narrativas e políticas daquela opção pelo ponto de vista de Elbrick e seus desdobramentos na interpretação da experiência ditatorial. Embora Bruno Barreto tenha alegado distanciamento e neutralidade em relação ao tema, é evidente sua proximidade e sua emoção para com o ângulo interpretativo do embaixador.
Há uma circunstância, talvez involuntária, que estabelece grande diferença entre o personagem do embaixador e seus jovens seqüestradores: a excepcional qualidade interpretativa de Arkin, como Elbrick, contraposta aos limites de alguns dos atores e atrizes que desempenham os papéis dos seqüestradores, com realce negativo para Pedro Cardoso e Luiz Fernando Guimarães (o personagem Marcão), presos a uma “naturalidade” televisiva muito repetitiva e mesmo inexpressiva. Outros jovens atores têm bons desempenhos: Claudia Abreu, Matheus Natchergaele, Marco Ricca etc. Outros atores maduros atingem um patamar qualitativo semelhante ao de Arkin, em especial, Dantas, um Toledo experiente e denso. Mas a permanência mais longa de Arkin em cena e o peso emocional da passagem em que ele, com grande medo, diante da perspectiva de morte, sofre incontinência urinária, vai ao banheiro e chora sozinho são fatores que lhe dão um destaque ainda maior no conjunto do filme.
O olhar organizativo da narração (Elbrick), portanto, mereceu um zelo especial de Barreto, em termos de composição de personagem e interpretação (Arkin). Um espectador mal-humorado concluirá rapidamente: seqüestradores são confusos e canastrões – Guimarães é muito convincente nesse sentido, com sua expressão facial de não saber o que está fazendo ali; ou impessoais e violentos, conforme a caracterização de Jonas, líder final da operação (o ótimo ator Natchergaele), numa fala curta e grossa:
“Mato o primeiro que vacilar ou discordar.”
Dois dos seqüestradores, todavia, aparecem em atividades mais juvenis e amenas (Júlio, interpretado por Caio Junqueira, lendo quadrinhos, e Renée, papel de Cláudia Abreu, em leitura de reportagem sobre o Festival de Woodstock). Se a situação pode sugerir imaturidade, ao menos inclui, oportunamente, humanidade nesses seres. E ser imaturo não é defeito, é parte de um processo de se tornar maduro.
Barreto marcou o início de seu filme pela apresentação de legenda indicadora da condição verídica própria aos fatos narrados, advertência reforçada pela apresentação de um falso documentário, em branco e preto, sobre a ditadura e seus primeiros reveses – passeatas de protesto e atos similares. O diretor apelou para esse recurso narrativo que já se fizera presente no filme Lamarca, um coração em chamas (1994), tornado, portanto, quase um estilema do gênero “memória cinematográfica da ditadura brasileira”. Atores que trabalham no filme figuram naqueles registros fake, como numa colagem. Junto com as tensões da época, também aparecem imagens do homem pisando na lua, um viés de esperança e conquista do mesmo período, paralelo aos cartazes de Deus e o diabo na terra do sol, o filme clássico de Glauber Rocha (1963), e de Guevara, notícias das esperanças de esquerda em ambientes de classe média.
A versão cinematográfica de O que é isso, companheiro? enfatiza o caráter militar daquela ditadura, reafirma sua memória mais consolidada, como se muitos civis não a tivessem feito em conjunto com as Forças Armadas. E a tortura surge enquanto prática desse caráter militar do regime, realizada, inclusive, no meio de uma conversa ligeira entre seus profissionais. Isso não impede a existência de conflitos íntimos vividos pelos torturadores, exemplificados no jovem oficial Henrique (o ator Marco Ricca), rejeitado pela bela companheira Lília (a atriz Alessandra Negrini) quando esta descobre, horrorizada, o que seu parceiro amoroso faz no trabalho. O tema, todavia, é abandonado, ou repetido de forma vaga, perdendo um acontecimento cinematográfico de interesse. Tristemente, o torturador troca a bela mulher amada pela prática da violência sobre os outros, tragédia de auto-castração que, por si só, mereceria outro filme: Lília não era de esquerda e se preocupava com a humanidade dos presos políticos, além de ter amado aquele rapaz. Num certo sentido, a namorada de Henrique apresenta um digno pedaço da sociedade civil diante da ditadura. O filme prefere realçar outros pedaços menos nobres dessa sociedade: a delação de Dona Margarida (a atriz Fernanda Montenegro), dedicada a vigiar suspeitos de sua janela e reclamar da polícia, e o vendedor de pizzas para os seqüestradores (o ator Antonio Pedro), que presta informações à repressão sobre o paradeiro dos mesmos.
Barreto reclamou, posteriormente, daqueles que o criticaram por humanizar o torturador . Esse é um aspecto de interesse em sua narrativa, efetivo acontecimento cinematográfico, pois torturadores são seres humanos – agindo de maneira cruelmente errada. Uma contribuição das artes é fazer ver esse triste lado da experiência humana e é de se lastimar que o filme não tenha explorado ainda mais tal dimensão.
A primeira aparição de Elbrick se dá numa gafieira, demonstração de simpatia, confraternização com o povo e perfeita integração ao universo brasileiro – ritmo popular e mistura racial. Já no cativeiro, suas falas são equilibradas, finas, superiores. Ele afirma pessoalidade num meio de estereótipos representados pelos outros, algozes e avessos. O episódio da incontinência urinária atesta fragilidade física, mesclada a sensibilidade que fortalece a identificação do espectador com seu drama. Esse quadro é reforçado pelas lágrimas da fiel esposa, lendo sua carta. Fineza e equilíbrio se desdobram na imagem de seu país de origem, como se ele não tivesse apoiado a ditadura brasileira (e outras) nem sustentasse o cotidiano sanguinário no Vietnã em guerra, naquele momento.
Apesar das tensões, o filme apresenta desfechos razoavelmente felizes para as duas partes: Elbrick retorna ao lar, os seqüestradores, embora presos, são depois enviados para o exílio, numa nova negociação com o regime, com direito à emocionante cena de Maria (uma das seqüestradoras, que amara Fernando/Pedro) na cadeira de rodas. Enfim, alguma notícia de que seqüestrador também é gente, além daquelas breves indicações anteriores sobre juvenilidade, desejo e sensibilidades (Fernando/Pedro fazendo amor com Maria, seus companheiros Renée e Júlio em leituras dotadas de leveza, Toledo ouvindo música clássica). O último plano do filme apresenta foto dos seqüestradores libertados e notícias sobre a posterior anistia (1979), a morte de Elbrick (1983) e as eleições presidenciais de 1989.
Trata-se de uma memória demasiadamente bem estruturada, com esquemas narrativos tão rígidos quanto as práticas de engajamento partidário ou ideológico que Barreto tanto repudia. Afinal, engajamento não é somente de esquerda…
Algumas discussões de pesquisadores e memorialistas apontaram graves deturpações do filme no plano factual, particularmente, no que se refere à caracterização do personagem Jonas, nome associado ao militante da luta armado Virgílio Gomes da Silva . Esse tipo de crítica é sempre necessário, mas não pode perder de vista a força ainda mais sutil dos recursos de linguagem próprios à memória artisticamente elaborada pelo Cinema. Priorizar a visão do seqüestrado (um indivíduo e sua biografia), como Barreto fez, traz de contrabando a desqualificação dos seqüestradores e de seu país (estereótipos) enquanto portadores de verdades e problemas próprios.
Mas assistir a O que é isso, companheiro?, apesar de suas limitações como obra de arte e trabalho da memória, pode ser uma boa oportunidade para se pensar sobre a construção de interpretações a respeito da experiência ditatorial, num amplo universo de obras cinematográficas (e de outras linguagens ou gêneros de pensamento) dedicadas ao tema.

O que é isso, companheiro? (Brasil). 1997. Direção: Bruno Barreto. Roteiro: Leopoldo Serran, a partir do livro homônimo de Fernando Gabeira. Produção: Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto. Música: Stewart Copeland. Direção de Fotografia: Félix Monti. Desenho de Produção: Marcos Flaksman e Alexandre Meyer. Figurino: Emilia Duncan. Edição: Isabelle Rathery. Efeitos Especiais: DVC Arte & Técnica / Farjalla. Elenco: Alan Arkin (Charles Burke Elbrick), Fernanda Torres (Maria), Pedro Cardoso (Fernando / Paulo), Luiz Fernando Guimarães (Marcão), Cláudia Abreu (Renée), Nélson Dantas (Toledo), Matheus Natchergaele (Jonas), Marco Ricca (Henrique), Maurício Gonçalves (Brandão), Caio Junqueira (Júlio), Selton Mello (César / Osvaldo), Du Moscovis (Artur), Caroline Kava (Elvira Elbrick), Fernanda Montenegro (Dona Margarida), Lulu Santos (Sargento Eiras), Alessandra Negrini (Lília), Antônio Pedro, Mílton Gonçalves e Othon Bastos. 105 minutos. Colorido.

Leituras complementares.

AGUIAR, Marco Alexandre de. A disputa pela memória: Os filmes Lamarca e O que é isso, companheiro?. Tese de Doutorado em História, defendida na UNESP/Assis. Assis: digitado, 2008.
GABEIRA, Fernando. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: CODECRI, 1979.
REIS FILHO, Daniel Aarão, et al. Versões e ficções – O seqüestro da História. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1997.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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