compasso

Iwska Isadora,
É só começar, vai. As coisas vão tomando forma quando você busca manter um olhar aguçado para o sol as 6h da manhã, sem reclamações desprezíveis.
Acredite: desprezíveis. Está fragmentado, eu sei. O receio, o gesto, o quase bom-dia, a reza, o que te mantém de pé. Mas espero que após juntar todos esses pedacinhos, um em cada compartimento do que você chama de moradia, tenhas um coração completo. Sim, completo, depois de filtrado. Com cores e formas, pronto para viver o que acontecerá agora, daqui há um minuto que já se foi. Pronto para dá o primeiro passo, o segundo e assim por diante, depois de tantos já ultrapassados. Saiba: você não é o único nisso.
Grito. Tenho direito à voz. Tenho direito à vez. Ainda que meu grito seja silenciado pelas buzinas e minha vez seja perdida por alguém que furou a fila. Aprendi que paciência é a chave de uma respiração aliviada quando o ar está pesado. Tanta coisa já não me cabe dentro, aliás, nunca couberam. Acredito que na procura de um espelho, encontrei vidraças velhas que mostraram friamente, de fato, meu reflexo. Em cortes. Recortes de feridas e idas, outras voltas. Hoje, dançando em outros compassos. Num passo de cada vez.
O que não cessa está do lado de cá. Do lado de uma postura que dispensa formalidades baratas que só cabem na “burguesia decadente”, como diria Edu, nas escrituras do querido amigo Caio Fernando.
Para mim não importam em quantos pedaços as coisas se fragmentam, o que prende mais minha atenção é o que fará com que todas essas partes se juntem novamente. A força capaz de transformá-las em pequenos universos, agregando tudo o que tem amor na composição e jogando fora as utopias que não cabem num coração de criança.
Junta tudo o que te cabe. Desarme-se do que é faz de conta.
Hoje escolhi ser assim, escrever desse jeito, silenciar naquela hora que foi difícil engolir a prosa-presa e chorar quando digo que não tenho motivo para isso. Mas mesmo com um coração bobo e desajeitado, não quero mais fingir que não o escuto. Foi-se o tempo.
E por falar em tempo, o calendário ainda diz ser primavera…Sei que quando esses dias terminarem, meu estoque de tulipas-margaridas-lírios-e-bem-me-quer, estará pronto pra suportar qualquer gota cristalizada por causa do frio, vindo de dentro.
Avanço. Mesmo que às vezes fique perdida no pensamento de saber se no próximo passo vou alçar vôo ou machucar as asas.
Avanço. Mesmo afirmando que às vezes não conseguirei dar conta disso. E quando esse tipo de ideia vem ao meu encontro é quando caio em mim e sinto que hoje eu sei o que seguir. Na contradição de: ainda que indo sem saber para onde.
Pronta para ver o sol raiar.
Raiou ,

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