Complexidade prova que também pode ser “pop”

A filosofia não é um assunto palatável às massas, mas alguns filósofos podem assumir ares de astros pop, capazes de atrair a reverente atenção de milhares de jovens, de natural inquietos, ruidosos e críticos, sob o apelo de uma senha: “o destino da humanidade”. Sobretudo quando por trás dessa senha se oculta um nome de indiscutível apelo autoral.

Foi de fato com esse álibi que o filosofo francês Edgar Morin atraiu à Praça Cívica do Campus da UFRN, em Natal, uma plateia só imaginável em shows de artistas caídos no gosto popular. Leve-se em conta, porém, que aquela não era uma plateia qualquer; estudantes das diversas ciências universitárias davam colorido e diversidade ao seu conjunto e a cada um deles não faltou curiosidade para ouvir algo significativo sobre a humanidade. Como seu destino, por que não? Especialmente se quem discorre sobre o tema vem precedido de rumorosa fama.

Ademais, quem era esperado à tribuna, após uma bem-sucedida e empática audição da Orquestra e Coro da UFRN, com direito a performances por jovens e promissores atores, era um dos principais nomes da filosofia contemporânea – uma filosofia que responde por um nome próprio – complexus, ou ciência da complexidade. Seria ocioso lembrar quantos centros de estudos dessa ciência proliferaram mundo afora sob inspiração das ideias do seu criador. A UFRN, por exemplo, tem seu grecom – grupo de estudos da complexidade – desde 1990, o que permite avaliar um pouco do alcance do pensamento de Morin, sedimentado entre nós ao longo de duas décadas.

Já era noite alta quando Morin postou-se de pé na tribuna do palco que fora ocupado, havia pouco, pelos músicos e artistas da UFRN. Fosse porque o local lhe era familiar, fosse por se sentir em casa entre tantos amigos e admiradores, o certo é que o filósofo ignorou as dificuldades linguísticas que um francês comumente enfrenta quando tem de expressar-se em português e vice-versa. Mas como são línguas afins, um termo espanhol aqui, um francês ali, até mesmo uma velha e familiar expressão latina, não chegaram a comprometer o entendimento da palestra filosófica. A esse respeito, é digno de nota o esforço que o velho pensador faz para se expressar em nossa língua, coisa rara entre os pensadores gauleses que nos visitaram, desde Anatole France, Bernanos, Sartre.

Cremos que o essencial da palestra de Morin não radicava propriamente no propósito de oferecer um diagnóstico novo do destino da humanidade, embora esse fosse, talvez, o chamariz que magnetizou a multidão presente à grande praça da UFRN. O assunto é por demais “complexo” para ser abordado satisfatoriamente numa meia hora ou um pouco mais de tempo, por mais hábil que seja o palestrante.

Pregador da transdisciplinaridade, renovador do pensamento científico e da educação com base na religação dos saberes, Edgar Morin não precisa assumir a postura de um futurólogo à Hermann Kahn ou à Marshall McLuhan para se distinguir no cenário da filosofia. Até porque filosofia e futurologia não parecem se entender bem…

A vinda de Morin a Natal teve então outro propósito. Talvez o de reavivar com sua presença o núcleo que a UFRN mantém em torno de suas ideias; ou ainda o de testar o alcance de seu pensamento junto aos estudantes dessa instituição, não obstante a diversidade de interesses que reina numa academia.

Tudo considerado, é de supor que a conferência de Edgar Morin sobre o destino da humanidade foi um sucesso de público, valeu, portanto, o investimento que a UFRN fez no evento. Valeu principalmente pela oportunidade de tantos alunos tomarem conhecimento presencial das ideias de um filósofo que, quase nonagenário, ainda é capaz de empolgar jovens e adultos com a alma que coloca na voz, a despeito da algaravia que, às vezes, a cerca mas não a descaracteriza.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Daniel Menezes 16 de janeiro de 2011 19:17

    Prezado,

    não sei se o sucesso – numérico, diga-se de passagem – de público significa o sucesso de conteúdo.

    Só para você ter idéia, Bernard Lahire, um dos principais nomes da sociologia mundial, deu uma palestra na UFRN para meia dúzia de gatos pingados.

    Enquanto isto, Edgar Morin, filósofo e sociólogo acessório na academia (Sim! a UFRN constitui exceção), falou para, talvez, milhares de pessoas.

    Infelizmente, acho que não com o conhecimento dele, Morin vem sendo usado para justificar as pesquisas mais absurdas da UFRN – desde macacos que supostamente passam e-mail até teorias do macho demoniaco.

    Ah! Silas Malafaia também deu uma palestra para muita gente.

  2. Andreia Braz 29 de setembro de 2010 15:24

    O trabalho de Nelson Patriota (escritor, jornalista, tradutor, revisor, poeta) merece destaque e toda valorização porque é realmente o que “existe de melhor em nosso jornalismo cultural”, como afirma Jarbas Martins. Com seu estilo incomparável, Nelson presenteia seus leitores com textos irretocáveis, de profunda reflexão e sobretudo, de um indiscutível embasamento teórico. E o melhor de tudo é que seus escritos não parecem trazer aquele ranço que dificilmente suportamos em alguns escritores (acadêmicos ou não) que enveredam por esse caminho apaixonante (e irreversível) da escrita e intimidade com a linguagem… Nelson, que vc continue brindando seus leitores com essas abordagens inteligentes, e nada arrogantes, produções que têm garantido seu lugar na categoria dos grandes escritores e estudiosos da nossa literatura.

  3. Jarbas Martins 26 de setembro de 2010 15:41

    É isso aí, brother, teu ensaísmo é o que existe de melhor em nosso jornalismo cultural.Biscoito fino.

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