Condição sine qua non

Por Caetano Veloso
O GLOBO

O latim do Lula está mil furos acima do meu

A cena (que pode ser vista no YouTube – aqui) de Lula usando, em meio a um discurso, a expressão “condição sine qua non”, e comentando “isso é pro Caetano ver como o Lula está” é uma cena adorável.

Era sua reação a eu ter dito que ele era analfabeto.

Ali aparece concentrado tudo o que há de irresistivelmente atraente no Lula de “Entreatos”, o filme de João Moreira Salles, que só vi anteontem. Curioso ver esse filme pela primeira vez agora. Lembro que Salles não quis que ele saísse em DVD durante o mensalão para não ser usado como arma contra o governo. De fato, a famosa cena de um antipático Dirceu falando de dinheiro com Gushiken e mandando parar a filmagem (e Salles sendo o alvo da fúria — e o Gilberto Carvalho, do sarcasmo — de Dirceu) cairia muito mal à época.

Gozado é que no mesmo dia em que assisti ao filme tive um encontro com Ana de Oliveira, que organizou um livro sobre o álbum “Tropicália ou panis et circencis”.

O Décio Pignatari já tinha rido do erro no latim do subtítulo, falando em “provincianismo de vanguarda”.

Eu mesmo comento tudo isso em “Verdade tropical”, onde volto até Wanderlino Nogueira Neto, meu querido colega do curso clássico. O fato é que se trata de um erro de verdadeiro analfabeto. O latim do Lula está mil furos acima do meu. Para dizer o mínimo.

Me espanta que nem Torquato, nem Capinam, nem Gil, nem Tom Zé, nem Duprat, niguém tenha parecido notar. “Verdade tropical” foi publicado nos anos 90 e só nesse encontro recente me dei conta de que o erro era muito maior do que eu percebera. Ana de Oliveira foi quem me chamou a atenção para o “c” que sempre esteve ali em lugar do “s”.

Mas como eu escrevi toda aquela conversa sobre a frase romana e não me dei conta de que maior problema do que o “is” em lugar do “es” era o “c” em lugar do “s”? A expressão correta é “panis et circenses”.

Como é que isso se dá? Afinal eu conhecia o adjetivo “circense” desde sempre — e sabia que ele se escreve como “santamarense” ou “fluminense”. De onde me veio o “c” que está lá até hoje? Analfabeto é isso aí. Então os romanos diziam “kirkênkis” (sim, porque o “c” latino era sempre gutural: “Caesar”, por exemplo, era pronunciado “Káisar”)? É de amargar.

Eu sempre me orgulhei de ter feito tudo no album “Tropicália”.

Sugeri as canções, compus muitas delas, escolhi “Coração materno” e “Três caravelas” para entrarem exatamente como entraram — e até escrevi os diálogos que aparecem na contracapa, “psicografando” Duprat, Rita, Torquato, Tom Zé ou Gil. Não será o erro grosseiro que dividirei com eles. Ninguém me alertou, é verdade (Xexéo era pequenininho), mas eu suponho que tenha sido por timidez.

Cicero e Wanderlino, com quem conversei sobre o caso quando “Verdade tropical” saiu, nada me disseram sobre o “c”. E esses evidentemente estavam cientes (Wanderlino é juiz e filho de juiz, conhece a expressão latina desde que nasceu — e Cicero lê poemas e tratados em latim), mas são ambos demasiado amáveis para não evitarem me ver constrangido.

Quando me dou conta de uma canelada dessas mais de 40 anos depois, não apenas dou razão aos jornalistas cariocas que se sentiam mal com a chegada desses baianos por aqui (provincianismo e “vanguarda”…): começo a desconfiar de que a paulista (quem disse que ela é paulista?) que exorta a elite urbana à violência contra os nordestinos, se está totalmente errada em relação a Lula e ao eleitorado de Dilma, está certa em relação a mim Senti grande alívio com o fim das campanhas. Primeiro supus dever-se isso à mudança na expressão da Dilma. De fato, o segundo turno nos deu uma Dilma cansada e pesada.

Isso foi melhorando à medida em que as pesquisas confirmavam que sua subida, resultado do esforço redobrado da militância em todos os níveis, se mantinha. Mesmo assim, ela estar motivada exigia-lhe uma atividade que ela parecia não aguentar mais. Então, vê-la relaxada depois de eleita foi um encontro com alguém real: no lugar da boneca programada para sorrir e que resultara numa carcereira dura e gaguejante, surgiu uma mulher vocacionada para o mando a dizer coisas razoáveis. Um gozo, para quem já estava irado com as abominações do Tea Party à brasileira que rodeou a campanha tucana — de que a sugestão de, digamos, extirpar os nordestinos é um eco sinistro. Como é que a turma de Serra admtiu, incentivou ou produziu essa obscena volta da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em versão virtual? Não gosto dessa marcha nem descrita por Elizabeth Bishop.

Mas descubro que o uso universal do Photoshop produzia mais infelicidade. Photoshop é pior do que auto-tune.

Talvez seja assim para mim, porque, apesar de viver de música, sou mais visual do que auditivo. Em meio à criação de timbres e ritmos em que se transformou a canção popular, uma voz humana afinada artificalmente é apenas um elemento a mais. Dá raiva a gente não poder mais elogiar mentalmente a afinação de um cantor novo cujo nome esperamos o locutor anunciar: ela não vem mais do talento de quem canta, mas da perícia no uso dos computadores. Muitos amigos meus conhecem logo se o auto-tune foi usado — e como.

O pior é quando ele funciona como Photoshop: a voz da pessoa fica parecendo a pele das moças da “Playboy”.

Mas no caso visual a coisa me incomoda mais. Os cartazes de campanha exibiam sérgios cabrais como se fossem coelhinhas, faziam das minhas ruas um trem-fantasma interminável.

Sou um homem muito mais feliz sem eles.

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