Confesso que ViVi Noventa

Veríssimo de Melo faz noventa anos bem Vivi no coração dos amigos. Lembro dele todos os dias. Tenho todos os seus livros e plaquetes. Escreveu sobre todos os assuntos. Foi antropólogo quando Natal engantinhava no mundo das ciências e das letras. Ele é o Didi da minha seleção, já que o lugar de Pelé ninguém toma. Um homem elegante flanava pelas ruas, becos e bares de Natal. Sim, quem pensa que pode pesquisar a história social de uma cidade, sem freqüentar esses lugares está redondamente enganado, como redonda é essa cerveja que tomo agora, blindando os noventa Vivi do meu amigo querido.

Saudade de ocê meu irmão camarada. Aquela mesa no antigo casarão ainda está esperando pra continuarmos a nossa conversa sobre o Einstein. Lembrei muito de você quando comemoramos o centenário do ano miraculoso do grande gênio. Ivanildo tocava o seu belo sax e a nossa conversa entrava em ritmo de jazz/valsa/choro. O Alex, sempre presente, tirava qualquer dúvida sobre a música. E você, me sabendo físico queria falar sobre a teoria da relatividade. O som era alto e o whisky era o do professor. Ainda lembro da sua animação quando soube que eu também era leitor de sua obra. E fui falando de seus livros e da relação física / filosofia. Recebi comovido o livro de sua autoria sobre Einstein. Por quê um antropólogo não pode escrever sobre Einstein, e um físico falar de Etnografia? Lembrei do livro que organizastes sobre a correspondência entre Mario de Andrade e Luis da Câmara Cascudo. Duas paixões! O livro foi uma revelação e finalmente foi re-editado corrigindo algumas pequenas falhas.

Nosso amigo Vingt-Un Rosado foi lhe fazer companhia. Antes de ir, ele publicou um livro (Vingt – Um Rosado – Saudades de Veríssimo; Col. Mossorense, 2001) com a sua correspondência endereçada a ele em quase 50 anos de luta em prol da cultura de um país de saber pouco e esquecer mais ainda.

É assim mesmo Veríssimo; não adianta esperar reconhecimento dos homens. O Oswaldo Lamartine resumiu isso no belo discurso que fez ao receber o título de doutor (me arripiei todinho ao ouvir): “É que a balança dos amigos costuma ser manca”. Sim, rapaz, ele recebeu o titulo de Doutor Honoris causa da UFRN. Ainda se faz justiça “nesse sertão de caboclo de mãe preta e pai João”. Sei que ele não anda muito bem de saúde física, mas não é como você dizia no longe – 1980: “com cara de menino do sertão que não se cria”

Vivi; você escreveu mais de 80 livros, ensaios, etc. Livros fundamentais como o Folclore Infantil (1981), Xarias e Canguleiros (1967) e muitos outros que enriquecem a bibliografia etnográfica brasileira. Muitos dos artigos – ensaios que você escreveu foram feitas plaquetas. Tenho a maioria desses ensaios em plaquetas e gostaria de sugerir uma re – edição temática desses ensaios. O conselho estadual de cultura do RN, onde você foi presidente e deu tantas contribuições importantes para a nossa cultura, poderia se encarregar dessa importante missão nesses dez anos sem você aqui no casarão. Tô com saudade de ocê meu amigo. Vou pedir mais uma, e aquela musica tocada no sax de Ivanildo: “My way”

Um abração.

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