Confetes

Por Paulo Scott
BLOG DA COMPANHIA

Aposto que Rita Lee não tinha a menor ideia do estrago que provocaria nas cabeças dos sonhadores, dos inquietos, dos criadores, dos estranhos de toda ordem, não apenas da sua geração, mas das gerações subsequentes, quando compôs a música que tem este trecho na letra: “Levava uma vida sossegada / Gostava de sombra / E água fresca /Meu Deus / Quanto tempo eu passei / Sem saber / Foi quando meu pai me disse / Filha, você é ovelha negra / Da família / Agora é hora de você assumir / E sumir”.

O rock glamorizou as ovelhas negras (e depois deu até uniformes e crachás para essa turminha desfilar). Penso que daria um caldo teorizar sobre o quanto dessa onda impulsionada por Madame Lee repercutiu no universo literário brasileiro contemporâneo. A ideia hoje, contudo, não é falar das mitificações do mui glorioso rock paulistano e seus desdobramentos, mas da ovelha negra da família, ao menos quando se trata da família das pontuações: as reticências.

Se você conversar com os melhores editores de narrativa de ficção do país, sejam eles das grandes editoras ou das pequenas, as que sambam de verdade na cara da sociedade, constatará que a maioria esmagadora desses editores torcerá o nariz quando o assunto for o uso de reticências em texto literário. Avanço. É entendimento corrente que bom escritor não precisa de três pontinhos, como não precisa de ponto de exclamação ou de parênteses — ou de uma pá de outras soluções que acabam reduzidas à condição de muletas usadas pelos escritores que, em outras palavras, não se garantem.

Reticências é pontuação sujeira, dói no olho, irritando da córnea até a veia central da retina, azedando o humor vítreo dos acurados, não importando o gênero literário, não importando se há boa intenção — quase como a inobservância de um daqueles pré-requisitos formais processuais que podem impedir, sem que se possa chegar à análise do mérito, que determinado recurso suba ao superior tribunal da aprovação, ou reprovação, das boas práticas literárias. Se há reticências, várias reticências, muitas reticências (exceto se você for aquele escritor francês racista, filho de uma mãe e, apesar de tudo, genial conhecido como Louis-Ferdinand Céline), você corre o risco de ser tachado sumariamente de escritor padrão mais ou menos.

Use travessão (incrível a tolerância que se costuma ter com os travessões), barras olímpicas, omita o céu, suprima-o com o fio das suas próprias unhas, interrompa a frase sem o uso do ponto final, extermine o alfabeto inteiro naquele preciso momento, naquele ótimo que só um bom escritor consegue calcular, salte no abismo, sonorize o horizonte à custa da invisibilidade de anjos desmemoriados, faça o diabo se lhe der na cabeça, mas não use os três pontinhos, porque três pontinhos é o tipo de solução que não pega bem e vai comprometer suas ambições, seus sonhos, sua glória.

Será?

Não tenho sentimentos contraditórios em relação às reticências; nada a favor, mas também nada contra, dependerá da situação concreta. Espalho punhados delas nas oportunidades de discurso direto — aquele da reprodução literal das fala das personagens, daquele que acontece sem que o narrador fale pelas personagens, sem que o narrador interfira na fala das personagens — quando acho que preciso espalhar. Um dia talvez eu consiga avaliar com o devido distanciamento se as empreguei porque eram mesmo necessárias ou se, infantilmente, estava apenas dizendo para mim mesmo algo como: bem se isto é deselegante sob os padrões da melhor literatura então é justamente isso o que eu quero usar.

Mencionei Céline três parágrafos atrás (a propósito, sobre Céline e a pontuação na prosa de Céline, recomendo este texto) porque sou fã da sua escrita, nunca neguei a enorme influência que os seus livros têm no meu modo de escrever, de contar, de arquitetar personagens, mas não acho que exista destemor, alguma irresponsabilidade estilística, da minha parte que tenha se programado a partir das leituras que fiz dos livros desse francês racista, filho de uma mãe e genial.

Penso que no fundo, mesmo tendo alguma noção do que pega bem e do que não pega bem diante dos olhares mais exigentes, acabo empregando reticências em função do peso (ou presença do peso) que busco atribuir ao tempo que será o tempo daquele conto específico ou daquela narrativa longa específica — vamos deixar os poemas de fora dessa reflexão, ok?, e vamos deixar as reticências parentéticas de fora também. Gosto de pensar que a execução do texto mandará no autor, que determinará o narrador ideal, que dirá qual o relógio da narrativa e, igualmente, as quantidades de gordura, laquê e sujeira da narrativa.

Imagino que lutar — ainda que tal luta pareça algo exageradamente romântico (ainda que pareça burrice) — contra a sofisticação inevitável que sempre vem com o tempo, com o acúmulo de experiências, seja uma das tarefas que o escritor empenhado tenha de assumir. Mas, como sempre digo (desculpa, sou velho), não há regras, e cada um vê o mundo pela lente que melhor lhe convier.

O que mais eu acho da pontuação reticências?

Bem, é o tipo de pontuação que nunca chegará ao status da vírgula, essa princesa que permanece importantíssima até mesmo quando não está lá (sobre vírgulas, recomendo com entusiasmo o texto do Emílio Fraia publicado aqui mesmo no blog da editora). Reticências é pontuação hiperbólica, vulgar. Mas e daí?

Gosto da sua presença desnorteada, da sensação de vinil rodando seus arranhados sob a agulha do toca-discos, da agressividade que varia graus imprevisíveis de pertinência ganhando o leitor para dentro de um incontrolável conjunto de empatia ou mandando-o embora feito aqueles sambas que não acomodam todos os pés, que não descem seus ritmos e invencionices a todos os passos.

A verdade — a minha verdade neste texto — é que as reticências são três bonecas, três bonecos, às vezes guardas, às vezes palhaços, às vezes tenores engessados, às vezes meros espantalhos, às vezes mergulhadores com o respirador na boca sem poder falar e sem poder usar as mãos, significando mais do que interrupção ou suspensão, prolongamento, banner de elipse, homem-sanduíche a serviço de anacoluto, aviso desenhado de que em algum apartamento do prédio talvez a festa já tenha acabado, e o pessoal já tenha dormido (e ficou apenas sonhando), mudez imagética, hesitação, dúvida, sarcasmo, suspense, surpresa, incompletude (incluída a incompletude cartorial), insinuação, entreato, ironia obviamente sujeita a tal capacidade de interpretar do outro, ao estado de espírito do outro, dor.

Respiro e volto.

O bom da literatura — ainda operando na faixa a minha verdade neste texto — é que ela não se dobra a moldes, a normas, a bom senso, fineza, rebeldia de segunda mão, rebeldia clonada, mal clonada, a didatismos, à moda, a rompante, à demora, a etiquetário, a navegar preciso; literatura, no meu modo de entender, é isso que tem os pés afundados na sensibilidade e no risco, por isso nunca dirá não à sujeira, nunca dirá não ao que seja. Você sabe. Ovelhas e o rebanho. Confetes restando ao chão…

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo