Confissão pelo poema: quando a poesia diz sim a Marize Castro

Desde “marrons crepons marfins” a poesia de Marize Castro vive o paradoxo de ser uma poesia confessional que parece retomar o ponto de partida a cada livro. Esse recomeçar que não cessa é sua permanente novidade. Dito de outra forma, quem depara com a poesia de Marize Castro pela primeira vez dá-se conta de imediata da estranheza – outro nome da singularidade – que perpassa toda a sua poesia. Tal impressão se revela duradoura na medida em que a cada novo livro que a poeta lança parece revelar um novo cenário que se constrói a partir de um cenário interior só parcialmente revelado, como o leitor vai percebendo. Nesse ponto, é uma poesia descontínua, diferentemente, por exemplo, da de Diva Cunha, com a qual guarda certa semelhança na regularidade com que periodicamente se renova.

Nenhum outro poeta norte-rio-grandense cultivou tão intensamente a poética do eu, o pendor confessional, como motivo poético, como o faz Marize Castro traço que, pelo seu caráter repetitivo, se contrapõe às escolas poéticas contemporâneas desde os modernistas de 22, avessos à poesia do si, princípio que prevalece até os dias de hoje. Vejamos alguns exemplos desse método poético marize-castrino: “A fúria que há em mim / não sacraliza nem ousa. / Serpenteia pelos séculos / rompendo finas louças” (Serpenteando), em “marrons crepons marfins”; “Sou eterna / enquanto posso / sou megera em off / não é por maldade / que me desfaço /nas tuas vértebras / e adolesço / nas tuas pernas” (Megera em off), in marrons…; ou “Como chegar a ti / se infernos alheios procuro / quando os meus estão prestes / a virar paraísos?” (“Vigília” in Rito); ou “[…] eu quase sou o que sempre fui: / uma moça inventada pelas estrelas, / dormindo com as nuvens, / com o melhor de sua bondade […]” (in Esperado Ouro); ou “Disfarço-me / de calmaria / e poucos sabem / quem sou […] (sem título, in “Habitar teu nome”).

Quem é, porém, esse eu que insistentemente se confessa, mas que só consegue fazê-lo à luz do poema? Deixemos que a própria poeta responda. Mas, antes, uma advertência: não é possível encontrar para tal pergunta uma resposta definitiva, coerente, na obra de Marize Castro e para isso é que ela também escreve. Obra em progresso, tentativas de respostas abundam em sua superfície desde “marrons crepons marfins”: “Sou um romance / com todas as nuanças / a que tenho direito. / minha fusão em humor / é pura ironia. / vacilo da retórica / em pleno cosmo. Ou oceano?” (“Vacilo da retórica”); “Soy mio fantasma / e a mim mesma / assusto / Tenho paixões pelas navalhas / ladies úmidas / nos meus pulsos […]” (“sem título”); “Sou um escândalo. / A poesia que aguente / a mim / e a meus versos / vândalos / de seda / e espanto. / Ser / tão fera / não me inquieta. / Eis-me em todos oceanos / doando o que me é vão / domando meu ópio: / a solidão” (“sem título”).

Em “poço. festim. mosaico.” novas tentativas de autodefinição se somam às anteriores, porém com tinturas mais fortes, ambíguas e até mesmo andróginas. Enriquece-o e o distingue-o ainda o diálogo com autores e personagens, confundindo suas vozes com a da autora: “Não escrevo como mulher porque não sou mulher. / Sou um destroço que boia. / Alguém que tem a dor nas mãos e negrumes secretos no sexo […] o cansaço era tanto que esqueci que também sou homem”. Repetindo Manuel Bandeira, Marize Castro também assume que “escrevo como quem morre: em hábil verticalidade”.

Em “Rito”, essas metamorfoses se amalgamam a outras e se relativizam por razões que ultrapassam o escopo de desejos e valores da autora: “Quiseram-me ostra. / E eis-me ostra. / Quiseram-me noite. E eis-me noite. / Quiseram-me ruína. / E eis-me ruína./ / Haverão de querer-me ainda?”

Significativamente, em “Habitar” teu nome as autodefinições ganham formas mais sutis, evitando o explícito dizer-se. No essencial, porém, permanece fiel ao projeto poético original, iniciado com marrons, crepons, marfins. Em suma, não é por ter adotado uma nova forma de autoexpressão que a poesia de Marize Castro se alterou. As mudanças devem ser buscadas em outras áreas, notadamente na eleição de novos temas que, somados aos antigos, contribuem para diversificar a paleta de cores de sua poesia. Leituras e viagens são dois importantes parâmetros dessa renovação, como se pode constatar especialmente nos livros “poço.festim. mosaico.” e em “Habitar teu nome”. No primeiro, a lírica clássica sugerida pelas leituras de Homero; na segundo, com Virginia Woolf, Gertrude Stein, Oscar Wilde, Proust, Eluard, a mística Teresa de Lisieux, Borges e uma subliminar presença de Zila Mamede. Mas não se pode descuidar do próprio amadurecimento sentimental, emocional, existencial da poeta, com as inevitáveis reavaliações dos sentimentos e da sua visão de mundo. Tudo considerado, é possível vaticinar que a poesia de Marize Castro tende mais a somar motivos do que a descartá-los ou a reconsiderá-los sob a luz de novas vivências.

É certo, porém, que tantas formas de Marize Castro se dizer sugerem que sua poesia também é uma busca por reivindicar um lugar para sua singularidade, alardeando-a e estabelecendo seus parâmetros, sua balizas existenciais, suas bases poéticas.

Mas que ninguém se ilude, o confessionalismo que aflora à primeira leitura de Marize Castro e se confirma ao longo de reiteradas leituras de sua poesia está longe de ser o único motivo de sua escrita. As aproximações da poesia de Zila Mamede veem se tornando como registro dominante em alguns poemas, notadamente em “Habitar Teu Nome”. A abundância de imagens marinhas não é mera casualidade nesse livro. Não se pode ignorar certas experiências de humor negro que remontam a “marrons, crepons, marfins”, como no poema “a margem”, dedicado à poeta-suicida Ana Cristina César, ou o erotismo atrevido de “sacralização” (mesmo livro), ou “de qual incêndio o amor renasce?” (“Esperado ouro”).

Mas é no diálogo com a palavra, ou, em linguagem drummondiana, na luta com as palavras, que a poesia de Marize Castro se espraia sobre a enseada da poesia norte-rio-grandense para lhe acrescentar um novo alento, um chamado em surdina para uma escuta en petit comité. Que secreta relação a poeta estabelece com esse veículo que é a própria essência de qualquer cogitar humano? Às vezes (sabemos), essa relação segue um curso óbvio, previsível, mas que logo se esgota; outras vezes, o curso se mostra caudaloso, alternando correntes tranqüilas e escolhos diversos. E aí pode se mostrar fecundo ao poema. seu húmus se prova mais fértil e o poema, mais desconcertante, sabe a mais novo.

A poesia de Marize Castro tateia entre as palavras. E que poeta não o faz? Mas ela tem seu próprio norte – seus insights o provam. Veja-se, por exemplo, em “Simetria” (in marrons, crepons, marfins): “A página / jaz / branca / vertical / / a palavra / cai / pronta / fatal”. Nesse mesmo livro, certo trecho de “Escrever” anuncia: […] O ácido no fundo da taça/ me revela e diz: / ― escrever é tua religião […]”.

Há ocasiões, porém, em que não é fácil cumprir esse desígnio de escrever. Nesse caso, só resta evocar o poema que jaz oculto a fim de escapar a esse estado apoético: “A teus pés / Palavra / nada tudo sou / / Acovardo-me / Largo o remo / / Sou tua escrava / Sirvo-me do bom e do melhor / / Lustro o cálice em que bebes / Resplandeço quando me feres” (“sem título”, in Rito).

De algum modo, Marize Castro tem consciência do estado de precariedade de todo poeta, de quem quer que se aventura pelo mundo da escrita. Para que aconteça o poema há de haver uma predisposição, uma colocação em estado de poesia a fim de que as palavras certas não se deixem contaminar por outras supérfluas, tautológicas, dispensáveis. Assim, ela pode falar com propriedade de um estado de sintonia com as palavras que suscitam o poema; enfim, quando a poesia diz sim. Diz Marize: “A mulher que me toca diz: / Os poetas ateiam chamas. / O homem que me toca diz: / Acho cartas de Deus caídas pelas ruas. / Quando a poesia diz sim, reinvento-me. / Torno-me jovem, temporã, desperta. / Beijo animais. / Abraço cadáveres. / Espanto a morte. / Brinco de ascender e cair, ser puta e asceta / ser pedra e flutuar, ser cega e ver demais. // Quando a poesia diz sim” (in Lábios-espelhos).

Não é demais supor que Marize Castro vive uma relação bem-sucedida com a poesia, após o lançamento de seis títulos nessa área. Outros virão, certamente, se a poeta prosseguir em sua escuta à palavra de vida que fertiliza em poema. Para tocar essa obra, ela lançou mão de todos os meios ao seu alcance. Criar sua própria editora a fim de garantir sua publicação foi seguramente mais um gesto certeiro de sua parte, cuja maior virtude consiste em realimentar o próprio exercício de sua poesia.

(texto publicado originalmente na revista 7faces – https://www.facebook.com/pages/caderno-revista-7faces/320982017918763).

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Flávio José 10 de Março de 2012 13:45

    A diversidade poética de Marize Castro me encanta a medida que a encontro nos versos muitas vezes bravios e sonolentos, malditos e santificados pelo seu pedido de piedade às pavras que envolvem suas rimas. Consegue ser plástica, intimista, e fala pra mim, o que sempre gostei de ler: uma boa poesia.

  2. Eliane Dantas 11 de Março de 2012 9:52

    Nasci no mesmo ano em que ela lançava o emblemático MARRONS CREPONS MARFINS, em 1984. Gosto muito e sempre quero mais! Brincar de ascender e cair, ser puta e asceta / ser pedra e flutuar, ser cega e ver demais é tocante. Leio o novo HABITAR TEU NOME e estou no portão de uma nova cidade.

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