A confraria secreta das palavras

Por Ana Maria Bahiana
BLOG DA COMPANHIA

Somos quatro num mesmo carro, presos no trânsito infernal de Beverly Hills, numa noite quente de verão. Somos amigos, companheiros de trabalho num projeto comum, mas ainda não sabemos o quanto somos parecidos, embora completamente diferentes. A motorista nasceu e cresceu em Mumbai, estudou numa das melhores universidades da elite norte-americana e hoje é vice-presidente da associação de imprensa à qual pertenço. Os dois passageiros no banco de trás trabalham com web. Um é especialista em mídias sociais, o outro é designer com vasta experiência em grandes projetos para estúdios. No banco do carona vou eu, cansada demais para dirigir depois de um dia longo e atarefado com uma média de temperatura de 38 graus, e grata pela oferta generosa da minha amiga ao volante de me poupar mais uma batalha nas ruas hiperlotadas de Los Angeles.

Estamos todos saindo dos estúdios da Fox, onde acabamos de ver Perdido em Marte, a sensacional adaptação do diretor Ridley Scott e do roteirista Drew Goddard para o best seller (que começou autopublicado como e-book) Andy Weir. Aí descobrimos nosso primeiro traço em comum: somos todos geeks apaixonados por ciência, cometemos nossos experimentos na infância e devoramos sci-fi em todas as suas formas. Debatemos o fino traço limítrofe entre especulação e delírio, possível e realizável, ou, em bom português, o quanto de livro e filme é chute, e o quanto é chute com previsão de gol, por ser teoricamente possível (Weir teria escrito o livro para demonstrar a viabilidade de uma teoria dele. Não digo qual porque não sei se você leu o livro… Depois do filme a gente conversa).

Gradualmente um outro assunto se aninha na conversa: a danada da exposição, tormento de qualquer pessoa que escreve, especialmente quem escreve para cinema ou TV. Eis o dilema da exposição: há coisas que não fazem parte da trama, mas que precisam ser compartilhadas com a leitora de um modo que não interrompa a narrativa. No meu curso Como Ver um Filme eu dramatizo um exemplo extremo de exposição mal resolvida personificando Samuel L. Jackson numa cena que é uma espécie de combo de todos os filmes ruins que ele já fez (e como ele é um dos atores mais solicitados do mundo, ele já fez muito…). Você sabe como é: aquela conversa tosca em que basicamente um personagem pergunta ao outro aquilo que nós, na platéia, precisamos saber para acompanhar a história. Há personagens criados especialmente com a função de serem os gatilhos da exposição: a melhor amiga, o melhor amigo, o cientista/soldado/espião/médico que foi adicionado ao time/tropa/time/hospital por último.

O carro, que está indo a lugar nenhum por uns bons 20 minutos no bonito mas insuportável Santa Monica Boulevard, começa a ficar decididamente animado. Debatemos se as soluções de Goddard/Scott são adequadas ― a média decide que sim, considerando a quantidade de informação científica que tem que ser jogada em cima do público.

E então começamos a suspeitar que, com todas as diferenças de formação, cultura, idade e ocupação, temos algo obviamente em comum: todos nós escrevemos. Todos nós nos definimos como “escritores” ― alguns escrevem como modo de pagar as contas, e mantém uma prática pessoal à parte (como eu); outros trabalham em coisas completamente diferentes mas pertencem a círculos de escritores, clubes de leitura, têm livros e roteiros na gaveta.

O carro preso no engarrafamento de repente se transforma numa confraria. Somos cúmplices em nosso amor por uma atividade profundamente pessoal, difícil e embriagadora que, tememos, poucos “lá fora” compreendem.

O assunto muda para Game of Thrones. Todos somos fãs da série da HBO. Todos lemos os livros. Todos temos comentários e notas pessoais a respeito de desenvolvimento de personagens, tramas com e sem becos sem saída, intenções do autor. O tom da conversa mudou substancialmente ― somos todos, agora, conterrâneos do país inventado e habitado por George R. R. Martin, e nos sentimos à vontade para debater suas intimidades, seus avessos, sua língua secreta. Somos todos espiões no mundo da imaginação e das palavras, conhecemos bem seus códigos.

Chegamos então a uma encruzilhada fatal ― aquela última cena do último episódio da temporada que foi ao ar este ano. Debate furioso no carro que, agora, avança len-ta-men-te, metro a doloroso metro, rumo ao cruzamento com a Doheny. O que realmente aconteceu? O que virá depois? Quais as ramificações para o passado e o futuro da trama? Um dos passageiros do banco de trás propõe comparações com o texto do livro. Há uma espécie de engasgo coletivo. E então me ouço dizer: ― Não podemos comparar. A imagem fecha e limita tudo, é tão definitiva. Mas as palavras… ah, as palavras… o poder das palavras é deixar todas as possibilidades abertas.

O carro fica em silêncio. Estamos quase chegando.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling Stone, Bizz, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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