Conhece a Revista Kukukaya? Leia ela todinha aqui!

Com essa postagem o blog entra em mais um curto recesso e volta segunda-feira, ainda em ritmo lento de estação veraneio. Para fechar o ano, publico a entrevista que concedi ao amigo escritor Thiago Gonzaga para a combativa revista virtual Kukukaya. Nunca publiquei nada a meu respeito e achei bacana essa oportunidade. É fim de ano e vale uns dizeres sobre cultura, jornalismo e literatura. A entrevista e muitos artigos interessantes espalhados em 58 páginas da revista você pode lê clicando AQUI. Tem cinema, poesia, artes plásticas, turismo. Artigos sobre a história das praias da Redinha e da Pipa. Textos de Manoel Onofre, Homero de Oliveira e outros. E assuntos que vão de David Hume à “delinquência acadêmica”, passando pela “polêmica das sacolas plásticas no mercado”. Uma revista de variedades e muita cultura imbuída. E o melhor: gratuita e inserida na plataforma virtual. Tudo fruto do idealismo de alguns colaboradores. Então, temos que prestigiar. Aproveito para agradecer o reconhecimento ao nosso Substantivo. Temos melhorado o número de acessos e isso só nos motiva. Agradecer também à Cosern pela confiança do patrocínio e vamos à frente para mais um ano Plural. Boa leitura e até 2016!

Revista Kukukaya – Quando e por que Sergio Vilar resolveu se tornar jornalista?
Talvez uma inclinação natural. Já gostava de escrever. Mantinha um blog chamado Diário do Tempo desde 1997, com excelente número de acessos, talvez pela novidade dessa ferramenta à época. E já em 1999 eu publicava minha primeira crônica em jornal impresso, n’O Poti. E passei a enviar textos regularmente. Gostava de escrever, mas não pensava ganhar dinheiro com isso (ou sofrer para ganhar!). Nem pensava em jornalismo, na verdade. Meu primeiro vestibular foi para Psicologia, em 1995. E quando tentei Direito, no ano seguinte, passei na segunda opção para Letras, na UnP. Cursei um ano até ser chamado para outra segunda opção: Filosofia, na UFRN, já em 1997. Durante o curso, tentei três vestibulares para Educação Física. E nada. Miscelânea doida, né? (rs). Desisti de Filosofia e ingressei nos cursinhos até unir o útil (escrever) ao mais ou menos agradável (trabalho) e tentei o Jornalismo, já em 2002. Então, nenhuma história lírica de amor ao jornalismo, mesmo numa época mais romântica da profissão. Acho até que ingressei num período de transição entre as redações nostálgicas e as de hoje, que nem sei mais classificar. Ainda alcancei as câmeras analógicas, o sistema DOS para digitar o texto. Mas as redações já não tinham o barulho saudosista das máquinas datilográficas.

Quais suas maiores referências na profissão?
Não tenho. Nem mesmo os literários. Nem Capote, nem Hunter S. Thompson, nem mesmo Hemingway ou os mais recentes, como John Jeremiah Sullivan. Gostava de Hemingway e Hunter Thompson como escritores, antes de pensar em jornalismo. Mas não foram referências à profissão, ao meu modo de escrever. E também não lia jornais. Ainda acompanhava e gostava das crônicas de Carlos Magno Araújo publicadas em O Poti porque meus textos ficavam também por ali, e mais tarde passei a ler regularmente a Cena Urbana de Vicente Serejo. Sempre gostei do estilo de Serejo, mas não sei se classifico como inspiração; acho que não. Na verdade, sempre fui mais dos livros, então me faltam essas inspirações locais no jornalismo. Após a experiência em redação de jornal, aí sim, tive minhas predileções. Osair Vasconcelos, quando resolvia escrever, era imbatível. Mas eu tinha meu estilo. Se tive alguma referência profissional foi Tácito Costa, muito mais pelo segmento que trabalhava – o jornalismo cultural – e hoje é um grande parceiro de toda hora.

Você foi repórter do jornal “Diário de Natal” por muitos anos, pode nos relatar um pouco desse período.
Redação de jornal era para poucos naquela época. Não só pela concorrência, mas pelo ritmo puxado, o estresse e a má remuneração. Hoje esse pacote paga seu preço com redações vazias à procura de estagiários. Talvez eu tenha presenciado a última fase desse certo glamour. Entrei direto no Diário de Natal, em 2004. Estágio não-remunerado de seis meses (se a Justiça do Trabalho ainda quiser me dar uma força! rs). Bati recorde no velho DN com esse período de trabalho “escravo”. Mas era o prestígio, era minha pretensão escrever em jornal e me segurei. Foram nove anos. Assisti reformulações gráficas, demissões em massa, mudança de formato para tablóide, mudança de sede, fim do impresso e, depois, fim do último resquício do combativo DN: o portal de notícias. Fui, digamos, o último a fechar a porta. Passei o maior período como repórter de Cidades. Nessa época sempre apostava mais nas matérias especiais, notadamente de cunho histórico, que junto com as crônicas e um blog já prestigiado na área cultural, me levaram à editoria de Cultura, como repórter. Isso depois de um tempo na editoria de Política, sobretudo durante a época das eleições, quando eu reforçava o time para uma cobertura mais ampla. Foi quase uma década incrível de muito aprendizado. Quem viveu pelo menos três anos numa redação sabe que jornalismo se aprende ali.

Você lembra-se de alguma reportagem lhe trouxe mais realização ao concluí-la?
O jornalista se sente realizado quando sua denúncia surte efeito, quando consegue trazer algum bem social. E nesse caso foram algumas, desde um buraco na rua a uma pequeníssima contribuição no aporte de recursos federais para amenizar os estragos da enchente de 2008. Tem uma foto da então governadora Wilma de Faria mostrando a capa de O Poti ao presidente Lula. A manchete trazia uma matéria que escrevi após dois dias rodando o interior do Estado, acompanhado da fotógrafa Joana Lima e captando toda a tragédia vista naquele ano – uma das maiores enchentes da história non RN. Mas em termos de repercussão, creio ter sido a última entrevista concedida por Oswaldo Lamartine. Lembro de certo alvoroço na redação porque até Woden Madruga, da concorrente Tribuna do Norte, havia ligado parabenizando pela matéria. Mesmo anos mais tarde ainda fui procurado por emissoras de TV para dar entrevista sobre esse último contato. Esse encontro foi também das grandes oportunidades que o jornalismo me deu. Outra experiência ótima foi refazer os caminhos traçados por Cascudo em 1934, que resultaram no livro ‘Viajando o Sertão’. Enfim, são muitas histórias e matérias e vivências. Um período muito intenso – e estressante, também.

Fale um pouco a respeito de sua experiência como editor de cultura do Portal No Ar.
Com o fim do Diário de Natal e do DN Online fui convidado para o Portal NoAr. Uma experiência curta de pouco mais de um ano. Eu era editor e repórter de Cultura. Não me acrescentou nada diferente, que não o contato com novos colegas e excelentes profissionais.

Você também editou as revistas literárias “Palumbo” e “Preá”, como foi à experiência?
Conheci Tácito Costa quando estagiava na Fiern. Entre uma conversa e outra sobre literatura, ele me convidou para estágio – também não-remunerado (rs) – da Revista Preá. Ele, o editor, e Gustavo Porpino, o repórter. Esta sim, uma experiência sensacional. Desbravávamos os interiores do Estado à procura de cultura. Íamos meio sem lenço nem documento. E lá, muito pelo boca a boca, chegávamos à casa de cordelistas, escultores, artesãos, mestres do folclore e da vida. Depois, com a saída de Gustavo para Brasília, passei a ser o repórter titular, e anos mais tarde, o editor-assistente, junto com Tácito. Na Palumbo fui o editor propriamente dito. Também um período de muito aprendizado junto a bambas do jornalismo potiguar, como Albimar Furtado, Osair Vasconcelos e Afonso Laurentino, além de Dácio Galvão, que também pertencia ao Conselho Editorial, mas que eu tinha menos contato. Acho que no curto período da Palumbo publicamos matérias de muito valor histórico e sentimental para o Rio Grande do Norte, com entrevistas memoráveis e algumas, eu diria, definitivas.

E seu contato com a literatura potiguar, como aconteceu?
Apesar do gosto pela literatura desde adolescente, meu contato com a literatura potiguar foi bem tardio. Na escola nunca houve incentivo. Sequer na faculdade de Letras ou Jornalismo! Puxo pela memória e só lembro da leitura de crônicas de jornais, como Serejo. Acredito que livro mesmo o primeiro foi ‘A Pátria Não É Ninguém’, de François Silvestre. Isso porque me foi sugerido, acho que por Tácito Costa, que era seu assessor de imprensa na Fundação José Augusto. Depois, acho que ‘Do Outro Lado do Rio, Entre os Morros’, de Newton Navarro, muito influenciado pela minha dissertação de curso, sobre a praia da Redinha. E também provocado pela dissertação, muitos outros nessa época ou a partir dessa época. Mas acho que também não temos grande oferta de livros de romance, preferência minha, o que dificultou essa leitura. Poucos anos depois essa prática passou a ser mais regular – até porque os livros me chegavam – e me deparei com alguns poucos e ótimos títulos potiguares.

Ouve-se muito falar que o jornal impresso é um meio de comunicação em extinção, você acredita que isso vai acontecer?
Acredito. Não em tão curto prazo como preveem alguns. Mas não vejo saída. E não só pelo custo de impressão ou pela cultura digital, mas também pela “bestialização” do mundo. Cada vez menos se lê ou se tem tempo para ler. Estamos na Era dos caracteres e não mais dos parágrafos. E isso vale para qualquer área da cultura ou do comportamento. Evoluímos tecnologicamente e regredimos intelectualmente. É visível. Talvez seja difícil comparar a qualidade literária de hoje com a de ontem, mas analise os best sellers de antigamente com as porcarias de hoje. É um retrato dos novos tempos que influencia na leitura de uma matéria mais trabalhada, uma leitura mais complexa etc. Para os jovens é mais fácil uma manchete em 140 caracteres para estar atualizado com a enxurrada de notícias diárias, em tempo real. Ou seja: o fim do impresso me parece um falso progresso.

Como podem ser definidos, em termos culturais, para os potiguares, estes primeiros 15 anos do século XXI? Em que avançamos e em que retrocedemos?
Ingressei no jornalismo cultural muito tímida e esporadicamente em 2005, na edição 13 da Preá, cobrindo mais o interior do Estado. No DN, acho que só em 2009 ou 2010. E de lá para cá percebo alguma evolução, mas de tão gradual chega a ser negativo, sem acompanhar a evolução natural do tempo. Passamos da política de balcão aos editais e hoje lançamos editais sem a certeza do pagamento. A Lei de Incentivo à Cultura do Estado data mais de 12 anos sem uma reformulação sequer, ainda amparada num modelo mercantilista de cultura, como é também a lei municipal. E mesmo sob esse prisma de cultura como mercadoria não temos um evento consolidado para vendermos nossas riquezas culturais ao turista e ganharmos algum dinheiro com isso. O Natal em Natal tem potencial, mas se sustenta mais em uma política de pão e circo e sem a divulgação necessária para atrair o turista. E, após tantos seminários, fóruns, cursos, oficinas e conferências, promovidos ano após ano, nos falta o básico: uma política cultural.

Em termos culturais, o que mais se destaca no Rio Grande do Norte, música, artes plásticas ou literatura?
A música. E afirmo com certa convicção. Muito mais pela falta de destaque das outras duas categorias. Posso estar enganado, nem é minha área, mas afora Abraham Palatinik, não temos nenhum nome nas artes plásticas reconhecido nacional e internacionalmente – embora uma cena jovem desponte com uma arte visual moderna de excelente qualidade: Gustavo Rocha, Sabrina Bezerra, Wagnerr de Oliveira… Na literatura, mesmo nos compêndios sobre folclore e sendo um nome que merecia ser reverenciado aqui e alhures, sequer a figura de Câmara Cascudo é lembrada. Já na música temos alguns nomes, mesmo que poucos e nem tão aplaudidos quanto a cena musical dos nossos vizinhos. Mas temos alguns, e para ficar na modernidade, emplacamos uma banda no recente festival Lollapalozza e agora no Rock’ n Rio: Far From Alaska e Camarones Orquestra Guitarrística, coincidentemente voltados ao rock. Mas temos uma Orquestra universitária entre as melhores do Brasil, e nomes no pop, na música regional e na MPB que também deixaram sua marca no cancioneiro brasileiro.

Em sua opinião a cultura potiguar vive um bom, médio ou mau momento? Por quê?
Acredito e torço que seja um momento de transição. Apesar de tantos talentos em qualquer área, nutrimos uma cultura de espera pelo poder público, que quase nada faz há décadas. E a estagnação é consequência. Mas vejo uma nova geração mais ativa e tão talentosa quanto, vindo aí. No campo literário há exemplos de editoras independentes, no rastro dos Jovens Escribas. A cena teatral, sim, parece ter evoluído após um hiato entre um tempo efervescente e um vácuo produtivo, com mais grupos, mais peças, mais sedes e mais organização. Enfim, temos o Clowns de Shakespeare, o Gira Dança, os festivais Mada e Dosol, a Orquestra Sinfônica da UFRN, instrumentistas geniais que brilham fora dos limites regionais. Para ficar apenas nesses.

Você, certa vez, citou uma lista, para o jornalista Cefas Carvalho, com dez filmes que levaria para uma ilha deserta. Quais seriam os livros?
Lista é uma coisa complicada. Vou entrar essa abaixo para você e ligar amanhã querendo trocar algum livro. E quando sair publicado vou me arrepender da falta de uns três e por aí vai (rs). Bom, sempre gostei mais dos clássicos. Tem aquela história da falta de tempo de ser ler tudo o que quer na vida, então, enquanto sua morte não vem, opto pela leitura obrigatória (rs), que segue aí, sem ordem de importância:
1) Os Irmãos Karamazov (Dostoiévski)
2) Os Despossuídos (Ursula K Le Guin)
3) Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
4) Capitães de Areia (Jorge Amado)
5) Misto-Quente (Bukowski)
6) Rum: Diário de um Jornalista Bêbado (Hunter S. Thompson)
7) A Morte de Ivan Ilitch (Tolstoi)
8) Memória de Minhas Putas Tristes (Gabriel Garcia Marques)
9) Mobydick (Herman Melville)
10) O Processo (Kafka)
Menção honrosa para O Mundo de Sofia (Jostein Gaarder) e As Noites das Grandes Fogueiras (Domingo Meirelles) por serem talvez os primeiros bons livros que li e terem aberto um pouco meu gosto pela coisa. O de Meirelles, inclusive, um senhor trabalho jornalístico sobre a Coluna Prestes. E ainda para Alta Fidelidade (Nick Hornby), o último grande livro que li e estou me coçando para substituir por um classudo aí da lista.

Como você conheceu o jornalista Tácito Costa e como deu início a parceria no site Substantivo Plural?
Como disse acima, foi durante o estágio na Fiern, pelos idos de 2004. Mas a parceria veio bem depois. Já tinha meu blog Diário do Tempo. Estive presente quando Tácito mostrou pela primeira vez o layout do Substantivo Plural para alguns amigos, acho que em 2007. E desde então traçamos caminhos paralelos com nossos blogs. Quando transferi meu blog ao Portal NoAr não obtive o mesmo retorno de acessos de antes. E quando saí do portal, já meio desestimulado com o blog, contatei Tácito, que já havia me convidado para se integrar ao Substantivo, para estabelecer essa parceria. E nesse um ano e meio só tivemos motivos para comemorar. Acho que, sem modéstia, o trabalho que fizemos e fazemos, com o Diário do Tempo e o Substantivo Plural, teve/tem sua importância na história do jornalismo cultural potiguar. Mas temos o que melhorar.

Existe jornalismo cultural no Rio Grande do Norte?
Difícil afirmar. Acredito que uma parcela importante do jornalismo cultural reside na crítica. Um político não precisa, necessariamente, de um comentário político para seu trabalho. Um artista, sim. E isso, definitivamente, não temos. Em nenhuma área. Há um trabalho bacana de cobertura de fatos e eventos da cena na Tribuna do Norte (com mais propriedade) e no Novo Jornal (com menos estrutura e praticamente um repórter-editor). É o que nos sobrou após o fim do Diário de Natal, que fazia um trabalho semelhante, e o Jornal de Hoje, que tinha no Conrado Carlos um material mais diferenciado e bem interessante. Mas faltam as críticas e falta o costume do artista receber essas críticas. Então, temos um jornalismo cultural capenga. Nosso Substantivo Plural cumpre um papel, mas não preenche essa lacuna.

Quais os planos profissionais para o futuro?
Poderia ser largar – de vez – o jornalismo: uma profissão de campo cada vez mais difícil, seja de oportunidade, seja de liberdade ou, principalmente, de sustento. Mas quero manter e melhorar o blog por mais um tempo. E o blog tem lá algo de jornalismo mesclado à opinião livre e tal, que já me rendeu alguns desgastes, mas um reconhecimento tão bacana que penso duas vezes em parar. E temos agora o patrocínio da Cosern, que nos dá mais um incentivo. E já que nem Henry Thoreau conseguiu se livrar da humanidade, também pretendo aprender a conviver com ela. E sim, esse é um plano profissional para o futuro: a convivência com o outro. Se quero manter o blog ou manter uma mente sã, preciso aprender a conviver com essa “pré-humanidade”, como diria François Silvestre.

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