Conhecer outras vidas – quatro perguntas a Emmanuel Carrère

Por Equipe IMS

Emmanuel Carrère é mestre na mistura de personagens e fatos reais com a ficção. Esta é a marca de romances como O adversário e Limonov e de “Em busca do homem dos dados”, ensaio entre o jornalismo e a literatura publicado na serrote #21. No texto, que saiu originalmente na revista XXI, o escritor francês viaja ao interior dos EUA em busca de Luke Rhinehart, autor de O homem dos dados, livro cult dos anos 1970 que conquistou uma legião de leitores e discípulos no mundo todo com a história, autobiográfica, de um psicanalista entediado que passou a confiar suas decisões – das banais às mais significativas – às seis faces do dado. Nesta conversa com o blog, Carrère comenta esse fenômeno, que, no auge da transgressão e da ânsia por liberdade, pode ter efeitos devastadores, e fala sobre o desejo impraticável (e por isso mesmo obsessivo) de experimentar seguir outros caminhos, levar outras vidas.

1. Neste texto, você reforça uma característica muito presente nos seus livros desde O adversário, uma mistura de texto jornalístico e literário. Você se considera um autor de não ficção, ou essa questão do gênero não é tão importante? Será que poderíamos definir o seu estilo como “romances de não ficção”?

Me parece que, no cinema, a fronteira entre documentário e ficção é traçada com mais clareza: num documentário, vemos os verdadeiros personagens e, numa ficção, os atores que interpretam um papel. Em literatura, essa fronteira é mais difusa. “Romance de não ficção”, segundo a expressão forjada por Truman Capote para A sangue frio, descreve exatamente o gênero de coisas que eu faço, mas essa questão de gênero de fato não tem grande importância pra mim – e, além do mais, também podemos dizer apenas “livro”.

2. Por que as pessoas recorrem aos dados? Você acha que é necessário procurar um objeto externo para justificar a transgressão pessoal?

O interesse no dado é se isentar da própria vontade (mesmo que ela se exerça quando as opções são listadas)

3. Você fala de Limonov, tema do seu livro publicado em 2011, que viveu muitas vidas: “Como não se podem tomar todos os caminhos na vida, sábio seria quem seguisse o seu, e, quanto mais estreito fosse esse caminho, com menos bifurcações, maiores seriam as chances de se chegar ao topo.” Você acha que o escritor efetivamente tem a chance de tomar muitos caminhos?

Há escritores (e pessoas, em geral) que acham que ser eles mesmos é mais que suficiente, e há outros obcecados com a pergunta: como será ser um outro que não eu? Ninguém pode de fato tomar vários caminhos, seguimos apenas um, mas algumas pessoas tentam imaginar como seriam esses outros caminhos. Faço parte dessa categoria. Há em mim, inacabados, um criminoso como Jean-Claude Romand, um aventureiro como Limonov, um místico como Paul: escrevo livros para lhes dar corpo e conhecer o que me é permitido conhecer dessas outras vidas.

4. Sua experiência está sempre lá – quando, por exemplo, você confessa sentir medo de Luke Rhinehart durante a noite, ou nos relatos muito pessoais em Outras vidas que não a minha Em sua opinião, os textos que não são contados na primeira pessoa são, de certa forma, menos reais, menos autênticos?

Não, não acho isso, de forma alguma. Tento não fazer das minhas idiossincrasias pessoais regras universais. Mas eu, para escrever, depois de vinte anos, tenho a necessidade de passar pelo “eu”, falar por minha própria conta, dizer ao leitor quem está falando com ele.

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