Conrad atravessa seu deserto

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

A poesia é um tesouro enterrado no coração de um deserto. Apesar da longa escavação a que os poetas se dedicam, ele nunca será encontrado. A poesia é a procura da poesia. Só porque não a encontramos, e porque talvez nem chegue a existir, ela continua a nos fascinar.

Recebo muitas cartas de poetas desanimados com o silêncio que cerca seus versos. Pedem ajuda, algum estímulo, alguma palavra doce. Mas o que lhes dizer? Sempre lhes falo desse imenso deserto sem o qual, a rigor, a poesia não existe. Tornar-se poeta é persistir no deserto. Sempre lhes aconselho a ler “O coração das trevas”, o romance de Joseph Conrad, que é também um ensaio inspirador a respeito da luta interminável que os poetas travam.

O marujo Marlow sobe o rio Congo para encontrar Kurt, um misterioso negociante de marfim, que vive escondido no alto da floresta. A floresta, densa, fechada, escura, mas ainda assim um deserto também. Enquanto sobe o rio, Marlow produz a respeito de Kurt uma longa série de idealizações. O temor dos nativos pelo Sr. Kurtz alarga sua imaginação. É o fogo que a alimenta. Tudo será bem mais fácil, ele pensa, no dia em que puder encarar o Kurtz real e assim se livrar do fantasma que o persegue. No dia em que a imaginação morrer. Será mesmo?

O temido Kurtz, o marujo logo entende, não passa de uma voz. “Uma voz. Ele era pouco mais que uma voz. E ouvi – a ele – a ela – aquela voz – outras vozes – todos eles não eram pouco mais do que vozes”. (Uso a tradução de Albino Poli Jr. para a L&PM). Descobrirá mais tarde que, nos intervalos de seus acessos de fúria e desespero, Kurtz recita poemas. Alguém lhe revela: “O senhor devia tê-lo ouvido recitar poesia… de sua própria autoria, segundo me falou. Poesia!”

Como pode a poesia surgir no coração das trevas? Como pode ela naser de um homem enlouquecido e feroz? Mas — e por que não? Eis a reflexão dolorosa que Joseph Conrad nos leva a fazer: a beleza, mesmo a mais extrema, embora não venha necessariamente do mal, pode, sim, dele proceder. A beleza não tem moral. Nada nos garante que o belo é sempre o melhor. Pode ser, pode não ser. Vinicius estava errado: a beleza não é fundamental, embora, em busca da beleza, em seu nome e em seu rasto, continuemos a viver.

Fico ainda um pouco com o relato de Conrad: “E a memória daquele tempo permanece ao meu redor, impalpável, como a vibração agonizante de imensa tagarelice, tola, atroz, sórdida, selvagem, ou simplesmente má, sem nenhum sentido”. A maldade é a ausência de sentido, e não a ausência de beleza. Mas, então, como pode ela estar na poesia que é, por definição, um esforço desesperado para emprestar significado ao que, a rigor, nada significa? A poesia é fracasso. Os versos são os vestígios desse fracasso.

Sugiro aos poetas que me escrevem em busca de algum consolo que não se cansem de reler O coração das trevas, livro que fala do silêncio e da cegueira que cercam e delimitam a imaginação. Não é nada fácil escrever. Atravessamos um deserto, sem nada ouvir além de vozes inexplicáveis, sem nada ver além do vazio. No centro, existe um poema que jamais chegaremos a ler. Ele existirá mesmo, ou está ali, como ausência, só para nos provocar, só para atiçar nossa fome? No fim, tudo o que resta _ a própria poesia _ é o relato dessa travessia.

Dizia Conrad que é preciso, sempre, reservar um lugar para o inexplicável. Não para encobri-lo com o manto acolhedor das fantasias, tampouco para decorá-lo com as belas idéias da verdade, ou da fé. Simplesmente olhá-lo, e suportar o que se vê. Suportar o que? A visão dolorida, mas fértil, do imenso deserto que nos cerca. Ele é, enfim, nossa pátria. É o deserto que nos desenha. É dele que, pálidos e medrosos, nos erguemos. Dele precisamos viver e, até, arrancar alguma felicidade.

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