A consciência é negra, não “humana”

Desenho de Carlos Latuff

No Brasil existe segregação de raça que produz, também, desigualdades econômicas… e não vice-versa! Não são os abstratos “humanos” a serem todo dia exterminados pelas polícias, pelo tráfico e por outras formas de violência social nas periferias; não são os idealizados “humanos”- que danado quer dizer, afinal, “ser humano?” – a serem excluídos por motivos raciais do acesso a empregos qualificados; não são os fantasmáticos “humanos” a serem jogados em massa nas cadeias por portarem detergente durante uma manifestação ou serem acusados (não necessariamente com provas) de roubarem pacotes de biscoitos; não são os inapreensíveis “humanos” a serem sistematicamente torturados pelas “forças da ordem” (escravagista) para confessarem crimes que não cometeram, nem são eles a serem ordinariamente sequestrados, assassinados e feitos desaparecer pelos capitães-do-mato; não são os imaginários “humanos” a “terem caras de empregada doméstica”, associados de forma indelével e eterna a uma função “naturalmente” deles, função concebida e vivida como uma forma de escravidão; não são os espectrais “humanos” a serem xingados de “macacos” mesmo sendo ricos e famosos. São as mulheres e os homens negros! Por isso, 20 de novembro é o Dia da Consciência Negra e nunca da “consciência humana”.

Enquanto houver pessoas que acreditam que o conceito de “cor” não reflete uma visão de mundo racializada; que miscigenação é sinônimo de ausência de discriminação e de segregação raciais; que existe uma “identidade nacional” unívoca; que desigualdades de classe não têm a ver com racismo; que o fato de sermos formalmente “todos iguais” implica que o sejamos também de fato; que “não há negros autênticos no Brasil”, como se “negritude” fosse uma essência e não uma construção (e,consequentemente, uma apropriação ou reapropriação subjetiva e social de quem, tendo sido primeiro definido dessa forma, assim decide se auto-declarar), como se não houvesse uma clivagem social – acesso a oportunidades e direitos pré-definido com base na “cor”, noção para nada “neutra” – entre brancos e não-brancos que aglutina a imensa heterogeneidade desses últimos numa mesma condição segregada e como se o pólo “branco” dessa assimetria não colocasse todos os “não-brancos” num mesmo balaio de inferiorização pela “cor” (ou seja, como se para os playboys e as madames das “áreas nobres” das metrópoles o povo das periferias não fosse indistintamente composto por “pretos”, “crioulos”, “negões” ou expressões semelhantes, que refletem uma percepção simultaneamente racializada, homogeneizadora e escravagista/menosprezante); que a abolição da escravatura foi produto da bondade da Princesa Izabel e que, como aquele sistema formalmente não existe mais, lembrar sua presença nas estruturas e relações raciais e sociais contemporâneas é “vitimização”; que a “democracia racial” é uma realidade e não uma construção ideológica e um dispositivo de dominação e produção de desigualdades… enquanto houver pessoas que acreditam nisso, haverá necessidade de Consciência Negra todos os dias.

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