Conservadorismo e Cultura no RN

Li com atenção o texto de Luiz Gonzaga Cortez sobre conservadorismo e cultura no RN.

Penso que o termo “conservadorismo” é muito geral para caracterizar instituições e mesmo pessoas.

Dizer que Cascudo era conservador significa ignorar a importância de sua obra no debate modernista sobre cultura popular. Por que Mário de Andrade, anti-conservador, valorizaria Cascudo se ele fosse apenas conservador. Certamente, a ação partidária de Cascudo nos anos 20 e 30 foi claramente conservadora. Mas a ação cultural, escrevendo livros como “Vaqueiros e cantadores”, esteve longe desse viés. E o conjunto de sua obra aprofundou tal viés.

Sou professor na Universidade de São Paulo e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Entendo que as duas instituições abrigam pessoas com diferentes orientações políticas e teóricas. Não sou conservador e tenho seis livros individuais que o comprovam – em nenhum deles, defendo as relações sociais dominantes no país e no mundo.

O conservadorismo deve ser confrontado, hoje, com um revolucionarismo em crise. Depois da queda da URSS, as noções de revolução e socialismo não podem continuar iguais às do tempo de Lênin, lamento informar. A Revolução Russa, tão difícil, foi feita para se chegar à Rússia atual? A Revolução Chinesa, idem, idem à China atual? A pergunta poderia ser ampliada para abarcar Cuba e outros países que ainda se dizem revolucionários e socialistas.

A noção de vanguarda – tão generosa – não sobrevive ilesa a essas mudanças do mundo. Precisamos repensar a crítica às relações sociais vigentes. Tenho dúvidas sobre a manutenção pura e simples das dicotomias direita/esquerda e revolução/conservadorismo. Considero essas questões, ao invés de soluções, partes do problema.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. flávia assaf 8 de Janeiro de 2011 19:44

    Tocou no ponto, professor.
    O mundo mudou, mas a noção do que é “novo” ou “inovador” continua como se ainda estivéssemos nos anos 60.
    O cidadão Cascudo pode ter feito opções políticas desastradas, mas não conservadoras, pois o nacionalismo era uma novidade que prometia naqueles tempos, a ponto de muitos que morreram comunistas, com Gerardo de Mello Mourão, p.ex., também terem aderido na primeira hora.
    Analisar a escolha dessas pessoas naquele momento com nosso valores de hoje é um erro que tem nome: anacronismo.
    O Cascudo artista e intelectual foi mais feliz, porém, como ele mesmo adivinhou, não seria consagrado pelos seus concidadãos.
    Mas agora, Cascudo precisa ser “morto”, como matamos os pais em psicanálise, para que a cultura do RN possa frutificar novamente.

  2. luiz gonzaga cortez 17 de Janeiro de 2011 21:32

    Publiquei uma reportagem sobre o conservadorismo na cultura do RN há 10 anos que foi republicada na 2ª edição do livro “Cascudo, o camisa verde”, em 2004, páginas 71/81, com depoimentos de Jarbas Martins, Franklin Jorge, Enélio Petrovich, Mery Medeiros, Denise Monteiro, Hermenegildo Araújo, entre outros. Mas já que retomaram o assunto, realmente acho que Câmara Cascudo foi um revolucionário radical, autêntico e integral. O intelectual Ricardo Benzaquen que o diga: o integralismo foi um movimento nacionalista e revolucionário. Como Cascudo jamais renegou o integralismo (ele tomou conhecimento das idéias do jornalista Plínio Salgado através de cartas de Mário de Andrade, outro revolucionário da Semana de Arte Moderna), é bom assegurar que o ícone da cultura potengina foi um revolucionário, um guerrilheiro da cultura popular. Estou certo ou errado?
    Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.

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