Nikolai Leskov

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Título original: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, o narrador

Por Marcel Lúcio

Ao ver na prateleira da livraria a capa do livro Lady Macbeth do distrito de Mtzensk (1865), de Nikolai Leskov, nosso conhecimento de mundo nos remeterá imediatamente à famosa personagem do drama shakespeariano. Quanto ao autor, em princípio não o conheceremos, identificaremos pelo nome que talvez se trate de um escritor russo. Quem tem boa memória ficará com uma lembrança imaginando de já ter ouvido esse nome, mas, acredito que a leitura da capa se encerra por aí.

Nikolai Leskov (1831-1895), ao contrário de nomes como Dostoievski e Tolstoi, não é muito conhecido internacionalmente. No Brasil, então, as referências são pouquíssimas. Escreveu contos, novelas e romances. Descreveu a vida e a cultura do povo russo. Em vida, não obteve muito êxito, se envolveu em polêmicas, foi acusado erradamente de defender a violência policial. Após a morte, a partir dos anos 1900, iniciou-se dentre os escritores russos uma espécie de “resgate” de sua obra e Leskov passou a figurar o cânone da literatura russa. Apesar disso, como pontuado antes, o material disponível em português sobre o referido escritor é mínimo.

Além do reconhecimento tardio, Leskov também obteve certa evidência por ser citado como exemplo em famoso ensaio do pensador alemão Walter Benjamin. No texto “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” (1936), Benjamin utiliza as narrativas de Leskov como suporte para ponderar sobre as características do narrador tradicional e avaliar que este tipo está desaparecendo com as experiências e vivências modernas. Por isso, os mais atentos podem ter ficado na livraria com a sensação de já haver escutado algo sobre Leskov. E é verdade, a grande maioria de nós conhece Leskov a partir do texto de Benjamin.

Do ponto de vista biográfico, cabe ainda assinalar que Leskov foi caixeiro-viajante e passou dez anos de sua vida conhecendo a Rússia em seus lugares mais incógnitos, observando as práticas e costumes do povo russo. O próprio Leskov considerava que essas viagens em território russo alimentaram suas narrativas com elementos da alma do povo. Pode-se, portanto, dizer que o ponto de partida e chegada para sua criação literária foi a observação in loco da cultura popular. Assim, para os estudiosos, Leskov é tido como um autor que aborda predominantemente o folclore russo.

Em 2009, a Editora 34, dentro da Coleção Leste, apresentou ao público brasileiro a tradução, realizada por Paulo Bezerra direto do idioma russo, da narrativa Lady Macbeth do distrito de Mtzensk. Foi então que muitos que conheciam Leskov de modo indireto a partir do ensaio de Benjamin tiveram oportunidade de conhecê-lo de modo mais próximo. A recepção à narrativa foi positiva e, ao mesmo tempo, gerou certa surpresa aos leitores. É evidente que, da literatura russa com toda a sua tradição, se espera sempre um bom autor, some-se a isso a menção de Benjamin, mas mesmo assim foi surpreendente ler um autor que trata a narrativa de modo tão desenvolto, que imprime à narrativa, ainda no século XIX, recursos que se assemelham ao dinamismo das narrativas cinematográficas de hoje. Capítulos curtos, poucas descrição de paisagens e ambientes, cortes da sequência no momento adequado para despertar e prender a atenção do leitor, ação narrativa em ritmo alucinante, fazendo com que o leitor conclua a leitura, como recomendava Edgar Allan Poe, de uma “assentada”.

No nível do conteúdo, também há muito que ser explorado, como a intertextualidade entre a personagem protagonista, Catierina Lvovna, e a Lady Macbeth do texto de Shakespeare, além do alto teor dramático/trágico da ação narrativa enunciada em 3ª pessoa. A linha do enredo é simples: cansada do tédio de sua vida burguesa ao lado de um marido idoso, Catierina Lvovna toma atitudes questionáveis do ponto de vista moral, com total ausência de escrúpulos, para atingir seus objetivos. Ao final, tem de conviver com a consciência e consequências de seus atos. Apesar da aparente banalidade do enredo, a história apresenta um clima de densidade máxima, gerando uma tensão emocional muito forte ao leitor. Segundo Paulo Bezerra, no posfácio da obra: “Ninguém consegue ficar impassível ao ler esta novela de Leskov. A história é tão perturbadora que causou medo ao próprio autor. Referindo-se ao processo de criação da obra, Leskov declarou certa vez que durante sua escrita havia sentido um horror insuportável, que o deixava de cabelos arrepiados e o fazia sentir um gelo na alma ao mais leve ruído ao redor”.

Após a leitura de Lady Macbeth do distrito de Mtzensk e também para compreender melhor a obra de Leskov, sugiro a releitura do ensaio de Walter Benjamin de um modo diferente, com outros olhos. Sempre lemos “O narrador” pensando na teoria literária, proponho que leiamos o narrador pensando em Leskov e sua obra. Faça isso e perceba que a sua compreensão do ensaio de Benjamin será totalmente diferente e você também entenderá melhor por que a obra de Leskov mantém a qualidade da consagrada literatura russa. A Editora 34 disponibilizou no mercado brasileiro, em 2012, outras duas obras de Leskov: A fraude e outras histórias e Homens interessantes e outras histórias. Também vale a pena conferi-las!

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Câmpus Natal Cidade Alta

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. miqueias santana santos 2 de dezembro de 2014 10:57

    Muito boa a sua análise sobre Leskov. Veio no momento mais propício, pois estou para falar um pouco sobre o ensaio do grande pensador alemão Benjamin. Vou fazer uma releitura e procurar ver com outros olhos este ensaio.

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