O contágio literário – quatro perguntas a Lina Meruane

BLOG DO IMS

Sangue no olho é a primeira obra da escritora chilena radicada nos Estados Unidos Lina Meruane a ser publicada no país. O romance lançado pela Cosac Naify narra a angustiante história de uma mulher que descobre possuir uma doença que pode levá-la à cegueira completa. A personagem principal tem o mesmo nome e compartilha muitas marcas biográficas da autora, num artifício comumente chamado de “autoficção”, e nos conduz por um pesadelo labiríntico de consultórios médicos e relações familiares tensas. Lina Meruane, que pesquisa na universidade os pontos de contato entre literatura e doença, conversou com o Blog do IMS sobre a sua obra.

1) Por que você optou por usar a si mesma como personagem principal do romance, considerando que os eventos descritos – a perda da visão – não chegaram a ocorrer em sua vida?
Durante o longo período de escrita do romance, fiquei refletindo sobre a possibilidade de incluir o meu nome próprio, que neste romance é o “nome literário” da protagonista, Lucina. E fiz isso porque tinha pensado, de início, em escrever uma memória de um acontecimento recente: a perda de visão que, por sorte, foi transitória. O fato é que me empenhei em escrever uma memória, mas o texto ia para outro lugar, deslocava-se rumo à ficção, e logo compreendi que estava, mais uma vez, escrevendo um romance. Mas um romance no qual estava urdido um pedacinho de experiência própria. Pensei que Lina Meruane precisava aparecer, mesmo se fosse numa espécie de cameo, para indicar que, por um lado, havia algo de verdadeiro, mas, por outro, que o acontecimento está ficcionalizado: por isso o nome Lina Meruane é o “outro nome” de Lucina, para sinalizar essa duplicidade na origem do livro.

2) Você pesquisa acerca das relações entre literatura e doença. O quanto a sua pesquisa acadêmica influenciou a sua escrita ficcional?
Sempre dei atenção ao corpo, seus gozos e suas dores, seus excessos e suas faltas. Quando resolvi começar a estudar literatura, o tema que surgiu no mesmo instante foi o da representação da doença – a aids, a grande epidemia dos anos 1980 que levou tantos autores marginais de nosso cânone latino-americano. As leituras que fui empreendendo me permitiram ver de que forma a doença era pensada e escrita, e me permitiram unir os meus interesses, assim como buscar maneiras alternativas de representação. Então não é uma influência teórica, e sim um contágio literário: o melhor dos contágios.

3) Sangue no olho é sua primeira obra publicada no Brasil. Como ela se relaciona com o restante de sua obra ainda inédita em português?
Todos os meus livros, penso, são diferentes; cada um foi respondendo, ou tentando responder, a uma pergunta que, no momento, era urgente. Comecei trabalhando no território da infância feminina, examinando as maneiras como as meninas são educadas para serem mulheres, o disciplinamento feroz pelo qual passamos: eu estava interessada em mostrar essa zona obscura e indisciplinada da infância. Nisto se encaixam os meus três primeiros livros escritos no Chile, e talvez não seja tão estranho o fato de que eu os escrevi neste país, pois a disciplina também faz parte da ditadura na qual cresci. A saída do Chile há quinze anos introduziu novos cenários (Chile e Estados Unidos como paisagens distintas, mas também como vasos comunicantes. Bem ou mal, o meu país foi um laboratório de experimentos neoliberais dos anos oitenta) e novos temas, o que você mencionou antes, o da doença. Talvez o que todos os meus livros tenham em comum é que no centro há o corpo de uma mulher que resiste a certas normas, que leva as lógicas imperantes a extremos que podem ser prazerosos e redentores, mas também sinistros.

4) Você mora nos EUA há anos. Você se enxerga mais próxima da literatura latino-americana ou da tradição norte-americana?
Sempre prestei muita atenção à produção literária da América Latina, e me mudei para Nova York para fazer um doutorado em literatura latino-americana. Essa é, portanto, a tradição que conheço melhor, e com a qual continuo dialogando. Leio certos autores norte-americanos (e vejo suas peças e seus filmes), mas não mais do que os europeus de modo geral, e com certeza leio menos norte-americanos do que franceses. Mas não importa tanto o lugar de onde se escreve: o que me interessa em um autor não é seu local de origem e sim a sua maneira de entender o literário, o modo de escrever, sua relação com certas tradições. Para mim, Faulkner é tão grande quanto Beckett, Woolf como Gertrude Stein, Mishima como Celine etc. No contemporâneo os temas e os ecos da literatura de nosso continente ressoam mais em mim, e minha escrita se articula com e certamente contra essa tradição.

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