A contemporaneidade e nossa caixinha da realidade

“Em tempos de alter-egos e o autoreconhecimento de sí mesmo (a tal busca do quem sou, porque estou aqui, o que quero deixar para o mundo), nos resta achar esse ponto de mutação, onde paramos de procurar e começamos a agir, de acordo com a nossa essência. O mundo compartilhado que nos é contemporâneo acaba se traduzindo por intensas intersubjetividades, onde sujeitos partilham possibilidades de comunicação, coparticipam vivências, comutam idéias, intencionalidades, crenças.”

Todos os dias a gente faz tudo sempre igual, se sacode às 06h da manhã e com um sorriso habitual, se põe na vida para ir lá e realizar o dia. Mas será que é só isso mesmo?! A tal rotina e suas nuances que mesclam da preguiça à falta de ânimo por fazer (quase) sempre a mesma coisa, naturalmente nos “levam” a seguir o embalo e acabar seguindo modas e tendências que, em certos momentos, sequer se encaixam nas nossas vidas.

Me peguei esses dias vendo uma amiga querendo “sair da caixinha” ao comprar um presente para o namorado. Ela, uma pessoa básica, que segue o modelo clássico de comportamento e ele, o mesmo. Resultado, duas horas e meia de vai e vem em um shopping, entrando e saindo de uma loja de roupas (ué, mas o presente não ia “sair da caixinha?!), para acabar com duas sacolas recheadas de duas camisetas “pólo” e uma bermuda azul marinho, lisa e básica!!!

A gente “quer” ser diferente, quer mudar algo na vida, fazer algo novo. É verdade, amamos o dito “real time”. Queremos estar no Instagram com o look do dia, saímos fazendo biquinho (sexy?!) no Snapchat e calculamos nossa celebridade instantânea através da quantidade de curtidas que nossas fotos recebem. Em muitas situações, sabemos mais de um acontecimento que está a quilômetros de distância de nós mesmos, mais até do que aconteceu na nossa casa neste mesmo dia, só pelo fato de que todo mundo está comentando a mesma notícia no facebook e pelos comentários que fazemos, somos experts no assunto. Em qualquer tipo de assunto, viramos especialistas sem nunca, nunca sequer, ter estado envolvidos direta ou indiretamente com esta situação.
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Um amigo fotógrafo uma vez me disse que preferia o “uau” em suas imagens. Elas não precisariam necessariamente passar alguma informação ou excitar no expectador uma reflexão, uma memória, uma sensação qualquer de identificação. Ele queria mesmo era alimentar o seu próprio ego e afirmar a sí próprio que era capaz de ser bom o suficiente para que alguém (e ele próprio também) pudesse exaltar a excitação do “belo” ao ver a imagem que foi produzida.

Há um modo de viver que gere esta bolha de entusiasmos, falsas especialidades, efemeridade com o inexplicável? O mundo existe, está lá, é real e nós sujeitos, nos dirigimos à ele e o apreendemos, intencionalmente, com a consciência de fazer algo a que nos propomos em nossa relação com este mundo de agora, aos comportamentos usuais e aos objetos que a este mundo pertencem. E por incrível que pareça, apesar das críticas, não há nada de errado nisso. As coisas são o que são. Resta saber o quão pertinente é o nosso comportamento, quão real e consciente, e de acordo com as circunstâncias que acreditamos. Consciência essa, que nos revela a ação que abraça a nossa procura.

Em tempos de alter-egos e o autoreconhecimento de sí mesmo (a tal busca do quem sou, porque estou aqui, o que quero deixar para o mundo), nos resta achar esse ponto de mutação, onde paramos de procurar e começamos a agir, de acordo com a nossa essência. O mundo compartilhado que nos é contemporâneo acaba se traduzindo por intensas intersubjetividades, onde sujeitos partilham possibilidades de comunicação, coparticipam vivências, comutam idéias, intencionalidades, crenças. O cotidiano efêmero, a dor, traumas e medos, situações “fora da caixinha da normalidade” são os temas mais valorizados (inclusive nos trabalhos autorais em fotografia que vejo atualmente, premiados, inclusive!). O quintal da nossa casa, deixou de ser apenas o quintal e virou peça de arte.
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Há um bombardeio de informações visuais, queremos consumir, mesmo que seja com os olhos, apenas. Somos mais humanos do que admitimos, adoramos consumir pessoas, ter contato com elas, ser admiradas por elas, admirá-las. Gostamos de inspirar quem nos vê e sermos inspirados pelos que vemos. Gostamos do mundo real, de nos aproximar de forma sincera das pessoas que admiramos e cada vez mais isso é possível com o uso das atuais ferramentas das mídias digitais. Mesmo que pareça irônico. O uso da internet encurtou as distâncias, nos deixa perto do que as pessoas são, longe da perfeição que as revistas e a TV mostram todos os dias. Postar o look do dia, ou aquilo que comemos no café, almoço ou jantar, ou o lugar onde estamos é uma forma de dizer: Olha, eu estou aqui, usando ou fazendo isso! Você gosta? Quer inspiração?
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O objetivo de tudo isso jamais é impor algo do tipo um corpo perfeito, uma dor “perfeita” para ser diferente e chamar atenção para sí, uma moda qualquer, uma tendência que para você não faz o menor sentido. Toda essa tendência de comportamento nada mais é do que uma forma de mostrar para o mundo que todos podemos nos sentir bem como somos e com aquilo que acreditamos (salvo as exceções, claro!).

E assim segue a vida. Ela vai acontecendo no gerúndio mesmo, porque o amanhã depende do que a gente vai querer ser daqui a algum tempo, saindo da caixinha imaginária que nos impomos. Por enquanto vamos estar postando nosso almoço ligth no instagram, vamos estar fazendo Snapchat’s, ou postar que estamos indo fazer trekking em um lugar super bacana e inspirando saúde, porque isso é o que tem para agora.

Amanhã, talvez, não. Depende da tendência, da sensação, do momento. E quem é que dita as tendências mesmo? Aquilo que nossa consciência vai estar querendo usar naquele instante. Voilá!
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As imagens: – Terrazza en São Paulo: Marcos Lopez – Katy Perry Pin Up: Ben Watts – Santa Ceia Argentina: Marcos Lopez – Ilustração Pin Up: Gil Elvgreen

Convivo com uma fotógrafa, uma arquiteta e uma gestora de projetos no mesmo corpo físico e mental. Um caleidoscópio seria mais fácil de entender. [ Ver todos os artigos ]

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