Contínuos descontínuos?

natalEm conversa com uma pessoa próxima, ela me perguntou se eu não estava sendo precipitado e duro demais ao tecer críticas agudas à administração “verde” da Prefeitura de Natal. Refleti um pouco e retornei a indagação à minha interlocutora: – Ora, amiga, diga-me quais os projetos e obras e melhoramentos que você vê sendo tocados por essa atual administração! Quais? Na verdade, o que está acontecendo é, simplesmente, uma obra de desconstrução. A velha e terrível “descontinuidade administrativa”.

A partir daí, eu mesmo passei a exercitar um pouco o papel de “advogado do diabo” e fui logo me questionando: – Mas, será que o problema é a redução do FPM (Fundo de Participação dos Municípios)? – Será que o problema é mesmo orçamentário? – Será que a prefeita ainda está colocando a casa em ordem? O fato é que respondi negativamente a todas as questões acima postas e passei a responder à minha interlocutora (e a mim mesmo) que a questão, a meu ver, é de postura, de criatividade (ou ausência desta) e maneira de pensar a administração pública de uma cidade importante como é Natal, não desbordando de minha forte convicção atual acerca da falência precipitada da administração micarlista, que já dura quase um ano, um longo ano: – O que está sendo efetivado, minha cara, só pode ser uma mera “obra” de descontinuidade em face de uma possível vindita, uma represália política contra a anterior administração de Natal.

Ah! Lembremos que a atual prefeita foi a vice, inicialmente, do gestor principal anterior e que entre eles aconteceram desagradáveis desavenças. Ademais, os frutos negativos de uma campanha política acirrada terminam se revelando ao longo do tempo…Ou, se não for isso, o problema é mesmo de incompetência e falta de criatividade e de planos para por em prática na cidade de Natal. Nesse momento, parei novamente e soltei outra indagação: – Mas, mesmo compreendendo que é natural uma descontinuidade desse tamanho (o que não é!), o que tem colocado no lugar dos projetos anteriores a atual administração?

Caros leitores, preciso provar aqui a minha tese: a administração natalense está mesmo é paralisada. Paralisada, porque os administradores da cultura estão “cag… e andando” (segundo eles mesmos afirmam) e destruíram ou esqueceram quase tudo que se firmou no passado recente, como obras imateriais, quando se tinha um fomento importante da vida cultural de Natal. Paralisada está, porque a urbanização da cidade não tem dito a que veio, vide o trânsito caótico que vivemos, e ainda por cima nos presenteou, nas vésperas das festas natalinas, com uns móbiles kitsch e uns duendes de jardim assustadores. Paralisada, porque não vemos avanços consideráveis na saúde e a gripe suína aumenta seu índices mortais e a população não está sendo avisada a contento (tem a ver com o Carnatal? Não acredito.). Também não se vê avanços consideráveis na área educacional. E nas outras áreas? Em que aspectos, então, há desenvolvimento da cidade? Gostaria, mesmo, que alguém viesse me falar sobre avanços nas diversas áreas da administração pública municipal, para que eu pudesse responder à minha amiga que me abordou com tão difícil (ou fácil?) questionamento. Afinal, Natal é a cidade onde nasci, onde vivo, onde atuo profissionalmente, onde estabeleço minhas amizades e afetos. Em suma, é a cidade que amo.

Prefeita, poderia ser a senhora mesma a nos dar um relato informal acerca disso. Por sinal, nada contra – do ponto de vista pessoal – a atual prefeita de Natal. Acho-a uma pessoa simpática. Sinceramente, Micarla é simpática. Quem sabe se não se sensibiliza com as críticas atuais e provoca uma revolução no seu secretariado (por sinal, vários secretários já pediram o boné, em menos de um ano de governo). Falo de uma revolução conceitual, não meramente substituição de nomes por outros nomes. Podem até ser mantidos os atuais co-administradores, desde que modifiquem pensamento e ação. Mas, prefeita Micarla, o que precisa acontecer mesmo é uma revolução no seu pensamento, na sua concepção de administração pública (administração de uma cidade não é o mesmo que a administração de uma empresa) e se aproximar mais daqueles sobre os quais recaem suas decisões administrativas: os professores, os médicos, os artistas, os profissionais de toda ordem, os estudantes, as donas-de-casa…

Lembre-se, Micarla (se me permite o tratamento informal), que o sentimento de pertencimento e o exercício de cidadania do natalense têm crescido, consideravelmente. E é isso que faz com que a senhora perceba que a crítica (positiva ou negativa) está tomando corpo, o que se constitui num fator essencial para o desenvolvimento de uma cidade. Prefeita, ouça-nos a todos, enquanto é tempo. Não faça de seus secretários meros burocratas. Não transforme, Micarla de Souza, sua administração em um grupo de meros contínuos da descontinuidade… p.s. Em tempo, para não ser injusto, lembrei-me de algo que não sofreu solução de continuidade aqui em nossa querida província ensolarada: o carnatal!

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