[Conto] A Mulher Consolação

Para J. M. Coetzee

Quando o dia era ruim, os homens iam à casa dela.

Construção simples, porta e janela, num arruado nos arredores da cidade.

***

— Bom dia.

— Dia!… Entre, filho.

O silêncio foi quebrado, quando ela serviu-me, com paciência, o café recém-coado. O cheiro da bebida tomou o pequeno cômodo.

Ela pediu para sentar-me; em tom baixo, as palavras como em compasso de veludo, deixando-me com a voz também mais contida do que a habitual.

Depois do café, abriu os olhos e a atenção para mim. Sim, o olhar falava por ela.

De início, fui monossilábico. Sem mencionar o mastigar de dentes e os pigarros, como se as palavras não quisessem sair. Contudo, aquele jeito manso foi desobstruindo o canal do diálogo; e, quando dei por mim, confessava-me sem peias.

Depois, quando enveredei para o relato dos desvãos mais fundos daquilo que me carpia o peito e a alma, ela elevou a mão direita, a me pedir pausa.

Ergueu-se e, em passos miúdos, rumou para o interior da casinha. Após alguns minutos, chamou-me:

— Venha pra cá. Vou lhe preparar algo.

— Não precisa.

— Precisa, sim. Faço questão! — pronunciou-se tão categórica, que tive receio de ir de encontro à sua ideia.

Pôs, então, uma panela no fogão e levou mais de hora a cuidar com esmero do preparo. Cortava legumes, cozia ervas, provava molhos, salgava carne, sentia a fluidez do caldo. Numa concentração que me fazia atento ao seu ofício de cozinheira. De vez em quando, confidenciava-me:

— O ato de cozinhar é uma bênção para mim.

Pôs a mesa e me serviu com uma delicadeza singular. Os pratos brancos, os talheres antigos, as panelas areadas. Tudo sobre uma toalha azul anil, com bordados singelos nas pontas. Sem relatar que ela fez questão de colocar um jarro simples na mesa, com ramos colhidos do caramanchão no fundo do terreno.

— Flores de maracujá. Dão um cheirinho bom, sabe?

Eu, sem o menor apetite. Cabeça revolta, peito triste, os dias ruins…

— Tome um pouco do caldo. Depois, coloque um bocadinho de arroz. Experimente as verduras cozidas, filho.

De início, sem gosto, servi-me. No silêncio, aquele jeitinho sereno, sua voz tão cálida… Apenas o tinir dos talheres, o vapor do cozido. Fui provando. E gostando.

A memória levou-me a vagar. Como se me sentisse criança. Mamãe a me ofertar, com paciência, a refeição.

Horas depois, quase noite, levantei-me. Agradeci.

— Volte quando precisar — foram suas palavras.

Tive vontade de abraçá-la, a timidez me refreou. Saí e ganhei a rua. O espírito leve, o peito menos abafado, a cabeça mais fria.

***

Hoje soube que ela se encontrava enferma. Depressa, fui à sua casa.

Bati à porta.

— Entre!

Estava deitada. Num silêncio inquietante.

— Como está? — perguntei-lhe.

Os olhos fundos, tristonhos. Cabelos brancos e ralos em desalinho. Pôs o olhar dentro do meu, senti que sofria.

— Vou lhe preparar algo.

— Não precisa.

— Precisa, sim. Faço questão!

Ela fechou os olhos; flagrei uma lágrima na face magra.

Fui, então, à cozinha e, com o máximo de capricho, preparei-lhe um caldo de galinha. Por precaução, trouxera os preparos básicos. Agi com desenvoltura, apesar do pouco hábito com a culinária.

Enquanto a panela apurava o ponto, fui conversar com Consuelo (era este o seu nome).

— Depois daquela tarde, dona Consuelo, cozinhar passou a ser uma bênção para mim.

Não abriu os olhos. A impressão de que riu da minha declaração, pelo leve movimento na comissura dos lábios.

***

Dona Consuelo recebera muitos. A todos, fiquei sabendo, dedicava o melhor de seu cardápio, ouvia-os, e todos saíam curados, ou melhores, para a lida.

Quando frente ao endereço dela, esperava um séquito de gratificados ao pé do seu leito. “Volte, quando precisar!”

Fui ao caramanchão, colhi flores de maracujá. Improvisei um vaso, pondo-o sobre a mesinha no centro da sala.

Ofertei-lhe a primeira colher de sopa:

— Tome…

Já não podia.

Pela janela, reparei que o dia, lá fora, era ruim, muito ruim. ‘

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