[CONTO] A mulher da voz e Joana

E no meio da vida já guardei umas sentenças de vida. Passo a fazer umas considerações como que um inventário. Inventariar ações foi algo que ouvi de um senhorzinho afável, Seu João. Minha filha, dizia ele em tom solene, olhe, preste atenção… meus olhos se esbugalhavam e ouvia mais por eles do que pelos ouvidos. “Escreva uma lista das pessoas que você magoou.” Pronto. Quase um despropósito. Como elencar? Fiquei retocando algumas coisas que escrevi. Abandonei o caderno e fui ligar para um possível desafeto. Olá, vamos bater pernas por aí? Bora, mulher! Passo já. Algumas coisas são simples de resolver. Outras nem tanto.

Almerinda passava as mãos sobre a toalha da mesa sempre que uma refeição estava posta. Como uma reza. Eu perguntei o porquê desse gesto de “passar ferro.” Ela dada a delongas. “não sei. Minha mãe fazia isso quando aprontava a mesa.” Me vi outro dia espalmando as mãos sobe uma toalha enrugada.

Veja, Herta anda ereta. Seu Queiroz o pai – também. Herdou. Tinha uns doze anos quando fui despertada a vislumbrar a elegância com que ela entrava na sala. Decide também ser como um cabo de vassoura.

Maria tem o princípio da mordomia. No sentido de manter todo o patrimônio que tem. Nunca se desfez das coisas em tempos difíceis. Falava sempre que era possível encontrar uma solução para tudo sem precisar vender os móveis da casa. Ouço. Sentencio. E ato ao meu pescoço.

Ficou viúva na idade em que uma mulher desabrocha em flores. Escarlate. Quatro filhas e um patrimônio a ser reconstruído. Costurava vestidos e bordava à máquina. Elas desfilavam pelas calçadas adornada de morangos, patinhos, flores, nuvens, estrelas… “tudo por minhas filhas.” Cresceram forte e generosas. Uso vestidos de pano…

Ensinou o cachorro de nome Xuxo a pedir por socorro quando o portão da casa estava fechado. Ele saía de casa em casa até que alguém atendia ao seu pedido silencioso. Não latia. Passou a ser o cachorro de todos nós. O que se ensina – se aprende. Os animais entendem.

Vatapá. Caruru. Manguzá. Camarão seco. “Venha.” Tem comida baiana por aqui. E era só para mim o convite. Tudo regado a muito dendê. E a um desvelar de atenções de uma baiana doce Dulce. Um punhado a mais em cada panela acessa – para um prato pro vizinho.

Reclusa. Quando aparecia vinha em embrulhos de fita de seda. Doces açucarados. Mimos de presentes assertivos entregues de encomenda. Ofertava com um mão e com a outra guardava segredos.

Sabíamos quando estava preste a sair. O perfume rescendia em toda a extensão da rua acompanhado de gargalhadas sonoras e desprendidas. A memória guarda a essência e a música dos seus gestos.

Ana, cheia de graça e beijos de amor. Tenho no nome o nome da graça e da luz. Dada a afagos.

Fim de ano ficava literalmente no meio da rua. Passeava devagar os olhos sobre o prédio casa escola. “Tem que ter uma maneira de torna isso um ambiente mais aconchegante”. Na entrada um banquinho, jardins e artes das mãos dessa artista dos sentimentos. Santo nome Terezinha.

Quem planta um jardim – salva um afogado. E do lado de dentro. Do lado de fora. Se respiram ares de frutas no pé. Pitangas. Carambolas, mangas… Nicinha tem sementes entre as unhas.  Tocou – me de leve no peito.

Aos quinze anos a festa ficou guardada. É paulista. O nome dela é Paulista. Grande. Branca. Perfumosa. Um dos melhores ritos de passagem que me aconteceu. Sempre que possível uma flor, Mariquinha.

Então, Clarice! Os ecos de A MULHER DA VOZ E JOANA – são como as ondas de um sino que nunca sessam… Vou também tomar “minha fresca na janela”. Joana tomou de empréstimo essa ação com a Mulher da voz. Eu também. Viva a grandiloquência de todas as vozes que se enfrasam. Como num toldo de luz balão. Lindo inventário você, Lispector! Quase que vou esquecendo. Um poema de Gercina Dalva para este seus 100.

SEM REMENDOS MUITAS VEZES CEM

Um retalho costurou-se ao meu pedaço

Sem ver cem anos que passaram-se

Quando as rosas eram iguais

Sem sofre os prejuízos anuais…

Amanhã murcham e cem anos depois

Na incomparável beleza são iguais…

Enquanto eu, sem colágeno, neurônios e elastina

Daqui a cem, nem serei mais…

Pode costurar pedaços, vai emendando retalhos…

Só a memória é sem…podem passar cem anos

O que ficou guardado é sem remendos

É semente, permanece muitas vezes cem!

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