Conto das palavras e do mar

Enquanto via as imagens de Umberto Eco ingressando, caminhando com agilidade e vigor por sua monumental biblioteca particular, o jovem escritor sentia como se aquelas fossem cenas de uma cidade submersa, uma Atlântida perdida no tempo e no espaço, cercada por edifícios de livros que haviam sido salvos de uma grande desconstrução global de ideias e patrimônios culturais e artísticos. Em algum canto, sobraram os livros, aqueles livros salvos por seu benfeitor, realizando-se a grande resistência. As páginas e palavras todas eram impermeáveis às águas e aos sais marinhos, já tendo ultrapassado outras intempéries loucas e ataques destrutivos, os mais violentos. Os livros estavam ali, cercados por um Netuno de barba bicolor e óculos de tartaruga, com barriga e inteligência salientes. Os livros estavam ali. As palavras, ainda guardadas no mar sonhado.

O jovem apanhava um dos grossos volumes encadernados e sabia que se tratava de um ritual sagrado. E também erótico, que a posse do livro é a posse sensual do objeto amado. As palavras ganhavam cores, ganhavam formas. Os olhos faiscavam sobre as magias multiplicadas, entre as coreografias das letras e as imagens que delas se desprendiam em borbulhas explodindo leves na superfície, onde somente havia azul e sol. E gaivotas, que tomavam palavras no bico largando-as sobre as nuvens, deitando-as em camas eternizadas no firmamento. As palavras restavam perenes e protegidas no céu sonhado.

Saltar do mar e descer do céu: um caminho duro de enfrentar. É que o real displicente e cruel foi lhe dizer que neste mundo de cá até o livro está em crise, ao menos na província cheia de assaltos, horror e asfalto, cheia de tédios e fogueiras simbólicas, queimando as palavras da história e as contemporâneas, esquecidas a cada átimo, jogadas fora nas bibliotecas públicas fechadas, lacradas pelo tempo e pelas ventanias que arremessam areias e ferrugem nos cadeados, impedindo aberturas de cérebros, sentidos e desejos.

Em algum lugar desses que se salvam, salva-se a mente de um inventor de histórias,  velho narrador que agora começa a provocar o já cansado neófito. E o chama para escrever a prosa que definirá os próximos anos em meio aos livros, catarses e simbioses, a palavra cheia ali, derramada por sobre os papéis que lhe cortam e abrem o peito. Surgem sentidos novos. Também renovadas dúvidas. E o compromisso com a palavra que se assoma à onda, varrendo o oceano até a praia calma e deserta, coração dolorido e queimado.

Em meio às ondas dos devaneios de pequeno bibliófilo, outra lenda lhe haviam contado. Ao aprendiz de escritor. Ficou sério. O que lhe tocara? O que lhe causara aquele espanto atrasado, reinaugurando crises, até então bem guardadas no pequeno cofre preso à parede?! Seria possível que àquela altura houvesse ainda alguma relíquia dos tempos mortos no interior, lugar de onde chegava com malas e pensamentos? Um bilhete, talvez. Uma borboleta azul, esqueleto inusitado entre as páginas foscas do velho livro desgarrado. A enciclopédia destroçada trazia mais sinais de que a esperança se reduziria até as traças e ao pó.

Ele estava convencido de que o mundo mesmo, essa gente mesma, não ofereceria chance a ninguém. E não haveria tempo e lugar para construir uma identidade, com a ajuda dos outros. Só atrapalhavam. Haveria de fazer, com dentes e punhos, o seu nome, criar um. Não queria mais brincar de ser homem maduro, ou experiente escritor, lá adiante. Nenhum desses papéis cheios de dúvidas e armadilhas lhe serviria. A selva já havia se instalado e a única maneira de arrancar os espinhos e travas seria arrebentando o próprio nariz na parede. E depois os miolos ao sol. E as palavras nas duras ondas do mar que o engolia e engolia também os livros.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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