[Conto] Dinheiro

O senhorio não deixava passar um dia. Era o próprio urubu do SPC. Chovesse ou fizesse sol, sem inflação ou com pandemia, lá estava ele pontualmente a cobrar o aluguel do mês. É que o bobinho achava que, com dinheiro no bolso, seria mais feliz…

Assim pois, cautelosamente, Ivo girou a chave com cuidado para não fazer nenhum ruído e, quase liberto, poder se escafeder.

Trancou a porta. Escafedeu-se.

É que o dinheiro, para muita gente no planeta, move a vida.

Ivo foi então à luta.

Para aquela quinta-feira, programou-se para três tarefas:

– Alvinho, meu irmão, faz três meses que tu diz que vai pagar!

– Almeida, quando foi que não te paguei? Segura só mais hoje na mão de Deus!

– Adriana, quanto te pagam pra tu ser assim tão leviana?

Em frente ao boteco onde Ivo bebia mais uma cerveja no fiado e concebia planos infalíveis para a revolução, um senhor parado diante de um derradeiro orelhão catava algo nos bolsos. Vestia um paletó puído e, mesmo que banguela do dente da frente, era cheio de dignidade.

Ivo, entre contas no caderno e cebolas no prato do fígado mal passado, percebeu a figura. Na verdade, já dera por ele, há tempos, em meio a estantes de livrarias, bancos de praça, sinais e cruzamentos, filas de cinema.

Era um poeta, diziam. Ivo nunca leu ou ouviu nenhum verso sequer dele, mas, de fato e com efeito, era ele, na calçada em frente ao velho orelhão, um ser bem poético.  Mexia os bolsos com sofreguidão, parava um instante, olhava para o tempo, atinava como quem recorda e esquece não só onde a ficha se escondeu, mas também por qual motivo estava ali.

Depois de quase três minutos, Ivo não tolerou mais aquela tortura. Levantou-se e foi até ele, na mão a única ficha gasta que lhe sobrara (aquela para esculhambar a égua da Adriana).

– O senhor quer telefonar? Tenho aqui uma ficha.

O tal poeta recebeu a dita cuja prontamente, nem sério nem sorriso. Aprumou-se antes de introduzir a moeda e projetar a comunicação: penteou os cabelos ralos com as mãos, cheirou os sovacos, verificou o bafo. Então, pigarreando, teclou.

Conversa curta e certamente sincera, voz gutural sem igual:

– Oi… Então?… Leu?… Gostou ou não?… Mesmo?… Pois vá. Não interessa… Vá pagar!

Desligou na maior classe, um dos últimos a frequentar, sem saber, telefone público. Alisou novamente os poucos cabelos. E sumiu.

Não deu nem tempo de Ivo pensar. Logo encostava na mesa menina pedinte de olhão:

– Moço, paga um almoço pra mim?

Pagar, pagar, pagar… Parecia até que a vida girava em torno apenas desse tormento: um pagamento. Alguém deve, alguém cobra. O pagamento estava sempre presente, até na sua ausência. O pagamento como ponte para algo que haveria de vir, o pagamento como libertação de uma prisão que, graças supostamente ao vil metal, haveria de passar.

– Tem esse pedaço de fígado aqui. Quer?

A menina foi se afastando com uma careta de enjoo e Ivo ainda conseguiu ouvir:

– Sou vegana.

Caía a tarde. Em algum lugar distante, uma floresta queimava. Enquanto isso, ali, o vento soprava no verde das poucas árvores. Pedaços de papel voavam pela rua. Ivo já ia na quarta. Ou seria a quinta? O que importava? A cerveja consolava. Tomou um grande gole, limpando a espuma do beiço e esquecendo por um momento o presidente que havia. Adriana mesmo, que era o que ele mais queria, não dava o menor sinal de vida.

E a vida continuava. Sem preço.

Escritora e professora do curso de Letras da UFRN. [ Ver todos os artigos ]

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