[Conto] Inseguranças

Ela tinha o hábito de perguntar ao marido se estava bem, depois de se aprontar para sair. Após os quarenta, não se contentou mais com qualquer resposta. Ela também queria saber… “se você me visse pela primeira vez com esse visu, pensaria em me conhecer melhor?”.

Vinte e dois anos de relacionamento o haviam ensinado algumas coisas sobre as inseguranças femininas. Se quisesse ter uma noite divertida, teria de se esforçar em ser convincente. Não que ela não fosse atraente, ela era; mas contentá-la com um reles sim, era impossível. Então ele sorria ladino, beijava-a, soltava alguns gracejos maliciosos e a convencia por aquela semana, de que era sexy.

Ela ficava feliz e ao mesmo tempo irritada consigo mesma pela necessidade de ouvir dele, algo que o espelho poderia muito bem lhe informar. Como o reflexo mostrava também ruguinhas, raízes de cabelos brancos e um detestável bigode chinês, resolvera ignorá-lo há algum tempo.

Um dia foi a um reencontro de ex-alunas da faculdade de serviço social. Lá, após algumas Piñas Coladas, ouviu das amigas que era mesmo uma boba por perguntar algo de tamanha importância sociológica ao marido. Ela detinha a prerrogativa de se considerar a tal. Imagina! Tantas conquistas históricas contra o machismo, e a insegura promovendo um retrocesso daqueles!

Voltou resoluta a não mais inquiri-lo sobre seus encantos. Se as amigas podiam, ela também podia se autoafirmar. Ele estranhou, mas não disse nada. Foram jantar fora, depois a um motel. Noite memorável!

Três semanas depois, ele comentou a ausência da pergunta que estava acostumado a responder desde que a esposa fizera quarenta anos. Não que sentisse falta, é que apenas estranhara. Ela explicou tudo, ele fez que entendeu. No íntimo estava frustrado. Era como se ela o desconsiderasse. Onde estava a cumplicidade dos dois, afinal?

Contra-atacou. Comprou lingerie cara: corselete, cinta-liga, meia calça, tudo preto e rendado. Não estava para brincadeiras. Quando ela chegou do trabalho naquela noite, encontrou o presente em cima da cama e um bilhete: “Você não vai perguntar, mas se perguntasse, eu descreveria em detalhes, as maravilhas que os meus olhos tiveram o privilégio de vislumbrar”.

Na hora seguinte, já no motel, ela veio toda, toda com aquele olhar de: “Se você me der a resposta certa, terá o que quiser de mim”. Perguntou com voz rouca como estava. Ele caprichou na descrição. Esforçou-se para traduzir em palavras e de forma magistral, toda a sensualidade dela.

Mais tarde, enquanto se preparavam para ir embora, ele comemorou secretamente o fato de ter conseguido recuperar sua posição. Voltara a ser aquele que alimentava a autoestima da mulher. Mas ficaria atento. Percebeu que era um perigo ex-colegas de faculdade se reencontrarem.

Ela adormeceu com a consciência tranquila. Em sua ansiedade por emancipação, não percebera a insegurança do marido. Tadinho! Por ele, faria o teatro de pedir sua opinião novamente. Ninguém precisava saber. A luta pelo empoderamento feminino não seria prejudicada.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Katia 11 de Abril de 2019 0:46

    Que singelo, Ana Cláudia. A cumplicidade do casal ficou muito evidente ❤

  2. Araceli Sobreira 12 de Abril de 2019 13:08

    Que lindo, Ana Claúdia….muito bom ver em sua escrita o cotidiano de tod@s nós. bj

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