[Conto] O HOMEM NA CASA DE VIDRO

Ilustração: Anya Chen

Nos primeiros tempos da fotografia, o estúdio do fotógrafo era chamado de casa de vidro. E é preciso certa argúcia, como também simplicidade, para compreender a delicadeza dessa denominação. Inclusive porque esta casa, como as demais, possui não um só, mas dois cômodos. Chegam a ela diariamente crianças, que posam montadas em cavalos de pau ou deitadas em divãs e abraçadas a seus gatos. Quando não, são madames, embelezadas por chapéus, peles e leques orientais, geralmente acompanhadas de garbosos rapazes ou senhores de gravata e monóculo. Ainda acorrem à casa de vidro alguns velhos plenos de uma curiosidade paciente e desejosos de novo, em tempos ainda de alegre técnica, antes da destruição.

Essas pessoas não invadem a casa, mas instalam-se no primeiro cômodo. Este, por princípio, luminoso e colorido, tem a claridade das salas de visita e está sempre receptivo e arejado. Neste cômodo é que as pessoas em geral se expõem, como estrelas em busca de instantes de eternidade – elas são o foco, o alvo e a mira –, miram-se a si mesmas. A sua contraface é o fotógrafo – sua sombra e seu revelador. Tudo não passa de alguns instantes, e lá se vão eles ansiosos e relativamente felizes. Deixam lá o fotógrafo atrás de seus óculos e em mangas de camisa, talvez com a memória de vários outros senhores, madames e crianças que por lá passaram.

Mas é o segundo cômodo que lhe pertence e onde tem seu elemento natural. Homem afeito a sombras, lá, ele é o senhor e a luz. Laboratório alquímico – a câmara escura – de que emerge com sua obra, em forma, luz e sombra. Se instantes antes, as pessoas iludiam-se com se tornarem eternas, agora não são mais crianças, madames e senhores ali fixados, mas o próprio homem: universal, estático e impenetrável, grafado a carvão na lousa branca, incólume e inócuo como se tivesse a alma revelada em uma redoma de vidro. Salvada do perecível, aquela imagem não é mais a dos alegres atores que posaram, mas uma ficção emoldurada nesta casa transparente, em que não há portas nem janelas, e cuja interioridade só é alcançada se atravessada pela luz do sol. Talvez, se a olharmos ingênua e sorrateiramente, é que possamos intuir naquela escrita impenetrável o sutil sorriso de uma Mona Lisa, como a alma eternizada do autor.

Já há muito tempo não vejo aquele homem.

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