[CONTO] “Saúde!…Feliz 2021!”, de Joseh Garcia

Neste ano sua noite de Natal foi solitária. Tudo bem. No auge de uma segunda onda pandêmica, não poderia se arriscar a se contaminar. Já havia chegado até aqui imune ao terror. Também lá no fundo, confessava em silêncio que a escassez das obrigações sociais de fim de ano até traziam um certo alívio. Porém não podia negar que sua vida havia se tornado mais vazia de abraços e que os laços afetivos haviam se tornado quase translúcidos. A falta de contato físico, tão prolongada por muitos meses,também a havia tornado menos física e mais etérea. Diante de tudo isso e apesar de todos os pesares, sentia falta das interações humanas.

Um imenso espaço vazio… talvez tenha sido tudo o que ficou deste ano. Ela não era mais a mesma. No espelho, a imagem mental que construiu de si ao longo do tempo parecia não mais se enquadrar no seu invólucro corpóreo. Se já não era a mesma pessoa de 2019, quem era agora, e quem será em 2021? Mistério… “Seria este eu que julgamos veementemente conhecer ser apenas uma colagem que construímos para dar sentido ao nada do que somos? Quem sabe no fundo, no fundo, a vida seja apenas um fluxo neutro de experiências sobre as quais as palavras escorregam?”- filosofava em silêncio.

Mais do que nunca, sentia que estava realmente diante de uma aventura arriscada: o viver. Sentia medo, mas também um tímido entusiasmo pelo ineditismo de tudo que poderia surgir no horizonte. Se antes ressentia-se de que sua vida fosse predominantemente feita de previsíveis e repetitivos momentos, sabia que daqui por diante tudo iria ser diferente.

O réveillon se aproximava.

No último dia do ano, sua cabeça estava a mil… pela primeira vez em décadas, sentia apreensão sobre o ano que estava prestes a raiar. Se anteriormente, se ocupava neuroticamente fazendo um balanço de vida e listando resoluções pro ano seguinte, agora isto lhe parecia fútil. As possíveis realidades do ano que se iniciaria eram muito mais sérias. “Continuaremos a perder mais vidas humanas e a multiplicar sofrimentos? Realizaremos as mudanças necessárias a nível coletivo para que a pandemia se enfraqueça?” – era isto que pensava.

Sentiu angústia.

Por um minuto, procurou salvadores de plantão para apaziguar sua ansiedade. Talvez fosse o momento de procurar uma cartomante muito famosa para lhe dizer como será 2021. Porém, logo percebeu que a pandemia não deixa espaço para semideuses, e que a salvação realmente só virá da ciência, da responsabilidade social de cada um de nós, da redução das desigualdades sociais, e da liderança eficiente do governo.

Às 6 da noite do dia 31 de dezembro, ela pegou uma folha de papel e uma caneta, e fez um exercício em busca de clareza. Queria organizar sua cabeça e observar, fora de si, seus sentimentos. Como uma alquimista tentava dar forma ao sutil. Derramou no papel suas preocupações com o ano que logo se iniciaria. Permeando luzes e trevas, entre a fumaça do cigarro e a fumaça do incenso, realizou um ritual mundano. Desenhou um círculo. Dentro dele, listou o que estava ao seu controle e deixou fora do mesmo, o que não podia mudar. E ao final, viu o que já sabia. Tudo o que estava ao seu alcance era muito pouco em termos de coletividade, porém era muito em termos de autoadministração. “Como resolver a desigualdade do mundo que se acirrara com a pandemia? Como fazer com que as pessoas não sucumbam à negação da realidade e ao cansaço, e se protejam do terrível vírus?” Pensou em vários possíveis cenários catastróficos para o próximo ano e concluiu que realmente só poderia agir sobre seus próprios pensamentos, emoções, e comportamento. Expirou profundamente como quem tira o peso do mundo das costas e decidiu focar em si. Naquele momento o peso de sua psique lhe pareceu adequado, como quem carrega uma responsabilidade que lhe é justa.

Seu coração aliviou-se…

Dali por diante, as horas se passaram mais tranquilas.

Eis que chega a hora da contagem regressiva.

10… 9…. 8…

Resolveu respirar profundamente à medidaque dizia adeus ao difícil 2020.

“Vai… te liberto… nos causaste muito sofrimento…”

7… 6… 5…

Mantinha seu foco na respiração enquanto sentia as contrações de 2021.

“Adeus… mas para ser justa, preciso lhe agradecer pelo que me fez aprender, pelo que me fez mudar… mas mesmo assim, é hora de ir. Vai… obrigada…”

4… 3… 2…

De repente, sem querer pensou nas tantas perdas. Tantas, tantas…

Sentiu tristeza e raiva.

Sua respiração se desestabilizou…

Queria estar calma mas medos e apreensões vinham à tona em alta velocidade. Sentiu um impulso de desesperadamente agarrar alguma certeza que aplacasse sua inquietude. Talvez um “vai dar tudo certo”, “o pior já passou”, “tudo vai melhorar”. Àquela altura, qualquer clichê positivo cairia bem e a aliviaria por alguns minutos. Mas preferiu a comunhão com a verdade. Esta sim, liberta. Então, respirou e manteve-se aberta e sem certezas. E decididamente, comprometeu-se a entregar o que está além do seu controle e a dedicar-se apenas ao que está dentro do seu círculo de poder.

Respirou profundamente mais uma vez…

Conectou-se com a força interior. Aceitou a realidade como ela é, naquele dado momento.

Respirou…

1…

O ano nasceu.

E então, da janela do seu apartamento da grande cidade, pensando em si, nos que amava e nos que sofreram doenças e perdas, elevou sua taça de champanhe aos céus e, soltando fogos de artifícios imaginários, ternamente sussurrou:

“Saúde!… Feliz 2021!”

Ilustração: Nikki Usagi

Artista e Ph.D. em psicologia, autor da tese “Music as vehicle for self-transformation” e do romance “ A Mulher que Nunca Recebeu Flores”. Cantor e compositor dos álbuns Bossa a Trois e Conscious (Original Movie Soundtrack). Co-diretor do filme “Conscious: Fulfilling our Higher Evolutionary Potential”. www.josehgarcia.com [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Célia Medeiros 30 de dezembro de 2020 23:02

    Excelente conto reflexivo. Realmente, momentos angustiantes e incertos por todo o ano. E o ano que logo começará , ainda será iniciado sob as mesmas incertezas; no entanto, precisa-se de fé, esperança, amor, atitudes corretas para juntos vencermos. Parabéns, Joseh Garcia! Muita luz e um brinde a vida! Feliz 2021!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo