[CONTO] “Seis alças”, de William Eloi

Bom, podemos começar? Perguntou ela olhando o relógio. Abriu a bíblia numa passagem em que geralmente se usa nessas ocasiões. Enalteceu as virtudes da falecida e agradeceu aos presentes: uma idosa com o terço enrolado nas mãos, e o filho, preocupado em espantar as moscas que pousavam agora sobre o rosto do cadáver, iluminado por velas. O outro preferiu ficar afastado da cerimônia, do lado de fora, com um cigarro. Observando com que dedicação seu irmão ajeitava a mortalha. Atendo-se aos mínimos detalhes dentro do ambiente modesto. O mesmo irmão que roubava as parcas economias que sua mãe mantinha às escondidas, em meio as mudas de roupa. Mas mortos são mortos. São como filhos. Quem os pariu que os balance. Então nada mais justo do que encaminhar sua morta para um buraco.

O padre não pode vir, havia explicado a mulher que conduziria o ritual. Era do grupo da igreja que sua mãe participava, lembrou. Fora designada com as bênçãos do padre. E a todo instante olhava o relógio. Era a mesma que a visitava com outras. Que tomavam o café que a mãe lhes oferecia com biscoitos em tardes inteiras para arrecadarem fundos para a paróquia. Falar de vícios pecados salvação. Em solidariedade, ofereceram o salão por algumas horas para que velassem o corpo. A prefeitura garantiu o caixão simples. Só quando o pai morreu descobriram o quanto estavam endividados!

 “Seis alças” pensava, enquanto o cigarro queimava entre os dedos. Fora ele e o irmão, sobraria apenas a velinha com o terço na mão.

O carro da funerária havia chegado. De dentro saiu um homem gordo, de óculos escuros. Cumprimentou com a cabeça afastou-se e tirou um celular do bolso. Ao que parece, rindo de algumas mensagens.

Rola um desse aí, falou-lhe um esmoleu. Chegou de fininho, sem que percebesse. Claro, quer outro? Quero! Te dou metade desse maço. Mas você tem que me ajudar.

Contando com o cara da funerária, agora eram quatro alças. Porque precisamos de tantas mãos para enterrar, se podemos levar a vida toda alguém nas costas? O sol furava as nuvens, indiferente.

Da entrada do salão, o irmão o chamou. Seriam as últimas preces até levarem o caixão. Todos que estavam dentro deram-se as mãos. Menos o cara da funerária, que estava lá fora, rindo. Deslizando o polegar na tela do celular.

Os cânticos seguiram até que os olhos da mulher que conduzia as orações se voltaram para a entrada. E mesmo sem parar de repetir o que ela dizia, todos olharam de lado. Era Jotinha. Pés inchados. Cara vermelha. Olhos cheios d’água. Tomaram-lhe as mãos de dedos sujos. E o ambiente logo se emprenhou dum cheiro nauseabundo misturado ao álcool. Não havia esquecido as vezes em que D. Maria lhe dera um prato de comida ou pão e café. Por fim, a mulher que conduzira o ritual fechou a bíblia. Despediu-se de todos.

Faltava ainda uma alça.

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