[CONTO] “Sinto cheiro de problema”, de Giovanna Trigueiro

Em uma noite fria e calma de inverno, dona Maria José sentava-se em sua poltrona para ler um livro que ganhou de presente há pouco tempo. Vestira seu roupão e suas pantufas para iniciar a leitura, que era um de seus passatempos preferidos. Por volta das onze da noite, começou a sentir um cheiro horrível. Ela não sabia de onde vinha, então começou a procurar no apartamento por algo estragado e esquecido fora da geladeira. Como não achou nada, decidiu sair e checar o corredor do seu andar. Quando chegou, sentiu o cheiro mais forte, como se algo estivesse apodrecendo.

Parecia que o cheiro vinha do apartamento ao lado do seu, então decidiu bater na porta. Ninguém atendeu. Preocupada com quem poderia estar lá dentro, a idosa ligou para a polícia.

— Alô, boa noite.

— Boa noite. Delegacia de Polícia, em que posso ajudar?

— Eu moro em um condomínio aqui na Avenida das Flores. Tem um cheiro horrível vindo do apartamento ao lado do meu. Acho que pode haver um corpo. Por favor venham rápido! — Dona Maria José era fã de histórias policiais, por isso, já imaginava que o mal cheiro tivesse a ver com um crime ocorrido no prédio.

Pouco tempo depois, a polícia chegou. Já na escadaria, os agentes sentiram o cheiro que a velhinha havia descrito. No corredor, encontraram a moradora, que logo indicou o apartamento. Os policiais bateram na porta, mas novamente ninguém atendeu. Então decidiram arrombá-la.

Entrando, estava tudo escuro, mas quando acenderam as luzes, encontraram um homem deitado na cama. Esse homem era seu Nestor, um idoso floricultor aposentado e vizinho de dona Maria José. Ele se encontrava com aparência cansada, com a barba por fazer e, para surpresa de todos, um chulé horrível saía de seus pés.

O velhinho acordou com um susto por ver todos aqueles agentes em seu apartamento. Percebendo o mal-entendido, eles se desculparam com o homem e chamaram dona Maria José para esclarecer a situação. Ela ficou tão envergonhada, que pediu desculpas para os agentes e seu vizinho. Por outro lado, estava secretamente animada pela possibilidade de ajudar a polícia a resolver um crime.

Na semana seguinte, a idosa ainda se sentia culpada pelo ocorrido, então decidiu chamar seu vizinho para tomar um lanche, como uma tentativa de fazê-lo esquecer tudo. Preparou um café e sua especialidade, biscoitinhos açucarados de nata. Os dois conversaram por duas horas na cozinha. Falaram sobre receitas, ocupações do dia a dia e família. Mais tarde, Nestor disse que sua sobrinha iria visitá-lo à noite, então precisou ir embora. Antes de sair, o velhinho pediu para usar o banheiro e logo depois, se despediu da vizinha. 

Quando deu vinte e três horas, Maria José, mais uma vez, pegou seu livro novo para ler. Era uma história de mistério, seu gênero literário preferido. Estava tão envolvida com a obra que decidiu levá-lo para ler na casa da filha, enquanto passava o final de semana com ela.      

Na Segunda-feira voltou para casa e passou a manhã toda terminando de ler seu livro. Quando chegou na última página, viu que atrás dela estava escrito algo com caneta esferográfica: “Pare de se meter nos meus assuntos. Quem mexe com fogo pode se queimar”.  

A idosa começou a ficar perturbada e a pensar em quem poderia ter escrito uma coisa daquela. O livro não estava assim quando o pegou pela primeira vez, então só poderia ter sido alguém que esteve em sua casa há poucos dias. Foi aí que ela se lembrou do seu Nestor. Ele foi o único que a visitou naquela semana.        

Dona Maria José também começou a sentir o mesmo cheiro que sentiu no dia que pensou ter um corpo em seu prédio. Decidiu ir até o apartamento do vizinho para tirar satisfação sobre o que ele escreveu em seu livro e aproveitar para reclamar do chulé que até agora não tinha se resolvido. 

Chegando lá, notou que a porta estava aberta. Entrou, procurou por todo canto e percebeu que seu Nestor não estava lá. Que estranho… ele, assim como ela, não costumava sair. A senhora foi até o banheiro para molhar o rosto e quando entrou, ouviu um zumbido de moscas vindo do chuveiro. Ela abriu a cortina e ficou apavorada. Dentro do box estava a maior e mais estranha flor que a idosa já vira, “Então foi daqui que veio o cheiro?”, pensou a idosa.

— Eu falei pra você ficar longe! Essa é a maior descoberta científica desde a invenção da máquina de lavar, sua abelhuda! — O vizinho floricultor estava bem atrás dela e parecia furioso.

Mais tarde, em um café, seu Nestor revelou o nome da descoberta botânica que estava poluindo o ar do prédio. Chamava-se Flor-Cadáver e viera de uma savana no continente africano.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Ana Cláudia Trigueiro 3 de agosto de 2021 17:33

    Amei este conto! Muito bem escrito! Quem poderia imaginar que o cheiro era por causa de…

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