[Conto] Terra à vista

Em tempos de pandemia somo levados a enxergar o mundo em toda a sua potência construtiva, e infelizmente destrutiva também. No caso dessa última, estamos assistindo o aumento da violência em todas as suas formas. Para a população negra, a violência é uma velha conhecida que é alimentada pelo racismo de todos os dias. Essa violência que se arrasta pelos séculos, desde quando os nossos ancestrais foram sequestrados da África e espalhados por uma diáspora forçada, da qual grande parte veio para o Brasil. Nós somos as/os herdeiras/os de suas vozes e nesse conto nos colocamos no lugar um ser humano escravizado á caminho de um destino cruel. Esse conto foi publicado nesse ano na Coletânea (Re)Existência da Editora Cartola.

Terra à vista

Tenho vivido na escuridão há muito tempo, tanto que sou incapaz de contar quanto dias… O porão desse navio tem sido nossa morada… Nossa prisão. Só sei que para mim são infindáveis os dias em que estou aqui aprisionada na ausência da luz do sol. Essa escuridão tem tomado conta de mim, tem me invadido a alma e já nem sei se meus olhos, ou eu mesmo conseguirei me adaptar a luz, se um dia sair deste lugar tenebroso. Sinto frio, fome, medo e desespero. Olho ao redor e encontro um pouco de consolo, pois os olhos que me olham de volta refletem o mesmo sofrimento que eu. O que será de todos nós? Como fomos transformados nisso? A morte talvez fosse um destino mais feliz do que o que nos aguarda ao fim dessa dolorosa, triste e mortífera jornada. Somos muitos! Muito mais do que cabemos aqui, mas isso não importa para eles. Somos apenas coisas, não somos humanos, somos carne servida a outros em troca de algo mais valioso.

Minhas lágrimas secaram, assim como a de tantos outros aqui. Não há mais choro. Como chorar, se o nosso corpo está seco, magro, adoecido, alquebrantado. Não há lugar para as lágrimas, todas já foram derramadas. Elas se foram com a última visão de nossa mãe. A terra que me viu nascer, não me verá morrer e nem me cobrirá com o seu manto, meu corpo não será celebrado como o de meus ancestrais.

Tentam nos tirar tudo. Nossas vestes, nossos nomes, nossa história. Mas ela resiste viva, forte, indestrutível em nossas mentes e corações. Somos muitos, de várias tribos, nações e línguas diferentes. Somos um, na sina, na dor, na tristeza e no destino, que o homem branco preparou para nós.

Minha barriga cresceu um pouco, já consigo sentir minha cria. Que mãe eu sou? Como uma mãe pode arrastar para essa desgraça um ser inocente? Que farei quando ela nascer? Minha dor me consome, não apenas por mim, mas por ela, que herdará o cativeiro e não a liberdade. Ela se mexe! Como se compreendesse toda a minha dor. Nossas almas já estão unidas e compartilham o nosso infortúnio.

— Eu sinto muito, minha pequena. Você é a única luz nesse buraco imundo, fétido e desesperador, mas nada se compara ao meu desespero por não poder lhe oferecer outro destino.

Um grito de “terra à vista” aumenta o meu pavor. A tão temida chegada ao porto, faz crescer a minha dor e agonia. O que será de nós agora? O que será de minha pequena luz que guardo em meu ventre? Sou covarde, não tenho coragem, não tenho forças para acabar com esse sofrimento, como outras mais fortes do que eu, que fizeram e descansam em paz, acolhidos pela Senhora do mar.

— Me perdoe, minha pequena luz! Enquanto estiver em mim, te protegerei e quando chegar sua hora de entrar nesse mundo, morrerei se preciso para lhe proteger. Que Oxalá nos guarde!

Pedagoga e professora do IFRN, campus Apodi. Mestra em ensino pela UERN e doutoranda em educação pela UFPB. Autora do livro "Entre Saberes e Fazeres Docentes: o ensino das relações étnico-raciais no cotidiano escolar". Tem contos e poesias publicados em antologias. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × 4 =

ao topo