[Conto] Você conhece o Mário?

Lá vem o Arcanjo. Puxando por uma perna. Todas as vezes que minha garganta fechava era sinal de mudança no tempo. Não precisava nem assistir previsão. Era só uma questão de perceber o líquido escorrer do muco da laringe, a garganta doer, e sabia: chuva. Não dava outra.

O Arcanjo olhava por baixo das sobrancelhas franzidas, que se juntavam marcando a testa. Naquele momento, se eu fosse Jesus teria feito um milagre só pra ver ele correr. Mas nem precisou. De longe ele olhava para mim e balançava a cabeça dizendo, não.

A minha garganta, que acertava a previsão tanto quanto qualquer balão meteorológico, apesar do dia ensolarado, falava-me sobre uma tempestade que se anunciava no horizonte. Por isso, ontem à noite, não consegui dormir direito.

O Mário era um garotão dum sorriso largo que emprestava dinheiro a juros. Gostava de correr de moto. Nós, Arcanjo e eu, o conhecemos através de um amigo em comum, que também estava na mesma “situação” em que a nossa.

Seus cabelos, que eram marcados por cachos alourados, faziam-lhe lembrar um “surfista”. Tinha grandes olhos redondos e vivazes, e o sorriso frouxo, que carregava no canto dos lábios, é do tipo que dificulta em percebermos quais são “suas reais intenções”; se estava com raiva quando mostrava os dentes, ou simplesmente se sorria por sorrir.

Hoje Mário viria pegar dois meses “atrasados” em sua moto; do Arcanjo e Meu. E estive esperando todo esse tempo o Arcanjo tentar arranjar alguma coisa com um amigo, para pagarmos o que estávamos devendo a Mário.

Arcanjo, muitas vezes, gostava de pregar peças. E eu mantive a esperança de que “aquela cara de choro”, e aquele aceno de sua cabeça dizendo “não”, fosse mais uma de suas peças. E tanto mais ele arrastava aquela perna, tanto mais a minha garganta se fechava, e eu pensava: “Porque você não pode andar mais depressa, filho da puta?”.

“Nada” Ele me respondeu, sem ao menos esperar que eu lhe pergunta-se, balançando a cabeça novamente.

“Como assim, nada?” Respondi sacudindo-lhe os ombros. Quase o derrubando.

“Mas você não tinha falado que era certo? Que ano passado havia conseguido?”

“Ano passado…”

“E agora? O que a gente vai dizer a ele?”

“Sei lá…”

“Seria bom se ele morresse…”

“Ele quem?”

“Ora, o Mário!”.

“Quê isso, diz isso não. O cara tem família, tem filho, como eu e você…”

“Foi só um pensamento….

 

Então ficamos os dois ali, parados. Como dois condenados dividindo a má sorte esperando a sua hora. Esperando Mário vir pegar o que não tínhamos para entregar-lhe. E assim passou o tempo. Primeiro os minutos. Depois as horas. E logo, o dia. Só o Mário e que não veio. Soubemos, só no dia seguinte, que ele se meteu em um acidente. Deixou partes da moto e da cabeça espalhadas na Av. Engenheiro Roberto Freire. Deus ou o “diabo” haviam atendido as minhas preces.

Houve, porém, um dia passadas algumas semanas desde o acidente, que o amigo que havia nos apresentado ao agiota chegou com a viúva e uma criança a colo. Mário tinha mais de vinte mil reais soltos na praça. De pessoas que lhe deviam. E sua esposa, a título de receber essa grana, nos procurou, pois em uma caderneta havia nossos nomes e, ao lado, um valor em cifras, e o endereço, indicando o local onde trabalhávamos.

Arcanjo olhou-me por baixo das sobrancelhas franzidas, mas não disse nada. Minha garganta, depois de vários dias em crise, enfim agora começava a se reestabelecer. Não havia nem um menor sinal de rouquidão. O que me permitiu responder-lhe a pergunta que havia feito com outra pergunta: “E quem é Mário?”.

 

Olhei para o céu. Havia um céu, brilhante e sem nuvens.

 

 

 

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