Contos de Nabokov são pérolas do gênero

Não passará indiferente àqueles que estão mais ou menos familiarizados com a obra de Vladimir Nabokov a recente publicação dos seus “Contos reunidos” (Alfaguara, 2013), com tradução de José Rubens Siqueira e notas de Dmitri Nabokov, filho único do autor russo. A importância é dada por si mesma, ao encerrar um ineditismo inexplicável dessa parte fundamental da obra nabokoviana entre nós, espécie de inércia editorial que flagela o setor do livro no Brasil, denotando um autorreconhecimento de sua falta de ambição e responsabilidade editorial. A própria Alfaguara não chega a ser uma exceção em meio à norma negativa. Basta ver que o terceiro volume da trilogia “1Q84”, de Haruki Murakami, ainda não foi lançado, caso único, cremos, entre as línguas latinas, com a ressalva de que em Portugal a obra foi publicada em 2012 pela Casa das Letras.

Com Nabokov se dá um dilema que resulta às vezes em posições extremistas, a exemplo de Machado de Assis. É melhor o romancista ou o contista? Há partidários passionais das duas posições. Após a leitura de uma dúzia de contos (em Nabokov uma dúzia curiosamente é treze, como no livro “Nabokov’s dozen”), é inevitável que nos ocorra a dúvida estética, pois é tal a força de seus protagonistas que rivalizam com os tipos mais salientes dos romances.

Contos como “Bachmann”, “As irmãs Vane”, “Perfeição”, “Visita ao museu”, “Uma beleza russa”, “Ultima Thule”, “Natasha”, entre tantos outros, frequentam as páginas das antologias de contos russos há décadas. Isso não impede que antologias americanas o incluam entre seus iguais, uma vez que parte substancial da obra do autor de “Lolita” foi escrita em língua inglesa. Caso, aliás, da citada “Lolita”.

Em suas mais de 800 páginas, “Contos reunidos” fornece ao leitor os temas mais frequentes da obra nabokoviana, a começar pelos pequenos dramas dos exilados – experiência que o próprio escritor viveu desde seu exílio nos anos 1920 em Berlim e onde, sob um véu de fantasia e segredo, conheceu Véra Slonin, que viria a se tornar a Senhora Nabokov.

Mais importante do que isso, o leitor pode conhecer a prosa nabokoviana, algo tão distinto quanto a kafkiana e a beckettiana, para citar dois estilos rivais em popularidade. Leve e sutil, mas especialmente poética, repleta de imagens líricas independentemente de que enredo se trate, Nabokov incorpora a sua literatura humor e empatia com seus personagens, compostos, em sua grande maioria, por seres comuns, risíveis, quando olhados a distância, mas nem por isso menos sofredores, humanos, sobretudo se flagrados no calor da narrativa.

A corajosa e necessária iniciativa da Alfaguara em publicar num só volume as três edições de contos que Nabokov publicou, além daqueles da fase russa que foram traduzidos para o inglês por Dmitri Nabokov, sinaliza a possibilidades novas para a atualização da obra nabokoviana no Brasil, da qual um livro fundamental como “O dom” (“The Gift”, na versão inglesa), seu último romance russo, permanece inédito no Brasil. Do mesmo modo, o leitor brasileiro continua privado da oportunidade de ler os dramas de Nabokov, que em inglês portam os nomes de “The Waltz Invitation” (“O convite à valsa”) e “The man from URSS and Other Plays” (“O homem da URSS e outras peças”). Permanecem inéditos ainda o livro “Strong Opinions” (“Opiniões firmes”) e sua obra crítica, como “Lectures on Dom Quixote” (“Palestras sobre o Dom Quixote) e as “Lectures on Russian Literature” (“Palestras sobre a literatura russa”), dentre outras, como sua vasta correspondência com o crítico americano Edmund Wilson, suas poesias etc. Nesse sentido, é de especial importância o trabalho que a Companhia das Letras vem fazendo ao republicar romances seus sob a competente tradução de Jório Dauster, talvez o melhor tradutor de Nabokov hoje no Brasil. Enfim, são tempos nabokovianos que não devem ser desperdiçados.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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