Contra as artes da falácia

Livro reúne textos curtos de H. Bustos Domecq, heterônimo da dupla argentina Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

Nascido na minúscula Pujato, distante 300 km da capital argentina, Buenos Aires, Honorio Bustos Domecq foi um escritor precoce. Segundo sua primeira biógrafa, a professorinha Adelma Badoglio, lançou-se à escrita ainda cedo, aos 10 anos, quando publicou suas primeiras peças literárias. Difícil precisar quantas obras escreveu, pois lhe falta um biógrafo mais afeito aos detalhes. Certo estou que, delas, só umas poucas chegaram ao grande público: o roteiro de cinema “Os suburbanos” (1939); as novelas “Seis problemas para Dom Isidro Parodi” (1942), “Duas fantasias memoráveis” (1946), “Um modelo para a morte” (1946), “O paraíso dos crentes” (1955); e as coletâneas “Crônicas de Bustos Domecq” (1967) e “Novos contos de Bustos Domecq” (1977).

Não sei quando faleceu. Talvez em 1977, quando saiu seu último livro. Sei, no entanto, que nunca existiu fora destes mesmos livros, que foram assinados por ele, mas escritos pela dupla Jorge Luis Borges (1899 – 1986) e Adolfo Bioy Casares (1914 – 1999). Domecq não era apenas de um nome fictício, mas de um autor com seu estilo e temas próprios. O procedimento não é inédito na literatura – vide Fernando Pessoa. Em Borges/Bioy Casares, no entanto, ganha uma força irônica. Afinal, dois grandes nomes da literatura platina eram os “ghost writers” de um escritor fantasma, que só existia na fantasia.

São exatamente os derradeiros escritos deste autor personagem chamado H. Bustos Domecq que acabam de lançados, coligidos num único volume, pela editora Globo (que já lançou os demais títulos conhecidos de sua produção). “Crônicas de Bustos Domecq/ Novos contos de Bustos Domecq” ganhou tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro, tradutora que tem se destacado por seu trabalho com prosadores argentinos, como Leopoldo Lugones (1874 – 1938, um dos heróis literários de Borges e Casares) e Antonio Di Benedetto (1922 – 1986).

Os falsos signos

Ao contrário do que se poderia esperar de escritos de Borges e Bioy Casares, o livro não traz histórias que poderiam ser chamadas de fantásticas ou enquadradas no gênero da ficção especulativa. Domecq escreve sobre a cena literária argentina da primeira metade do século XX e do começo da segunda.

O Fantástico aqui fica por conta do exagero dos procedimentos artísticos/literários descritos por Domecq em seus textos. São particularmente interessantes as crônicas, em que o fictício Domecq analisa obras de autores igualmente ficcionais. Caso de César Paladión, que no exagero do intertexto, escrevia linha por linha a “Divina Comédia” e “Odisseia”; Loomis, inimigo da metáfora, que reduzia suas obras a uma única palavra – como “Urso” e “Boina”.

Mais do que fazer troça de seus pares literatos argentinos, Borges e Casares produzem um vigoroso ensaio, que se esconde nestas crônicas falas, sobre a arte moderna, demasiado dependentes de uma crítica que a explique e a justifique.

CONTOS
“Crônicas / Novos contos de Bustos Domecq”

Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares
R$ 42,00
256 PÁGINAS
2010
EDITORA GLOBO
TRADUÇÃO: Maria Paula Gurgel Ribeiro

DELLANO RIOS, Diário do Nordeste

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. João da Mata 20 de junho de 2010 11:09

    Nina, escrevei sobre a relaçao Borges/ Casares em as “Parcerias ” postado aqui. D~e uma olhada

    Trecho

    Outra grande parceria da literatura se deu entre os escritores Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Parceria que rendeu muitos livros de crônicas, antologias e roteiros para cinema. A parceria entre o autor de “A invenção de Morel” e Borges começou em 1942 sob o pseudônimo de Honorio Bustos Domecq, em alusão ao famoso conhaque apreciado pelos escritores e ao nome de ancestrais comuns a eles. ….

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