Contra as verdades

Por Janio de Freitas
FSP

Assim é há um quarto de século e o será por muito tempo, porque as gerações de militares não mudaram

A NOTA do Ministério da Defesa sobre a má recepção militar à futura Comissão da Verdade não é verdadeira. O que “está superado” desde 2010 não é o documento feito no comando do Exército com restrições ao propósito da Comissão, como induz a nota do ministério, e portanto do não assinado ministro Nelson Jobim. Superada foi a intenção dos comandos de tornar o documento oficialmente público, contra a opinião de Jobim. O que não impediu seu recente vazamento, sem que caísse do céu, para “O Globo”.

A Comissão da Verdade – projeto encaminhado ao Congresso pelo governo Lula -, ainda que tenha finalidade apenas histórica e não questione a anistia, é considerada revanchista pelos comandos militares. Foi em represália a esse projeto que o patrono designado para a turma de aspirantes de 2010, no Exército, é o general Médici, patrono também do período ditatorial em que se deram os piores e mais numerosos crimes da repressão militar.

Assim é há um quarto de século e assim será por tempo imprevisível, porque as gerações de militares se sobrepuseram, mas a formação dos atuais não mudou e a dos futuros comandos, como informa a escolha do mais recente patrono, continua a mesma. Constou, tem algum tempo, que Nelson Jobim pensava na introdução de duas novas matérias em alguma altura dos cursos de cadetes: Constituição e Direitos Humanos. A escolha é significativa por si só, mas com relevância especial para a indicada necessidade de que seja o caso, ainda, de impor o conhecimento da Constituição. Não é preciso dizer mais sobre a formação.

A MORTANDADE

O aumento dos números de mortos e de acidentes nas estradas federais estarreceu e, como esperado, recaiu inteiro sobre os que dirigiam.

A responsabilidade que cabe a parte deles está à vista nas estradas e nas ruas, mas não se pode afirmar sequer, apesar da probabilidade, que seja a maior causa. Falta uma providência básica para se estudarem as causas reais e, daí, possíveis medidas atenuantes.

Falta o exame pericial do acidente. Da ação do motorista, sim, mas também das condições da via, onde uma pedra e um pequeno buraco podem provocar desvios desastrosos de direção. E exame do próprio veículo. Um pneu que aparece rasgado depois do desastre pode ter estourado antes. A série ininterrupta de convocações (o “recall”) para troca de peças é também um alerta sério para a imperfeição dos veículos e de seus componentes. A polícia pode, no máximo, registrar observações superficiais dos acidentes. Não, porém, de uma quebra de suspensão, câmbio inoperante, aceleração involuntária, tantas possibilidades mais.

A perícia correta de um acidente não só o esclarece: é prevenção contra outros acidentes e outras mortes. É informação para autoridades de trânsito, administração urbana e rodoviária, e fabricantes de peças e veículos. Logo, é a mais eficiente ação contra a mortandade nas estradas. E, no entanto, desprezada pelos governos.

ESTAMOS AÍ

A explosão na usina atômica japonesa decorreu do terremoto e em prédio tido, pelos especialistas em produção de energia nuclear, como insusceptível de danos por abalos sísmicos terrestres ou marinhos (a usina fica à beira do mar).

Só mesmo a irracionalidade dos racionais para continuar espalhando usinas nucleares em seus países. O Brasil, claro, vai para Angra 3 e planeja mais.

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