Contra os racismos e em defesa da psicanálise

Por Juvenal Savian Filho
Cult

Acabam de ser publicados no Brasil dois livros de Elisabeth Roudinesco: Retorno à Questão Judaica e Em Defesa da Psicanálise. A psicanalista e historiadora francesa esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro para uma série de conferências e concedeu esta entrevista à CULT, por telefone. No primeiro dos títulos recém-publicados, Roudinesco reflete sobre o modo como foi tratado o tema de uma identidade judaica, denunciando a exacerbação do racismo nas últimas décadas. No segundo, que é uma coletânea de ensaios e entrevistas, ela toma a defesa da psicanálise perante os ataques de certos pensadores que não querem ver na mesa de pesquisas assuntos como o sexo, o poder e a intimidade.

Elisabeth Roudinesco nasceu em 1944, filha de Alexandre Roudinesco, médico judeu de origem romena, e Jenny Aubry Weiss, pediatra e psicanalista francesa. Foi professora primária na Argélia entre 1966 e 1967, antes de continuar seus estudos superiores na Sorbonne, onde se formou em letras modernas, com especialização em linguística. Fez seu mestrado orientada por Tzvetan Todorov e, durante seu doutorado, foi aluna de Gilles Deleuze e Michel de Certeau. Em 2007 foi eleita presidenta da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e da Psicanálise. É professora da Universidade de Paris e da Escola Prática de Altos Estudos de Paris, com vasta produção científica e intervenção nos meios de comunicação. Colabora com o jornal Le Monde desde 1996.

CULT – Qual o sentido do “retorno” à questão judaica, de acordo com o título de seu último livro?

Elisabeth Roudinesco – Em francês é muito claro: é um retorno sobre a questão judaica. Em português o título foi traduzido como retorno à. Pode ser uma boa tradução em português, e eu aprecio muito minha tradutora e meu editor, mas em francês é muito claro: ao dizer sobre a questão, pretendo dar o sentido de um retorno sobre o que foi escrito a esse respeito; se eu dissesse à, daria a entender que há uma questão. Ao empregar sobre, pretendo falar da maneira como colocamos a questão. Faço referência, por exemplo, ao modo como se falou da identidade judaica em um mundo desjudaizado, em que a identidade judaica faz os judeus integrar-se como iguais aos outros cidadãos. Também trato do antissemitismo, pois os judeus o suscitam sempre; é algo étnico e racial.

CULT – Como a senhora vê o episódio recente da interceptação israelense da flotilha que pretendia chegar à Faixa de Gaza?

Roudinesco – Condeno inteiramente esse ataque, bem como a atual política de Israel. Assinei a petição JCall [Jewish Call, petição de judeus europeus para forçar Israel a pôr fim à atual política de ocupação], reclamando um Estado para os palestinos. A política ultranacionalista de Israel é catastrófica para Israel e para o mundo inteiro. Mas, ao mesmo tempo, não ponho em questão a existência do Estado de Israel.

CULT – Como a senhora resumiria o ser judeu hoje?

Roudinesco – Evidentemente, há os judeus religiosos, no sentido da tradição do judaísmo, mas há também, e majoritariamente, aqueles que de algum modo herdaram alguma coisa do ju-daísmo, ou seja, o monoteísmo, o laicismo, um certo amor do Livro, da letra etc. Eu, por exemplo, considero-me judia no sentido de Freud, que era muito antirreligioso, mas, ao mesmo tempo, sentia-se judeu. E o sou menos do que outros, pois fui criada sem nenhuma referência ao judaísmo; minha família era republicana, laica e ateia. Sou herdeira de Sartre, Derrida, Deleuze, enfim, da linhagem nascida de Freud, mas me sinto concernida pelas formas de racismo antissemita. Esse é meu combate.

CULT – A senhora considera-se ateia?

Elisabeth – Sim, mas não no sentido de uma religião do ateísmo. Detesto o ate-ísmo militante. Sou materialista, mas, em matéria de história, sou também uma discípula de Michel de Certeau, que foi jesuíta e um dos maiores historiadores de todos os tempos. O que julgo que deve ser combatido é o fanatismo religioso, mas não sou favorável a uma religião do ateísmo, pois ela seria pior do que todas as outras.

CULT – Voltemos nossa atenção para a psicanálise…

Roudinesco – Eu aprecio toda a psicanálise, porque aprecio sua história; por isso, sou muito crítica do dogmatismo sob todas as suas formas: kleiniano, freudiano ou outro que o valha. Aprecio muito a história da psicanálise; é a grande aventura do século 20, como o socialismo, o feminismo etc. Aprecio a história das teorias da emancipação. Foi também por isso que escrevi sobre a questão judaica, porque o sionismo, em princípio, é uma utopia extraordinária [construção do ideal judaico da Terra Prometida]; mas, além de apreciar as utopias, é preciso saber criticá-las.

CULT – E por que falar Em Defesa da Psicanálise?

Roudinesco – Estou inteiramente de acordo com esse título. É preciso defender a psicanálise como disciplina e história clínica. Isso não quer dizer uma defesa dos psicanalistas em seu conjunto, mas é preciso defendê-la como disciplina, principalmente porque ela tem sido alvo de ataques. Os principais vêm daqueles que querem substituí-la por outra coisa, sobretudo os cientistas. Há não apenas uma crítica, mas um ódio da psicanálise, visando destruí-la. É um ódio muito parecido com o ódio contra os judeus. Isso não quer dizer que os ataques à psicanálise são antissemitas, pois entre os que a atacam há judeus. Mas há uma analogia radical entre os dois ódios: os radicais acusam os psicanalistas de ter o poder sobre o dinheiro, sobre o sexo, sobre o intelecto. O discurso do ódio contra a psicanálise talvez se deva ao fato de a psicanálise ter tocado em questões muito importantes. Por outro lado, os psicanalistas tiveram também um papel nefasto, porque eles podem ser bons clínicos, mas nem sempre bons intelectuais. O próprio Freud tinha um problema terrível: ele dizia que não devíamos defender a psicanálise de seus adversários. Eu penso o contrário, pois não acredito na neutralidade política. Outro detalhe importante é que, nos últimos 20 anos, muitos psicanalistas se tornaram reacionários, homofóbicos, contrários a novas formas de procriação etc., e isso os torna também responsáveis por certos ataques à psicanálise.

CULT – Como a senhora vê as aproximações entre Freud e a neurologia?

Roudinesco – Estou radicalmente em desacordo com isso. A neurologia é uma disciplina da medicina, científica. A psicanálise não entra da mesma forma na categoria de ciência, é uma ciência humana; e, se Freud tivesse continuado neurologista, não teria inventado a metapsicologia e a psicanálise. Do meu ponto de vista, não há a possibilidade de uma neuropsicanálise. Defendo uma separação dos dois campos.

CULT – Uma palavra sobre o futuro?

Roudinesco – Sou muito otimista. Acho que o ser humano encontrará sempre uma maneira de ultrapassar as pulsões de morte, mas elas existem e devemos saber isso. O ser humano resulta sempre de duas forças antagônicas, uma tentativa de destruição e uma tentativa de vida. Em um mundo tão difícil, é preciso ser otimista.

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