Convergências literárias entre as narrativas de Agualusa e Ferréz

Por Marcel Lúcio*

Neste curto período de recesso de final/início de ano, li dois romances representativos da literatura contemporânea: Teoria geral do esquecimento, de José Eduardo Agualusa, e Deus foi almoçar, de Ferréz, ambos publicados em 2012. Pretendo aqui compará-los brevemente assinalando pontos que aproximam essas obras.

Primeiro, uma contextualização sobre os autores. José Eduardo Agualusa é angolano, nasceu em 1960 na cidade de Huambo. Considerado um dos escritores mais significativos da atual literatura africana em língua portuguesa, Agualusa já publicou mais de 20 livros de ficção, nos quais aborda predominantemente a situação de Angola no período da independência (1975) e da subsequente guerra civil que ocorreu no país (1975-2002). Ferréz, nascido em São Paulo no ano de 1975, é tido como o grande autor do segmento convencionalmente chamado literatura marginal, que engloba iniciativas de publicações independentes e tematicamente discorre sobre as periferias das metrópoles brasileiras. Ferréz possui uma bibliografia diversificada, composta por romances, contos, poesia e narrativas infantis. Além disso, atua como editor e colunista em jornais e revistas.

A narrativa Teoria geral do esquecimento aborda momentos determinantes na história de Angola observados a partir do ponto de vista de uma professora portuguesa que foi morar em Luanda em período bem próximo à independência política. Ludovica mudou-se para o país africano acompanhando a sua irmã e seu cunhado, mas logo, após o desaparecimento de ambos, se viu sozinha em terra estranha e sob profunda agitação revolucionária. A solução da personagem foi se isolar construindo, no corredor do apartamento em que residia, uma parede que a separava do mundo exterior. Ludovica então passa a viver solitariamente várias peripécias e acompanha à distância as mudanças sociais e políticas sofridas pela capital de Angola.

Deus foi almoçar conta a história de Calixto, homem de trinta e poucos anos que trabalha na seção de arquivo de uma empresa em São Paulo e vivencia processo de separação matrimonial. Após o rompimento, Calixto questiona o sentido de suas ações e das relações sociais. Caminhando em direção a lugar nenhum, a personagem busca cada vez mais o isolamento, distanciando-se de amigos, como o até então “melhor amigo” Lourival, e percebendo os relacionamentos amorosos como irrealizáveis, pois a comunicação total com o outro seria impossível. Calixto evidencia o drama vivido pelo homem comum que tem sua identidade degradada em meio ao non-sense das grandes cidades.

Assim, do ponto de vista temático, podemos constatar que as duas narrativas abordam assuntos similares: o isolamento social, a problematização da relação com o outro e a crítica ao modo de vida atual. Ludovica e Calixto são personagens que expõem a dificuldade de compreensão e comunicação entre as pessoas, caminham para o mesmo destino: o afastamento da convivência em sociedade. As narrativas servem como uma metáfora para a condição do homem contemporâneo, pois, mesmo com todos os meios de comunicação disponíveis e mesmo envolto em infinitos compromissos sociais, o indivíduo não consegue efetivamente compartilhar sua experiência com o outro, surgindo então o espectro da solidão.

Do ponto de vista formal, há semelhanças estruturais entre os dois textos literários, como a alternância do foco narrativo entre a primeira e terceira pessoa e a alta fragmentação das duas narrativas, capaz de ocasionar a necessidade de o leitor constituir um verdadeiro quebra-cabeça para entender as histórias. Os capítulos são curtos e, geralmente, quando ocorre a mudança de um capítulo para outro acontece também a alternância no foco narrativo. Há um narrador em terceira pessoa que transmite uma visão exterior das personagens, ou seja, como os outros as veem; e existe a narração em primeira pessoa que permite ao leitor perceber a densa dimensão psicológica das personagens. Os artifícios elencados demonstram a preocupação dos autores em tornar suas narrativas interessantes ao leitor contemporâneo, pois contribuem para ocasionar dinamismo aos textos.

Portanto, apesar de aparentemente tratarem de realidades distintas, podemos perceber que há muitos pontos de conexão entre os romances Teoria geral do esquecimento e Deus foi almoçar, pois tanto o conteúdo quanto a forma das narrativas remetem a uma discussão que está na ordem do dia: como viver com o outro num mundo que cada vez mais empurra o indivíduo ao isolamento. Agualusa e Ferréz podem ajudar a resolver essa equação.

 

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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