Conversação com C”

Por Dácio Galvão
TRIBUNA DO NORTE

Um bate-papo que conseguimos estimular em 1994, aqui Natal, no saguão do hotel que estava hospedado o escritor rendeu uma entrevista sobre temas teóricos e criativos da literatura russa da primeira metade do século passado. Naquela ocasião o ensaísta e tradutor de Dostoiévski, Tostói, Gorki, Tchekhov, Pasternak e que esteve com Lília Brik, musa do poeta V. Maiakóski, estava acompanhando sua mulher a também escritora Jerusa Pires que participava de evento na UFRN.

O ucraniano que recebeu o Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras e a Medalha Púchkin do governo da Rússia longe de holofotes nos permitiu a conversa que se segue:

Seu livro ‘’A poética de Maiakóvski’’ estruturou-se a partir da tese de doutoramento em Letras. Ampliou conhecimento sobre a vanguarda poética russa e idéias de Vladimir Maiakóvski. Como vê a recepção?

 Boris Schnaiderman – É preciso dizer que esse livro chama-se ‘’A poética de Maiakóvski’’ através da sua prosa embora na capa, tenha o título mais curto por razões editoriais. Minha intenção era mostrar a importância da prosa de Maiakóvski como expressão do seu fazer, da sua poética. Quer dizer, da sua reflexão sobre o fazer do poeta. E eu, claro, que fico satisfeito de ver que a semente germinou. Meu esforço teve receptividade, vem tendo receptividade até hoje e graças ao trabalho com meus companheiros Augusto e Haroldo de Campos podemos traduzir uma parte da obra de Maiakóvski. Vejo tudo isso com muita satisfação. O nosso trabalho abarcou um campo relativamente pequeno, bastante representativo de Maiakóvski. Isto está sendo ampliado agora, nos últimos anos, graças ao trabalho de jovens poetas como Nelson Archer, Luiz Issac e Trajano Vieira. O Trajano Vieira tem trabalhado quase independentemente. Tenho pouco contato com ele, mas tem sido um trabalho muito bom

O famoso lingüista Roman Jakobson e sua companheira Krystyna Pomorska colaboraram com seu trabalho. Como ocorreu esse relacionamento?

 BS – Bom, a colaboração deles foi principalmente de estímulo e também…(.) Nós recebemos toda aquela teorização num período relativamente curto e eu não conhecia a obra de Jakobson, conquanto eles entraram em contato comigo. E, para nós, foi muito proveitoso. Agora não houve assim um trabalho em comum, não houve oportunidade para nós aproveitarmos mais o convívio com eles. O Haroldo é que teve mais contato com Jakobson e Krystyna quando esteve nos Estados Unidos. Eu só tive contato durante poucos dias, quando eles vieram para São Paulo e depois por correspondência, mais toda contribuição teórica deles foi fundamental para nós. No caso de Jakobson, o convívio com alguém que tinha vivido aquela experiência cubo-futurista com David Burliuk, Vielimir Khliébnikov, Vladímir Maiakóvski, Aleksiéi Krutchônikh, 1912…(.)

Tradutor de poesia russa moderna para português e parceiros dos poetas concretos Augusto e Haroldo de Campos, você ao mesmo tempo é um estudioso da cultura popular em grandes obras russas. Como se estabelece essa conexão entre a tradição e as vanguardas culturais?

 BS: As vanguardas culturais russas surgiram numa atitude de desafio de quem renegava toda tradição culta. Mais depois, é claro, eles modificaram essa visão e passaram a perceber melhor todo fluxo da cultura russa em que eles se inseriram e que tinham seus antecessores. Então Maiakóvski inclusive fez aquele poema ‘Jubileu’ em que ele dizia em outras palavras, que Aleksandr Sierguéievitch Púchkin fazia boa figura como colaborador dele na revista Lef – Livévi Front (Frente de Esquerda). Maiakóvski o tinha como alguém que realmente subvertia a ordem estabelecida no domínio das letras, como alguém que inovava. Passou a ver, como inovatório. Agora, desde o início eles tiveram muito contato com a cultura popular inclusive a mais antiga que estava sendo feita, naquele tempo (1908-1910) pelos pintores Larionov e Gontcharova. Eles estavam preocupados em reproduzir o espírito da pintura popular, das tabuletas de açougues, das tabuletas de padarias e o próprio Chagall estava em contato com eles e também ficou marcado por isso. Então havia todo um movimento que inibia elementos da cultura popular e essa rebeldia deles contra o ‘’establishment’’ literário os aproximavam muitas vezes do popular. Maiakóvski usou muito a quadra popular.

O livro ‘’Semiótica Russa’’ foi traduzido por você e traz ainda um pequeno ensaio sobre a polêmica da ciência da linguagem no seu país. Estruturalismo e Formalismo são aspectos abordados relacionando Lévi Strauss, precursores russos e estalinismo. Como evoluiu essa discussão?

 BS: Na vida cultural russa houve uma reviravolta total a partir de 1985. Desde o momento em que se teve liberdade de se expressar com a glasnost de Gorbachev tudo mudou de feição. Já se fazia estudos muito sérios com muitas dificuldades, com toda repressão. Havia um campo de estudo, inclusive vieram á tona materiais que estavam assim, escondidos. Escondiam-se não só materiais politicamente indesejáveis, mas os materiais que esteticamente não tinham aceitação não podiam circular, estavam praticamente escondidos, só sairia em publicações clandestinas. Muitas vezes publicavam trabalhos teóricos ou então, poemas. Agora, desde que isso passou a circular mais claro, se modificou todo panorama cultural. Dessa modificação, provém toda problemática levantada pelos estudiosos que inclui nesse livro. Aliás, eu não traduzi sozinho. Traduzi em colaboração com Aurora Fornoni Bernardini e Lucy Seki. Apesar disso, houve uma discussão ampla.

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