Conversas com Theo G. Alves

Vencedor do Prêmio Nacional Ignácio de Loyola Brandão de Literatura, Theo G. Alves é poeta, contista e fotógrafo. Nascido em Natal, viveu muitos anos em Currais Novos e hoje é radicado em Santa Cruz. É autor de “Loa de pedra” (poesia), “A casa miúda” (contos), “Pequeno manual prático de coisas inúteis” (poesia e contos) e “A máquina de avessar os dias” (poesia). Em 2018 publicou “Doce azedo amaro” (poesia) e agora em 2020 “Por que não enterramos o cão?” (contos). Além de tudo isso, tenho a honra de ser sua amiga de infância. Com o prazer de sempre, conversamos sobre literatura, fotografia, quarentena, projetos, inspirações: sobre a vida e seus senões.

1. Theo, fale sobre você, sua formação, trajetória na literatura.

Comecei a escrever poesia ainda nos primeiros anos da adolescência. Gostava muito de como as palavras soavam e dos desenhos que elas eram capazes de formar. Aliás, as imagens foram meu primeiro motivo para escrever. Eu queria tanto ser capaz de criar imagens e a única maneira de fazer isso àquela época era usando as palavras. Acho que essa busca pela imagem continua até hoje.

Acabei por fazer o curso de Letras pela UFRN alguns anos depois, onde as amizades e o entendimento de literatura ganharam ainda mais força e ao lado de gente muito boa conseguimos fazer coisas bastante interessantes no período, como os livros artesanais.

Depois de três livros de poesia, publiquei agora um de contos chamado “Por que não enterramos o cão?” e tenho me arriscado em outras expressões literárias para um futuro breve.  

2. Sobre o processo criativo, você percebe particularidades em termos de poesia e prosa?

Para mim, são dois processos muito distintos em alguns aspectos práticos e parecidos em outros aspectos ontológicos, para usar uma palavra mais bonita que o próprio processo. Para ambas sou um escritor lento que mastiga e mastiga as palavras e frases antes de parar e colocá-las no papel. Nisso, prosa e poesia se aproximam. Mas sou também um escritor um tanto burocrático e gosto de repetir sempre as condições peculiares para uma e outra. Explico: escrevo poesia sempre no bloco de notas, mesma formatação, fonte, tamanho e se o bloco está um pouquinho maior que o habitual, me perco. A prosa também tem suas peculiaridades processuais.

Acampamento MST Retoma Trairi, em Tangará (RN)l. Fotografia: Theo G. Alves
3. O conto “por que não enterramos o cão?” venceu o Prêmio Nacional Ignácio de Loyola Brandão e deu o título para a sua mais recente obra. Qual o lugar afetivo que este livro ocupa em sua vida?

Eu fiquei muito feliz em saber que esse conto tinha vencido um concurso. Muito mais pelo que ele significa para mim do que pelo prêmio. Acho que vencer essas coisas tem importância por oferecer a possibilidade de algum alcance aumentado do que a gente escreve, levar nossa palavra a pessoas que não a conheceriam se não fosse pelo concurso, e também por remunerar o autor. É sempre uma alegria poder pagar um boleto com literatura, pena que não seja das coisas mais frequentes.

Mas esse conto marca uma possibilidade narrativa que eu não julgava pudesse ser celebrada em algum concurso. Ela é cheia de imagens densas e truncadas e isso é proposital porque é a primeira vez que tentei declaradamente escrever sobre como é conviver com a depressão, ainda que isso não seja entregue de bandeja ao leitor.

Pelo que ele significa e pela ideia presente de como não enterrar nossos mortos faz com que eles voltem a nos assombrar – ou às vezes apenas a conviver pacificamente conosco – me pareceu justo que ele carregasse o nome do livro.

As histórias presentes em “Por que não enterramos o cão?” foram escritas ao longo de muitos anos e publicá-lo foi como abrir mão de uma pedra de salvação que tinha, afinal, quando terminava os projetos em que me metia era sempre para ele que eu voltava, que me dava a certeza de que ainda tinha algo a escrever.

Abrir mão dessa segurança exigiu um movimento de muita coragem. Mas eu sabia que isso era necessário, que precisava enterrar este cão para poder seguir adiante com as novas possibilidades.

4. “por que não enterramos o cão?” é o seu quarto livro, o primeiro de contos. Como você avalia o fato de, hoje em dia, vários autores fora do circuito Rio-São Paulo serem visibilizados por editoras como a Patuá, uma das mais respeitadas do Brasil na atualidade?

Acho fundamental que o Brasil seja capaz de ver, de ler o Brasil. E nós somos também este país que muitas vezes nos esquece, nos exclui ou nos trata como exóticos. É fundamental que possamos descobrir a literatura fora do Sudeste e Sul do país.

Estar no Nordeste geralmente significa marginalização para nós. E estar no interior do Nordeste dobra essa marginalidade. Costumam esperar de nós uma literatura feita só de estereótipos.

Por isso é justo, honesto e importante que possamos ser lidos como quem somos e não apenas como a imagem turística da simbiose de Lampião que querem de nós.

Publicar, vender e ler autores de fora desse eixo é fundamental para arejar a literatura do país.

Esse papel tem sido bem cumprido por editoras como a Patuá, a Moinhos, Penalux e outras chamadas pequenas. Faltam agora as grandes e o público maior começarem a ler o Brasil.

Trabalhadores da Rua Cega Matilde no lixão, em Santa Cruz (RN). Fotografia: Theo G. Aves
5. Como você avalia as políticas públicas voltadas para a cadeia produtiva do livro nos últimos tempos em nosso país?

A literatura no Brasil não acontece com o poder público, mas sim “apesar” do poder público. Nós escrevemos e publicamos livros num sufoco danado para um mercado consumidor que se mantém pequeno, afinal não há como fazer público apenas imprimindo livros.

Precisamos fazer com que a literatura circule, que o livro circule. Para isso é fundamental um programa que permita às pessoas terem acesso ao livro, que conheçam bibliotecas e se sintam próximas da leitura. E não temos um programa de incentivo à leitura há muito tempo. Ao contrário disso, temos visto um governo dedicado a sufocar a cadeia de produção editorial.

Também é necessário que autores e editoras tenham formas de incentivo decentes à escrita e à publicação.

Precisamos começar a encarar a literatura – assim como os outros fazeres artísticos – também como trabalho, logo como atividade remunerada, como cadeia produtiva. É preciso que abandonemos a ideia onírica da literatura como hobby elegante.

Escritores e editoras precisam sobreviver.

E além desse materialismo, é importante que a literatura circule, que faça novos leitores, chegue às comunidades mais diversas porque é arte quem nos salva do embrutecimento. Sem a arte nós vivemos como animais apenas, a sobrevivência básica: comer, dormir, beber e acompanhar os relógios. A arte é o que nos permite transcender, que propicia sermos humanos a partir das peculiaridades que nos diferenciam dos outros animais.

6. Você acha que sua vivência cotidiana no interior do Nordeste influencia sua produção literária?

Influenciam porque sou fruto disso, mas não me limitam. Eu posso ter passado minha infância inteira em Currais Novos, mas isso não me impede de ficar emocionado ouvindo um disco do Tomász Stànko vindo das brenhas da Polônia onde nunca estive. As coisas que vi, o que aprendi com minha avó e com nossos rios secos formaram parte importante de minhas experiências estéticas e de vida. Mas elas são peculiares como são as experiências de qualquer outra pessoa em qualquer outra cidade do país.

Escrevo sobre a vida, as pessoas e as experiências de alguém que esteja ou não no Nordeste, mas não limito isso ao espaço geográfico. Eu escrevo como ser no mundo.

Bonsucesso, em Santa Cruz (RN). Fotografia: Theo Alves
7. Mário Quintana diz que “o fotógrafo tem a mesma função do poeta: eternizar o momento que passa”. De que maneira o seu olhar de fotógrafo dialoga com suas inquietações literárias?

Há um encontro inevitável da literatura e da fotografia no que faço: nas duas artes a minha busca é por contar histórias através de imagens. Compor essas narrativas sempre foi um processo de desenhar imagens: na literatura, através da palavra; na fotografia, da luz.

Além disso, são processos que se encontram pouco. Eu escrevo para organizar as minhas sensações comigo mesmo e a partir disso convido o leitor para que nos encontremos nas palavras.

Na fotografia, eu organizo minha relação com o mundo. É a maneira que encontro de falar com o que está fora de mim e de ouvir o mundo.

A fotografia me permite estar de fato nos lugares, com as pessoas, de ter essa relação de partilha que a literatura raramente permite.

8. Que autores você considera referenciais para a literatura brasileira contemporânea?

Há muita gente boa escrevendo no país. Infelizmente, às vezes tenho a sensação de que há mais gente escrevendo do que lendo essas produções.

Dos brasileiros que escrevem poesia, romances ou contos, tenho lido com muito gosto o Luiz Ruffato, o Cristóvão Tezza, Alberto Bresciani, Adriano de Sousa, Adriana Gama de Araújo, Ricardo Terto, Cinthia Kriemler, Viviane Santiago, Márcio de Lima Dantas, Thiago Medeiros, Iara Carvalho, Michelle Ferret, Wescley Gama, Dércio Braúna, Ádlei Carvalho, Mar Becker, Márcia Maia, Whisner Fraga e tanta gente boa que essa lista ainda ia muito longe!  Aliás, peço já desculpas pelos muitos autores que admiro, mas que não aparecem citados aqui por mera contingência de espaço.

Praia de Ponta Negra, em Natal (RN). Fotografia: Theo G. Alves.
9. Como tem sido sua produção artística nesse período de pandemia?

Tenho produzido muito, embora tenha oscilado com frequência. Sou parte dos privilegiados que puderam trabalhar de casa durante este período, mas que não esqueceram quem teve de estar lá fora. Também fiz meus sacrifícios e não foram poucos neste momento.

O home office toma um bocado de tempo e de energia, mas poder organizar melhor meus horários e trabalhar de maneira mais objetiva com o que paga as minhas contas, permitiu que houvesse mais tempo para pensar, para ver filmes, ler os livros que queria e refletir sobre tudo isso. Esse tempo que muitos chamariam de ócio é para mim o tempo de gestação da criatividade.

Por isso foi possível manter uma coluna semanal no portal Potiguar Notícias, além de contribuir frequentemente com outros veículos.

Também consegui terminar um livro de poesia que vinha construindo há alguns anos, mas que carecia de um tempo para finalizar as costuras.

Há o livro lançado mês passado pela Patuá, as lives que tenho feito todas as sextas-feiras com o escritor e jornalista Cefas Carvalho, produções junto ao IFRN que incluem atividades do Núcleo de Arte no campus em que trabalho e outros projetos literários para o futuro.

Infelizmente, a fotografia foi sacrificada durante estes tempos. Poucas vezes tive o desejo de apontar a câmera para algum lugar durante este período. Como sempre preferi fotografar as pessoas nos espaços de vivência, a pandemia foi uma espécie de limitador para isso. Espero que estes tempos de ausência e reclusão não tenham me feito desaprender a ver. Essa é uma ansiedade que me toma quando penso no fim desse confinamento.

10. O que você espera de Theo Alves, como ser humano e escritor, no pós-pandemia?

Eu espero agora o que costumo esperar sempre: que eu possa ser um pouco melhor do que antes. Ser pessoa e artista são duas coisas que muitas vezes se confundem para mim, ainda que saiba distanciá-los quando necessário. Espero sair deste momento um tanto mais generoso, solidário e sensível. Ainda que tenha a certeza de que também sairei mais assustado, traumatizado e ansioso. Deve ser sinal de equilíbrio, né?

Escritora, agente cultural, graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem [ Ver todos os artigos ]

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