Conversas de Feira

Dia de festa é dia de feira em muitas cidades do interior. Dia de tirar a barriga da miséria e afugentar a modorra da semana. Dia de encontrar os compadres e comprar a mistura. Trocar uma criação por outras necessidades. Saber as notícias do mundo. Quem morreu e onde choveu. Noticia ruim corre ligeira.

– Fulano morreu de morte apressada, dizia o cumpade da baixa do meio.
– credo cruz tão novo, responde o amigo.
_ E o enterro, como foi?
– Eu é cumpade Xico o enterramos numa rede.

Nas feiras existem os frequentadores de sempre. Personagens que fazem daquele comercio ambulante um teatro vivo. Vende-se de tudo e joga-se a vontade. Os animais são presos na sombra de um pé de cajarana.

Zezinho é um personagem popular na feira do Seridó. Só nunca ninguém ouviu uma palavra dele. Todo mundo pensa que Zezinho é mudo. Responde com gestos. Faz serviços de carregamento de mercadorias e ajuda no que for para ganhar uma mixaria.

– Bom dia, Zezinho!

– Zezinho balança que sim.

Outro dia apareceu na feira uma mulher calçando sapato alto, gravida já de meses. Mulher bonita como só a gravidez pode fazer. Já passava do meio dia e um fiapo de vento balançou uns galhos sedentos de chuva A mulher de barriga olha pra Zezinho como se tivesse pedindo seus braços. Ele olhou e baixou as vistas. Era tímido e não falava. Sua voz parecia branca.

Eis que quando a mulher se aproxima da banca de legumes, Zezinho se saiu com uma pergunta inusitada, apontado o dedo quase tocando na barriga:

– Foi… Pica?

Ninguém que ouviu acreditou naquele acontecimento. Fez-se um tremendo alarido. E Zezinho, fala?! Era o que todo mundo comentava. Desde então Zezinho não foi mais o mesmo e todos o olhavam com desconfiança.

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