Fahrenheit 451: Sobre uma distopia incandescente

Por Alfredo Suppia
NO TERRA MAGAZINE

Dia 1.º de junho, comentei o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut, para o público do ciclo de cinema da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Em sua 14.ª edição, desta vez com o tema “Cinema e Utopia: Um outro mundo é possível”, o evento faz parte do projeto de extensão “Cultura no Campus”, e tem como objetivo oferecer uma programação gratuita e reflexiva aos participantes por meio de mostras temáticas. Fahrenheit 451 é o único filme de ficção científica desta edição do ciclo. Revendo o filme mais uma vez, senti-me estimulado a colocar no papel (ou, melhor dizendo, num hard disk) os comentários que fiz sobre uma obra de destaque no horizonte do cinema de ficção científica.

Começo pela obra original, o romance Fahrenheit 451 (1953), e seu autor, Ray Bradbury. Na minha opinião, Fahrenheit 451 é um dos romances mais destacados na literatura do século 20. Digo literatura, e não literatura de ficção científica, em reverência ao que o próprio Bradbury já teria dito: que não há mais “Literatura mainstream”, de um lado, e ficção científica de outro, pois a FC já é o próprio mainstream.

Resenhando The Bradbury Chronicles: The Life of Ray Bradbury, de Sam Weller (http://www.irosf.com/q/zine/article/10233), Ryder W. Miller observa que “Bradbury era igualmente convincente ao escrever horror, fantasia, ficção científica, mistério e literatura mainstream. Ao longo da vida, Bradbury foi premiado em todas essas areas … Bradbury não apenas lutou para transcender os limites da escrita de ‘gênero’, mas também conseguiu dar à escrita de gênero um apelo de mainstream.”

Sobre o relacionamento do autor de Farenheit 451 com a indústria cinematográfica americana, Miller comenta ainda que “Bradbury decidiu não sumir em Hollywood como roteirista (de filmes como It Came From Outer Space e o Moby Dick de John Huston), ansiando, ao invés, pela fama que viria da escrita de livros. … Weller cita o crítico de cinema Leonard Maltin quanto a isso: ‘Acho justo dizer que um indivíduo tão distinto quanto Ray Bradbury nunca seria bem-sucedido no mainstream de Hollywood. Hollywood se nutre de gente que se conforma de um jeito ou de outro – ao gosto popular, às tendências atuais, à fórmula, aos mandatos da bilheteria, ou que se curva ao desejo de diretores e produtores. Nada disso descreve Ray. De certo modo, faz sentido ele não ter uma lista longa de créditos de filmes. … Embora famoso por obras-primas do conto, como ‘Um Som de Trovão’ e pelos livros As Crônicas Marcianas (considerado por alguns como o melhor livro de ficção científica já escrito) e Fahrenheit 451, Ray Bradbury preferiria que voce lesse o seu livro nostálgico Dandelion Wine.”

Robin Anne Reid, em “Ray Bradbury and the Question of ‘Science Fiction'” (in Ray Bradbury: A Critical Companion. Westport: Greenwood Press, 2000), avalia a polêmica envolvendo Bradbury e “dois mundos” literários, o mainstream e a ficção científica, tendo em vista o trabalho de David Mogen sobre o autor de Fahrenheit 451. Segundo Reid, “O debate sobre se Bradbury deveria ou não ser chamado de escritor de ficção científica depende das várias definições de FC, que vão da insistência em uma extrapolação cuidadosa do conhecimento científico contemporâneo, à assunção casual de que tudo o que tiver espaçonaves será ficção científica, tanto quanto o mundo sociocultural em transformação em que vivem tanto Bradbury quanto os seus críticos e leitores. A análise mais sólida da mudança de status de Bradbury está no livro de Mogen, cujo segundo capítulo é intitulado ‘Bradbury and the Critics: Between Two Worlds’. Mogen traça como Bradbury foi de escritor de gênero que publicava apenas nas pulp magazines até conquistar o status mainstream que ele ainda tem hoje. Sua popularidade, presente no fato de que a maior parte da sua obra permanecer disponível há décadas, tem sido acompanhada por crescente reputação entre críticos acadêmicos. ‘Mogen nota o paradoxal e controverso histórico de respontas à Bradbury, incluindo a ideia de que ‘a crítica mais severa à sua obra veio da comunidade de ficção científica, não do establishment lierário mainstream. Embora ele possa ser a personalidade mundial mais conhecida da ficção científica, a reputação de Bradbury dentro da comunidade de FC em si sempre foi ambivalente.’ Mogen cita o Reader’s Guide to Science Fiction (1978), cujos editores caracterizamed Bradbury como ‘meio que um problema’, notando (como Mogen) as percepções diferentes de Bradbury sustentadas por leitores, críticos e a comunidade de FC. Essa obra de referência repete a crítica usual, da obra de Bradbury: que seria ‘ficção anti-científica’.”

Ainda citando Reid, “De acordo com Mogen, o movimento de Bradbury rumo à publicação mainstream foi marcado pelas resenhas mais numerosas por escritores e resenhadores do mainstream e por vendas cada vez maiores para as revistas ‘slick’, assim chamadas por causa da qualidade do seu papel, em contraste com o papel barato usado nas ‘pulp’ magazines.”

A “questão Bradbury”, por assim dizer – a crítica negativa de sua obra por parte de “conservadores” da FC -, deriva de definições engessadas do gênero, modeladas sobre o pensamento de John W. Campbell (editor de Astounding Science Fiction durante os anos 1930 e 40, período conhecido como a Golden Age da FC, e proeminente personalidade da escalada do gênero nos EUA). O elemento-chave de uma boa ficção científica, segundo Campbell, seria um mundo plausivelmente extrapolado a partir de, e não em contraponto, a princípios e conhecimento científico contemporâneo (na visão de Reid). De acordo com Reid, “Bradbury tem ‘violado’ e continua a violar os padrões da ficção científica hard porque está interessado em escrever de outros modos, sobre o mundo, o universo e a condição humana. … Depois de resumir os vários debates em torno do status de Bradbury, Mogen fornece uma ‘defesa’. Nota que um exame da obra de Bradbury com um todo prova que ele não é simplesmente contrário à ciência e à tecnologia, mas faz parte de uma importante tradição da FC que inclui escritores como H. G. Wells, Aldous Huxley, Frederick Pohl e Ursula K. Le Guin, que ‘alertam para as conseqüências do uso errôneo de novas energias’ e que questionam a crença de que a tecnologia sempre melhora a vida.

Bradbury é um dos grandes mestres da “Era de Ouro” da FC americana, o B do célebre “trio ABC”, que inclui Isaac Asimov e Arthur Clarke (embora alguns críticos incluam Robert A. Heinlein). Conhecido como grande “poeta” da FC norte-americana, Bradbury foi autor de especulações sociológicas que honram a linhagem literária de H. G. Wells e, de certa maneira, prenunciam a New Wave na FC anglo-americana. Fahrenheit 451 talvez seja a mais conhecida especulação sociológica do autor, notadamente melancólica, mas com um “rasgo” utópico em seu final. Melancolia, aliás, é um motivo central na literatura de Bradbury.

Fahrenheit 451 contribui para a tradição das distopias futuristas de inspiração sociológica, com origem eventual em H. G. Wells, e que abrange obras como Nós (1932), de Evgueny Zamiatin, Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e 1984 (1949), de George Orwell. Segundo David Mogen, Fahrenheit 451 funde temas tradicionais da ficção antiutópica para se centrar satiricamente no efeito opressivo de uma filosofia reductionista de “realismo” traduzida para a política social. Uma sátira muito americana, escrita em resposta à atmosfera de guerra fria do pós-guerra, o sarcasmo do romance é dirigido não a instituições governamentais especificas, mas ao anti-intelectualismo e ao materialismo limitante, posando como filosofia social, justificando a queima de livros a serviço de uma idéia degradada de democracia. Fahrenheit 451 descreve um mundo no qual o Sonho Americano virou pesadelo porque foi compreendido superficialmente. Com toda a sua eloqüência ardente, o capitão Beatty representa o alvo satírico de Bradbury, não o Big Brother mas a mesquinhez potencialmente tirânica do homem comum, pervertendo as instituições comunitárias mais básicas, para impor a conformidade.

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