Cooperativa Cultural homenageia Manoel de Barros em seu centenário

O poeta Manoel de Barros – que em dezembro desse ano faria 100 anos – escrevia todos os dias em sua casa, no escritório que ele chamava de “lugar de ser inútil”. Sua poesia nascia de uma caligrafia miúda, escrita em bloquinhos que ele mesmo confeccionava.

Autor de diversos livros que conquistaram o espanto dos seus leitores no Brasil e mundo afora, tais como O Guardador de Águas (1989); O Livro das Ignorãças (1993); Retrato do Artista Quando Coisa (1998) e Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo (2001), só para citar alguns, Barros revolucionou a poesia brasileira pós-moderna no exercício de percepção do mundo, dando significados novos às palavras, exaltando a natureza e oferecendo ao leitor uma poesia imagem, ou imagem poesia, que ele dava o nome de “desenho verbal”, para ser possível “colocar uma imagem na vista do leitor”.

O centenário de nascimento de Manoel de Barros será celebrado nessa sexta-feira, 9 de setembro, na Cooperativa Cultural Universitária, na mesa redonda “Centenário de Manoel de Barros: A Poética da Inutilidade”, coordenada pelo professor do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras Modernas, Carlos Braga, com a participação dos professores do Departamento de Letras, Tânia Lima e Derivaldo Santos. A entrada é gratuita.

Manoel de Barros morreu em novembro de 2014, aos quase 98 anos. Mas sua poesia jamais morrerá enquanto o leitor se permitir ao espanto ou ao encantamento de abrir um de seus livros e se deparar com uma poesia que parece despretensiosa, mas na verdade é reveladora de uma existência só possível através dos olhos do poeta. “Minha imaginação criadora busca lá no baú da infância, onde ficam guardadas as nossas primeiras sensações, os primeiros ruídos, tudo isso é formado na infância. Eu só sei escrever sobre infância, porque eu só sei ir buscar lá nesse cofrezinho. Tenho uma confissão a fazer: noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”, disse ele no documentário dirigido e roteirizado por Pedro Cesar, intitulado “Só dez por cento é mentira”, de 2008, de onde também são tiradas as outras citações de Manoel de Barros nesse texto.

Leitor de Padre Antonio Vieira, quando era interno no Colégio Marista, na segunda infância, Manoel de Barros andava meio entediado com as leituras até descobrir o dono dos famosos sermões, indicação de um padre que era seu professor. Disse que ficara encantado. E nunca mais parou. “Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo” (trecho de O Apanhador de Desperdícios – Memórias Inventadas As Infâncias de Manoel de Barros, editora Planeta). Sua obra e as poucas entrevistas que deu em vida – era avesso a dar entrevistas e quando as fazia, preferia por escrito – Manoel de Barros falava e parecia que preenchia a vida com suas palavras: “Há várias maneiras séria de não dizer nada/ mas só a poesia é verdadeira”. Outra pérola dele. Um autor que para quem já conhece sua obra é sempre uma satisfação poder folhea-la e, para quem ainda não conhece, fica a dica para o prazer da descoberta.

A lembrança e homenagem ao centenário de nascimento de Manoel de Barros, de acordo com o professor da UFRN e conselheiro administrativo da Cooperativa, Carlos Braga, se insere na programação da Cooperativa – que em 2016 completa 39 anos e se prepara para grandes festejos no ano que vem, ao fazer 40 anos – pela importância literária do poeta porque celebrá-lo e evidenciar sua poesia é não só uma atividade relevante, como também de imenso prazer.

SERVIÇO

Mesa Redonda sobre o Centenário do poeta Manoel de Barros
Onde: Cooperativa Cultural Universitária, Centro de Convivências do Campus da UFRN
Dia: sexta-feira, 9 de setembro
Hora: 10h
Aberto ao público

Jornalista formada pela UFRN desde 2000. Trabalhou em veículos como Diário de Natal, Mult TV!, Novo Jornal, Tribuna do Norte e em assessorias de comunicação e imprensa política durante muitos anos. Em 2013 lançou pelo Caravela Selo Cultural o ensaio biográfico, "Navarro - um anjo feito sereno", editado em 2014 pela Edufrn. Atualmente é jornalista free-lancer. Fanpage: bichoesquisito; insta @bicho_esquisito [ Ver todos os artigos ]

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