Cordel e resistência na cultura potiguar

Hoje pela manhã, sob a benção de um Padre Cícero de borracha, eu e o peruano Raul Ortiz entabulamos uma conversa sobre suas andanças pelo Brasil nas últimas décadas, do tempo de Amazônia até a atual temporada em Natal – aguardem que logo, logo publicaremos um perfil do conterrâneo de Mario Vargas Llosa.

Estávamos na Casa do Cordel, nesta terça-feira quente e de ressaca, para alguns. Duas mulheres com o mesmo sotaque o acompanhavam. Até que a prosa foi desviada para a herança e patrimônio cultural dos países vizinhos.

“Vocês não conhecem nada da América Latina”.

Sí, por supuesto, caro Raul.

Da mesma forma que desconhecemos nós outros. A prova disso estava no entorno, com paredes repletas de cordéis, livros, xilogravuras e uma série de objetos característicos de uma região cujos nativos desprezam sem cerimônia. Temas como cangaço e meio ambiente saltavam das capas dos folhetos.

Reformada em 2014, a Casa do Cordel, localizada na rua Vigário Bartolomeu 578, na Cidade Alta, completa dez anos de atividade em agosto próximo. Uma década a serviço de uma tradição nordestina desenvolvida a partir de bardos, menestréis, trovadores e poetas de rua da Europa medieval.

Cultura essa trazida por conquistadores espanhóis e portugueses.

Histórias populares, como a da Princesa Magalona e da Donzela Teodora, e todo um ‘corpus poético’, dito com propriedade por Clotilde Tavares no livro O Verso e o Briefing, que aqui forjaram o Romanceiro Nordestino, ao acrescentar elementos de um modus vivendi distinto – entre gado, índios, negros escravizados, senhores e fazendeiros.

Foi desse caldeirão que surgiu a literatura de cordel, hoje um gênero decantado por intelectuais, mas esnobado por quase todos os potiguares. Sustentar essa cultura é a missão de Erivaldo Leite de Lima, o Abaeté do Cordel.

“Eu trabalhei em vários ramos, de vendedor, já tive mercadinho, mas sempre achava que fazia o que não gostava. Eu pensei: ‘Mesmo sem ganhar dinheiro eu vou fazer o que gosto’. Então comecei a escrever cordel e arrumei um pontinho ali no antigo IFRN. Vi que os professores começaram a procurar, aí aluguei outro ponto aqui na mesma rua. Sem falsa modéstia, o cordel estava parado. As editoras só publicavam clássicos, cordelistas famosos. E quando eu abri, comecei a publicar todo mundo. Me chamam de doido, dizendo que publico gente que não sabe escrever”.

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Erivaldo ganhou o apelido por morar na rua Abaeté, em Capim Macio. Amigos de pelada no campo do Jiqui Country Club adotaram o logradouro. Aos 55 anos de idade, é autor de mais de mil cordéis e transformou a Casa também em editora, com acervo que abarca poetas populares nordestinos, cariocas e paulistas. Acredita que o Rio Grande do Norte virou o centro do cordel no Nordeste e destaca o mossoroense Antônio Francisco como um dos melhores autores vivos.  Para falar de sua batalha como fomentador de uma arte relegada por escolas e poder público, recita as seguintes palavras:

Ele voltou para ficar/com suor e persistência/passou por cima de tudo/com trabalho e competência/sem fugir do seu papel/viva a Casa do Cordel.                                          

Abaeté conheceu o cordel na feira pública de Sertânia, município do Sertão de Moxotó pernambucano com 35 mil habitantes – ele mora em Natal há trinta anos.

“Eu tinha uns sete, oito anos e ia pra feira. Lá eu via o camarada cantar, porque o cordel é feito pra ser cantado. Aí eu comecei a escrever. Mas publicar profissional mesmo, só aqui em Natal, dez anos atrás, com O Casal que Engatou no Parque Industrial” – de Abaeté, comprei Bin Laden Chega ao Inferno e Partiu Sem Deixar Saudade: O Legado da Copa. Em média, a primeira tiragem de um cordel tem mil exemplares, ao preço de R$400,00.

Ele projeta em 250 os cordelistas potiguares da atualidade.

Avisa, porém, que a maior coleção de cordel do mundo está nos Estados Unidos e a segunda, na França. Todos os anos uma professora francesa vem até a Casa do Cordel, em Natal, única do Nordeste, segundo Abaeté, para renovar a coleção e organizar exposições em sua terra natal.

“O rádio e a televisão tiraram o cordel do mercado, mas a internet devolveu. Hoje, com a internet, a gente vende para todo o Brasil e até para o exterior. Por exemplo, tem uma escola em Goiás que trabalha com meus cordéis. Eu mandei ontem”.

Se o Romantismo trouxe as tradições populares para o centro do saber, no século XVIII, o lirismo e a subjetividade vieram juntos. Na Terra Brasilis, o regionalismo e o indigenismo afloraram, muitas vezes em uma linguagem empolada. A contenda entre o coloquial e o erudito, outrora tão discutida, segue na literatura de cordel, paixão explicita de muito doutor versado em rima esnobe.

“A vida é para rir. Como você pode negar uma palavra como Xibiu? Dizem que é feio. Que feio? É uma palavra bonita. O cordel usa essas palavras. Não se pode escrever com o dicionário do lado. Tem que ser escrito na linguagem coloquial nordestina, sem palavra difícil, erudita. É uma identidade. As pessoas procuram o cordel por isso, porque é simples. E é difícil fazer o simples”.

Casa do Cordel_Abaeté 2

Fotografias: John Nascimento

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