Cores que não sei o nome

Tenho cores de outros. Sempre foi assim com as minhas cores. Sou mosaico, colcha de retalhos, entalhes: “cores de Almodóvar, cores de Frida Khalo…”, dos “Esquadros” de Adriana Calcanhoto. Cores de Manu Chao, porque escuto sem parar “La Radiolina” e tenho a sensação de sons de notas tocando cores num sagrado aboio. Cores da Espanha, cores de Barcelona. Cores do México, cores de suas máscaras. Cores rubro-negras do Flamengo e do “Maná” em “Amar is Combatir” que também ando a escutar sem cansaço. Sou daqueles que, quando gostam de uma música, ou de um álbum, escutam à exaustão. Uma, duas, dez vezes mais…

No mês da primavera, manadas de cores me cercam. Alcatéias de nuances disparam-me. Lembro da cor da minha infância: “Flicts.” Com esse livro de Ziraldo, me identifiquei assim que o li. Com a cor Flicts, ainda a minha cor, a minha metáfora. A cor dos que tarde encontram suas pertinências. Seus pertencimentos. Flicts é a cor dos que bem cedo descobrem o significado da palavra estranhamento. A essa raça pertenço.
Pertenço às cores das minhas sensações: Frida e Dalí. Às esfumaçadas cores renascentistas. A Goya. Às cores vivas da África. Às cores das máscaras venezianas. Tudo o que é cor me apanha no seu feitiço.

Ainda mais por setembro, mês da primavera e mês das cores. O meu mês, posso assim tomá-lo para mim. Foi em um setembro que eu me incendiei de cores e me reconciliei com o “demônio da esperança”, exorcizando assim um dito de Machado de Assis com o qual vinha convivendo há tempos: “o demônio da esperança instalou-se outra vez no meu coração”. Foi num setembro que pude, enfim, reconhecer na esperança uma divindade benfazeja ao invés de apenas enxergá-la como um diabinho enxerido feito de ludíbrio e decepção. A esperança, num setembro, cumpriu todas as promessas de trazer uma explosão de cores. Em vez de ser o deus enganador, “sonso e ladrão”, cumpriu as próprias profecias.

Comemoro a primavera escutando Manu Chao e suas cores, não vistas, mas intensamente ouvidas. Comemoro lendo suas letras mais líricas, procurando-me e procurando nelas as pessoas que me fizeram mosaico. Encontro Joana, a mais preciosa. “A minha Joana era feita de melancolia/Asas não tinha. Quando cantava,/fazia questão de não ouvir que cantava,/porque era dos que guardam a esquisitice/de se apavorar com a própria alegria…” Escondia dos mais as cores intensas que tinha, mas foi ela quem, numa tarde molhada, entregou-me o arco-íris, apontando o céu sobre o pico do Cabugi, aquele enorme peito do qual antes de ser gente eu já sugava leite de todas as cores. “Mama cuchara ayudame esta lloviendo y yo tengo frio”. Dá-me, mama, uma colher de cores. Pelas graças de ter a minha Joana, o arco-íris foi, desde então, a minha pátria e o meu caminho, mesmo sendo eu também guardadora de Flicts, a cor do estranhamento, que o Ziraldo me ensinou ser a cor da lua.

A minha Joana se foi, mas não suas cores escondidas nos baús. Não, nem ela se foi, pois é substância: tende a ser onda e duração…

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

ao topo