Corpo bonito

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

A palavra cantada deixa sulcos muito profundos na memória de quem a escuta

Na próxima semana vou ao Rio de Janeiro participar do III Encontro de Estudos da Palavra Cantada, que acontecerá no Forum de Ciência e Cultura da UFRJ. O evento, graças à organização de Elizabeth Travassos, Cláudia Neiva de Matos e Liv Sovik, vai se tornando uma tradição, e oferece abordagens riquíssimas sobre o encontro propriamente dito da palavra com a música. Ao mesmo tempo, por uma coincidência feliz, o Grupo Corpo estará apresentando no Rio o espetáculo “Sem mim”, de cuja música eu participo como coautor. Digo coincidência porque o espetáculo se baseia nas fontes mais antigas da palavra cantada em língua portuguesa, que são as “cantigas de amigo” de Martin Codax, datadas do século XIII.

Escritas mais exatamente em galego-português, essas canções de 800 anos são quase as únicas, de todo esse cancioneiro profano, que nos chegaram acompanhadas das respectivas partituras. Na verdade, a escrita da época se resumia a indicações melódicas sem notação rítmica e sem uma localização precisa do lugar das palavras na melodia. As partituras foram descobertas só no começo do século XX, por um colecionador, num pergaminho perdido que forrava despercebido o volume de uma obra de Cícero. Por muito pouco elas teriam se perdido completamente, sem deixar rastro daqueles cantares que estão entre os primeiros documentos da nossa língua. O galego-português, a propósito, marcou época, na Península Ibérica, como a língua por excelência da canção (tanto assim que Afonso X, o Sábio, falava espanhol mas compunha em galego-português). É que a tradição da poesia cantada provençal foi desembocar na Galícia através de um dos quatro caminhos de Santiago.

A palavra cantada deixa sulcos muito profundos na memória de quem a escuta. Sempre me impressiona o quanto canções distantes, que ouvimos em épocas remotas, aparentemente riscadas do nosso mapa mental, podem ressurgir inteiras na lembrança, com um poder evocativo e uma concatenação interna que as palavras, sozinhas, raramente têm. Parece que o nosso cérebro tem uma central de gravação de música, mais do que de qualquer outra coisa, um estúdio virtual de memorização de músicas e de palavras quando associadas a ritmos e a melodias. As culturas orais, desprovidas de escrita, fazem disso a sua “tecnologia da inteligência”, a sua máquina de memorizar.

Mas o canto não deixou durante milênios outro traço que não esse, inseparável do corpo e da mente de quem escuta, e escrevê-lo, com todas as suas variantes e singularidades, é uma operação sempre difícil, incompleta e tardia. A escrita musical só se desenvolveu muitíssimo tempo depois da escrita das palavras. Tudo isso dá um sabor especial a essas canções atribuídas a Martin Codax, registradas parcialmente por alguém num pergaminho de referência para músicos, que perdeu sua validade de época e virou embalagem de uma prestigiosa obra clássica latina, dormiu sete séculos nesse papel secundário até ser descoberto por um bibliotecário que, trazendo-as novamente à luz, nos faz vê-las com o brilho de uma constelação extinta, como o sinal único da poesia cantada nas alvoradas da língua portuguesa.

Carlos Núñez, meu parceiro na trilha do Corpo, natural de Vigo como, ao que tudo indica, o próprio Codax, achava que a canção brasileira era a mais indicada para dar prosseguimento a essa história,para recriar essas “cantigas de amigo” de uma maneira diferente dos maneirismos vocais próprios da música erudita. Afinal, elas descendem claramente do cruzamento da canção provençal com alguma tradição popular ibérica. Nós entramos, então, na aventura de amaciá-las, de livrá-las o mais possível de excessos ornamentais, de trazer as palavras para o lugar mais intuitivo e mais condizente com a curva entoativa das melodias, de aproximá- las das toadas, das modas de viola, dos ritmos das ondas, de Dorival Caymmi. E isso foi possível graças às vozes de Milton Nascimento, Rita Ribeiro, Jussara Silveira, Ná Ozzetti, Monica Salmaso, Chico Buarque e as “cantareiras” e “pandereteiras” galegas. Em suma, viagens no tempo feitas através do elo frágil e poderoso da voz que canta.

Um dos poemas de Martin Codax diz: “E no sagrado em Vigo / bailava corpo velido: / Amor hei! // En Vigo no sagrado / bailava corpo delgado: / Amor hei!”. “Corpo velido” pode ser traduzido como o “corpo bonito” cuja dança parece dizer: “Tenho amor” (“Amor hei!”). Amor que a continuação da canção parece, no entanto, desmentir (traduzo para o português contemporâneo): “Bailava corpo bonito / que nunca tivera amigo // Bailava corpo delgado / que nunca tivera amado.” Parece desmentir, no entanto, para, afinal, ressalvar, na sua toada manhosamente paralelística: “Que nunca tivera amigo / senão no sagrado em Vigo // Que nunca tivera amado / senão em Vigo no sagrado.”

Como o “sagrado” designa, aqui, segundo os filólogos, o adro da igreja, isto é, o seu entorno, ele acaba por designar também os recessos de um território secreto, propício aos encontros amorosos, onde a bela moça que dança tem, então, o amor que parece não ter. O “sagrado” é seu segredo: “Amor hei!”

Gosto de participar da cadeia de elos cantantes e dançantes que nos traz de volta esses recados sutis, quase perdidos no tempo, da camaradagem amorosa entre o poeta, a mulher e a palavra cantada.

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