Negros e o desconhecimento de nutricionistas

Esses dias eu estava conversando com uma pessoa querida, que professa a mesma religião que eu. Ambas somos juremeiras e candomblecistas.  Durante o nosso diálogo, minha amiga expôs sua insatisfação em relação à nutricionista que havia procurado para uma consulta. Tendo apresentado gordura no fígado nos últimos exames, foi encaminhada a esta especialidade a fim de iniciar uma dieta. Segundo ela, chegando lá, a profissional perguntou o que ela gostava ou não de comer para, em seguida, imprimir algumas folhas com a dieta a ser seguida.

O que aparentemente seria uma narrativa comum do nosso dia a dia revela, na verdade, o racismo presente em vários cursos de formação que não têm o menor interesse em colocar em suas redes curriculares a demanda dos povos de terreiro. Além disso, demonstrar o descaso dxs profissionais da área de saúde que ainda não se sensibilizaram para as questões particulares de cada paciente.

Quando somos iniciades em uma religião de matriz africana, alguns alimentos passam a ser proibidos na nossa alimentação, em razão de já termos oferecido tais alimentos às nossas entidades/ orixás. A oferenda de alimentos é um ato simbólico que concretiza um pacto entre a/o adepta/o e a/o seu orixá/entidade, devendo as/os fiéis dividir com ela/eles sua comida e bebida, e restringir o consumo de alimentos que sua/seu orixá/entidade tenha aversão.

“Quando somos iniciades em uma religião de matriz africana, alguns alimentos passam a ser proibidos na nossa alimentação, em razão de já termos oferecido tais alimentos às nossas entidades/ orixás.”

Quando minha amiga me mostrou a papelada, estava indignada com a quantidade de alimentos que não poderia ingerir, tornando a dieta ineficaz. Mas se você está se perguntando por que ela não falou sua religião para a nutricionista, acredito que a resposta é óbvia. Nem todes nós desenvolvemos a coragem necessária para expor-nos dessa forma. Não vamos esquecer que até pouco tempo atrás o candomblé era crime neste país. Até a década de 60, negres de terreiro eram perseguides pelas delegacias de costumes. Isso foi ontem, praticamente. Apenas seis décadas depois não é tão simples revelar nosso credo.

Contudo, se pensarmos a saúde como um direito de todes, garantido por Lei, esses profissionais deveriam, no mínimo, considerar que nem todes são cristãos e podem, independente de religião, apresentar algumas restrições alimentícias.

Por que é necessário que x paciente informe suas peculiaridades? Por que pessoas que lidam com pessoas ainda não entenderam que somos diversos? Porque ainda prevalece um padrão único de paciente. Será mesmo que essas dietas padronizadas e estudadas durante o curso de nutrição estão levando em consideração as especificidades de religião, classe, geografia, etc.? Nem é preciso avaliar a grade curricular para imaginar o ideal de paciente estudado na faculdade: brancx, cristão, de classe média/alta, vivendo na região Sul/Sudeste.

Geralmente saímos dos consultórios sem nenhuma motivação para seguir os planos.  Ou não encontramos os alimentos nos supermercados próximos de casa, porque não são comuns na nossa região, ou eles apresentam um valor exorbitante, completamente acima do que podemos pagar, ou ainda são restrições para nós.

Precisamos lembrar sempre de que a ciência está aqui ao nosso serviço, para facilitar nossa vida. Não o contrário. Nutricionistas precisam sair da zona de conforto e buscar conhecer a realidade das pessoas mais de perto. “Ah, mas eu não tenho como dominar todas as restrições de todos os grupos”, então, eu pergunto: custa perguntar?

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

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