Correr

Antes o vento o acompanhava, agora ele é o vento. Correr, não importa para onde, não importa de quem ou de quê: apenas, correr. Cruzar as entranhas úmidas da mata fechada, galhos rachando sua face, arbustos rasgando sua pele, um farfalhar distante a persegui-lo sem descanso, sem piedade, sombra indelével, produto talvez de seu próprio delírio. Fugir pela mata adentro, esconder-se dos capitães-do-mato. Correr por becos recônditos, veias fétidas de uma maçã sem rosto, o coração eclodindo, sem fôlego, e silhuetas distantes de agentes a acossa-lo. Correr por ruas enlameadas, esconder-se entre amontoados de lixo, chafurdar em poças de esgoto, a garganta estilhaçada, o medo infiltrando-se entre as fendas da respiração retida, e fardas pretas à espreita em toda esquina. Correr, só correr, correr na madrugada, nos pesadelos e nas vigílias. Talvez, simplesmente correr se si mesmo.

Embrião de uma história que tocou à minha porta numa madrugada qualquer e que, algum dia, tomará forma.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Jarbas Martins 28 de Fevereiro de 2014 17:38

    no limiar da prosa e da poesia, o texto de Antonino Condorelli como que se evapora

  2. Edjane Linhares 1 de Março de 2014 10:38

    Este texto me remeteu aos escritos de Nina. Fui tranquila na sua coluna e nada. Cadê a meNINA? Ela também nos abandonou. Grande perda. Saudades, Nina. Tentei resgatar o texto e não consegui. Segue uma mostra da força literária desta menina linda no site abaixo.

    http://ninaarizzi.blogspot.com.br/2013/11/romance-variegacao.html

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