Cortar-se

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

No sábado passado estive no Rio para participar de uma mesa redonda, com psicanalistas, sobre a arte e a dor. Neyza Prochet falava sobre Fernando Pessoa, Paulo Sérgio Lima Silva, sobre Munch, o pintor do famoso quadro “O grito”, e eu, sobre “O relógio do Rosário” de Drummond, poema do livro “Claro enigma”. Sem que ninguém tivesse combinado, as nossas falas apontaram para um lugar comum aos três artistas tratados: a identificação profunda, neles, de um inaudível “choro pânico do mundo”, latente no “âmago de tudo” (para usar as palavras do poeta mineiro). É isso que grita no silêncio da tela de Munch, é isso que faz um contracanto secreto com o sino da igreja de Itabira, em Drummond, e é isso que abre um buraco negro no sorvedouro poético de Pessoa. Nos três casos, descontadas as diferenças, acusa-se de maneira lancinante o lugar da dor de existir como estando no cerne da vida, a vida contemporânea destituída das garantias de algum Grande Fiador simbólico, “nutrindo-se do sal do próprio nada”

A dor universal, “dor de tudo e de todos, dor sem nome”, chega a adquirir em Drummond as feições de uma entidade onipresente, afrodisíaca, roubando o lugar de Eros como a força que aglutina o mundo. É como se ela tivesse se tornado, surdamente, a nossa única certeza, “a provar a nós mesmos que, vivendo, /estamos para doer, estamos doendo”. Existo porque doo, doo porque existo. Ou então: doendo, provo que existo e provo o existir. Note-se a ambivalência contida no verbo “provar”: ao mesmo tempo em que existência da dor prova, ou atesta, a minha existência, eu sinto o sabor da minha existência quando provo da dor, quando passo por essa provação que é também um sabor, mesmo o mais amargo. A dor seria, assim, o único elo, o que nos sobrou, a ligar as pulsões de vida e de morte.

Estou exagerando no jogo das palavras para chegar mais perto do poderoso impacto do poema, que, mais do que instaurar a dor como uma categoria filosófica, como um universal, está apontando também para ela como um sintoma furioso do contemporâneo: aquilo em que nos agarramos quando as demais conexões identitárias falham e fogem para o buraco negro que engole as garantias psíquicas.

Pois, nesse ponto, Neyza trouxe à baila a síndrome do “cutting”, que vem sendo clinicamente identificada, com recorrência, e que corresponde à compulsão, muitas vezes em crianças, a se cortar na própria carne. É como se, nesses casos extremos, a dor fosse a única maneira de se provar existir, de provar do existir, de marcar um lugar para si que não pudesse ser outro senão na perfuração do corpo. Pode-se dizer que é a manifestação mais crua, na falta de outro recurso, daqueles conteúdos que o poema de Drummond elabora (indo este, no entanto, ao núcleo obscuro desses conteúdos e extraindo-lhes riscos luminosos de decifração e de sublimação). Com o que se pode ver o quanto as manifestações luxuosas da arte estão visceralmente ligadas aos sintomas patológicos da vida coletiva, que elas detectam e convertem, no entanto, a uma outra frequência (no caso dos artistas citados).

O piercing pode ser visto como um cortar-se estetizado e domesticado. Nele, o corte deixa de ser a ação sangrenta da rasgadura carnal, aberta, para se tornar a cifra da perfuração, compartilhada com outros, exibida como uma marca de pertinência grupal sem deixar de ser uma declaração de existência de um corpo próprio, fundada na dor. A tatuagem, por sua vez, faz da perfuração, da prova da dor e da prova corporal da existência, um rito de inscrição, como se viesse do real do “cutting” para o imaginário e o simbólico, com suas figuras, letras e nomes, sem perder essa aderência ao corpo que é a condição dessas práticas, e da qual o piercing é um índice.

Em suma, temos aí quase que uma tabela ou um leque dos sinais de um jogo travado entre o corpo, a dor e as identidades oscilantes, como sinal de época, e como uma reapropriação contemporânea de antigas práticas tribais de escrita no corpo.

Se dissemos que piercing e tattoo são estetizações do “cutting”, não deixa de ser notável que uma parte considerável da arte contemporânea tenha no “cutting” o seu modelo, e queira para si o real do corte na carne, tendo no corpo do artista o seu objeto. Essa tendência pretende justamente dar à prática artística um corpo mais real. Mas o que ela faz é replicar pateticamente o sintoma. Sintoma que Munch, Pessoa e Drummond iluminam, no seu enigma.

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